Descrição de chapéu The Wall Street Journal

PIB do Reino Unido recua 20,4% no 2º tri e tem a queda mais acentuada da Europa

Banco da Inglaterra diz que recuperação a níveis pré-pandemia pode demorar até o final de 2021

Londres | The Wall Street Journal

O Reino Unido registrou no segundo trimestre uma contração mais acentuada que a de seus pares, desempenho que significa que sofreu o pior abalo econômico do coronavírus na Europa, além de registrar o maior número de mortes.

A economia está se recuperando à medida que diminuem as restrições à vida cotidiana e os trabalhadores voltam às fábricas e escritórios, como mostram dados recentes. Mas autoridades do Banco da Inglaterra alertaram que poderá demorar até o final de 2021 para o país recuperar o terreno perdido durante a pandemia.

O PIB (Produto Interno Bruto) do Reino Unido encolheu 20,4% no segundo trimestre, o equivalente a uma taxa anualizada de 59,8%, informou a agência de estatísticas do país na quarta-feira (12). No mesmo período, os Estados Unidos e a Alemanha perderam cerca de 10% de sua produção, a Itália perdeu 12%, a França, 14% e a Espanha, 19%.

"Foram alguns meses difíceis", disse Richard Swart, diretor global de vendas e qualidade da Berger Global, uma unidade da Ringmetall AG da Alemanha sediada em Durham, na Grã-Bretanha, que fabrica anéis usados para selar tambores de contêineres. As vendas em maio e junho caíram entre 20% e 40%, dependendo do setor atendido, disse ele. As vendas melhoraram desde então, mas permanecem esporádicas, um sinal de que a incerteza continua entre os clientes, explicou.

O primeiro ministro britânico Boris Johnson visita obra em Cheshire, Reino Unidos - Phil Boble - 6.ago.2020/Reuters

"Todo mundo se apega à esperança de que haja uma vacina, é a solução definitiva", disse Swart.
O golpe descomunal reflete o momento e a duração do bloqueio nacional no Reino Unido. A Grã-Bretanha fechou as portas no final de março, semanas depois de países europeus comparáveis, e só começou a diminuir gradualmente as restrições no final de maio. Isso significa que a economia esteve fechada durante a maior parte do segundo trimestre, enquanto a Alemanha e outros vizinhos já haviam começado a reabrir.

Outro fator é a composição da economia britânica. Em comparação com seus pares, uma parte maior da economia do Reino Unido é dedicada a atividades que exigem contato pessoal próximo, o que foi especialmente afetado pelas medidas para conter a disseminação da Covid-19, a doença causada pelo vírus. O Banco da Inglaterra calcula que os gastos com essas atividades, como ir ao cinema ou teatro, comer em restaurantes ou assistir a eventos esportivos ao vivo representam aproximadamente 13% da produção total da Grã-Bretanha, comparados com cerca de 11% nos EUA e 10% na área do euro.

Os dados de quarta-feira mostraram que os gastos das famílias encolheram 23,1% no segundo trimestre, em comparação com o primeiro, enquanto o investimento empresarial diminuiu quase um terço. A produção de manufatura e serviços caiu 20%, pois as fábricas pararam e as empresas fecharam.

A atividade aumentou em junho, conforme as medidas de bloqueio diminuíram. A economia registrou crescimento de 8,7% no mês, segundo os números, com destaque para as expansões em hotelaria e construção.

Em meio à recessão, o Reino Unido, em comum com outros países europeus, gastou muito para tentar manter os trabalhadores contratados. Cerca de 730 mil empregos foram perdidos desde março, de acordo com dados da terça-feira (11), mas cerca de 9,6 milhões de trabalhadores que poderiam ter perdido o emprego estavam em um programa de licença apoiado pelo governo.

O Reino Unido registrou 46 mil mortes confirmadamente relacionadas à Covid-19, o maior número na Europa e o quarto maior no mundo, depois dos EUA, Brasil e México. Isso equivale a quase 700 mortes por milhão de residentes, mais que Alemanha, França, Espanha, Itália ou, nessa base per capita, os EUA.
Especialistas em saúde pública dizem que o grande número de vítimas reflete fatores que incluem o envelhecimento e a diversidade da população, pois os idosos e alguns grupos étnicos são mais vulneráveis a doenças graves. A Grã-Bretanha também tem taxas mais altas de obesidade, diabetes e outras doenças associadas a um risco maior de morte do que seus vizinhos europeus.

Alguns também apontam erros na política, como esperar muito tempo para travar a economia e lentidão na implementação de um programa eficaz de teste, rastreamento e isolamento para detectar novos casos e impedir a propagação do vírus.

"Respondemos muito tarde e de maneira caótica", disse Linda Bauld, professora de saúde pública na Universidade de Edimburgo (Escócia). O governo do Reino Unido tem defendido repetidamente sua resposta à pandemia, dizendo que agiu com rapidez e seguindo os conselhos científicos em evolução.

O Partido Conservador, do primeiro-ministro Boris Johnson, continua mantendo uma vantagem confortável nas pesquisas sobre o rival Partido Trabalhista. As duas principais razões para isso: em primeiro lugar, os eleitores pensam que o partido de Johnson pode administrar melhor a economia. Em segundo lugar, os eleitores se mostram complacentes com a forma como o governo está lidando com a pandemia. "Eles estão dispostos a lhes dar o benefício da dúvida, diante das circunstâncias", disse Chris Curtis, da firma de pesquisas YouGov.

Ainda assim, a economia agora suplantou o atendimento de saúde como a questão número 1 para os eleitores no Reino Unido, de acordo com o YouGov, o que significa que a sorte política de Johnson dependerá da velocidade da recuperação econômica e da manutenção do mercado de trabalho quando os programas de apoio ao emprego terminarem, no outono.

Outra preocupação: a previsão do Banco da Inglaterra de uma recuperação prolongada supõe que as negociações de livre comércio com a União Europeia, que deverão terminar neste outono, serão concluídas com um acordo que suavize a etapa final da saída do Reino Unido da UE. A Grã-Bretanha deixou oficialmente o bloco em janeiro, mas continua sendo um Estado-membro de fato até o final do ano.

Caso não se chegue a um acordo, o comércio com seu maior parceiro comercial poderá ser interrompido, potencialmente atrasando a recuperação pós-pandemia.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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