Descrição de chapéu Financial Times

Warren Buffett faz aposta de US$ 6 bilhões em tradings japonesas

Investimento do grupo Berkshire Hathaway marca virada decisiva para além do mercado dos Estados Unidos

Leo Lewis Kana Inagaki
Tóquio | Financial Times

Warren Buffett decidiu fazer uma aposta de US$ 6 bilhões, contrariando o mercado, em cinco grandes tradings japonesas, as seculares casas de comércio de commodities que estão aos poucos se transformando em operações internacionais de capital para empreendimentos e de capital privado.

A decisão de Buffett se segue ao êxodo sem precedentes de US$ 132 bilhões em capital estrangeiro do Japão nos últimos 32 meses, devido à perda de otimismo com relação ao programa econômico do primeiro-ministro Shinzo Abe. Isso faz do grupo Berkshire Hathaway, a companhia de investimento de Buffett, um dos maiores investidores na Mitsubishi, Mitsui, Itochu, Sumitomo e Marubeni.

O investimento no Japão também representa uma incursão decisiva fora do mercado natural de Buffett nos Estados Unidos, onde as ações de tecnologia dispararam para recordes de alta mas outros investimentos industriais sofreram revezes pesados por conta da pandemia da Covid-19.

Warren Buffett, presidente da Berkshire Hathaway; investimento do grupo marca expansão para além do mercado dos Estados Unidos - Johannes Eisele-4.mai.2019/AFP

O Berkshire Hathaway, por meio de sua subsidiária National Indemnity, detém participação acionária de mais de 5% em cada uma das chamadas “shogo sosha”, ou casas de trading geral, de acordo com documentação submetida na segunda-feira às autoridades regulatórias japonesas. As participações, adquiridas ao longo dos 12 últimos meses, tinham valor combinado de quase 670 bilhões de ienes (US$ 6,3 bilhões) em 24 de agosto, de acordo com os documentos.

O grupo anunciou que pretende elevar sua participação a 9,9% em qualquer das tradings –cujas ações caíram fortemente durante a pandemia– e que planeja reter os investimentos por um período longo.

“As cinco grandes tradings têm muitas joint ventures em todo o mundo e provavelmente formarão mais parcerias como essas. Espero que no futuro possam surgir oportunidades que nos beneficiem mutuamente”, afirmou Buffett em comunicado na noite de domingo.

No pregão de Tóquio na segunda-feira, as ações da Marubeni subiram em até 14%, com a Sumitomo avançando em 11%, a Mitsubishi em 10%, a Mitsui em 8,7% e a Itochu em 6%.

Mitsui e Sumitomo confirmaram o investimento do Berkshire Hathaway mas se recusaram a fazer outros comentários. A Mitsubishi afirmou que trabalharia para ampliar seu valor empresarial. A Itochu descreveu o investimento como “notícia positiva” e potencial catalisador para a revitalização do setor de trading. A Marubeni não quis comentar.

Buffett fez sua primeira visita ao Japão em 2011, oito meses depois que a região de Tohoku foi devastada por um grande terremoto. A visita gerou especulação de que o fundador do Berkshire Hathaway, famoso por sua preferência por ações de valor profundo, havia percebido oportunidades no mercado de ações japonês, que estava em queda forte.

Ainda que Buffett não tenha realizado imediatamente os grandes investimentos esperados, a especulação sobre seu interesse pelo Japão irrompeu de novo em setembro do ano passado, quando sua companhia levantou cerca de US$ 4 bilhões na maior emissão de títulos de dívida denominados em ienes por uma instituição não japonesa.

“Se Buffett decidir retornar aos seus princípios iniciais, o Japão é um lugar muito óbvio e muito convincente para que o faça”, disse John Seagrim, operador de ações japonesas na CLSA, na época da emissão dos títulos.

O Berkshire Hathaway anunciou que tinha 625,5 bilhões de ienes em títulos denominados em moeda japonesa em circulação, com vencimentos em datas que principiam em 2023 e se estendem até 2060.

Thanh Ha Pham, analista do banco Jefferies, disse que embora as tradings japonesas possam estar diante de desafios relacionados à pandemia, em longo prazo cada uma delas tinha centenas de subsidiárias e afiliadas em todos os setores cujos negócios eram essenciais para o funcionamento da economia.

Ele disse que Buffett provavelmente estava fazendo seu investimento nas cinco maiores tradings depois de calcular seu valor intrínseco, mas também por ver pouca diferença qualitativa entre elas.

“Se você recuar a 2003, existia na época uma percepção de que não precisávamos mais das tradings, porque o comércio eletrônico estava chegando e todo mundo operaria dessa forma. As tradings foram desconsideradas e tratadas como dinossauros, mas cá estão: ainda vivas, ainda lucrando. Elas tendem a evoluir como negócio, e na verdade o fazem muito bem”, disse Pham.

Tradução de Paulo Migliacci

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