Bolsa cai 4,8% em setembro e tem pior mês desde março

Ibovespa volta ao patamar de junho e dólar sobe 3% no período, a R$ 5,62

São Paulo

A Bolsa brasileira teve o segundo mês seguido de desvalorização em setembro, com recuo de 4,8%, maior queda desde março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou pandemia de Covid-19 e o Ibovespa tombou quase 30%.

Nesta quarta-feira (30), o Ibovespa recuperou parte da forte queda do início da semana e subiu 1%, encerrando o período a 94.603 pontos, patamar semelhante ao de junho, quando o índice se recuperava da queda no primeiro trimestre, o pior de sua história. Neste terceiro trimestre, o índice teve leve queda de 0,5%.

Painel na B3 mostra flutuações do mercado
Painel na B3 mostra flutuações do mercado; Ibovespa acumulou queda de 4,8% em setembro - REUTERS/Paulo Whitaker

O dólar terminou setembro com alta de 2,55%, maior valorização para meses de setembro desde 2015 (+9,3%), cotado a R$ 5,62. Nesta quarta, houve uma queda de 0,4%. O turismo está a R$ 5,76.

Esta é a segunda alta mensal seguida da moeda americana e o terceiro trimestre consecutivo de valorização, com avanço de 3,3%, depois de avanços de 4,7% no segundo trimestre e de 29,4% no primeiro.

Em 2020, a moeda já registra salta 40% ante o real, que tem o pior desempenho entre pares emergentes.

Segundo analistas, o desempenho negativo da Bolsa e do real em setembro reflete o aumento aversão a risco no exterior, que levou à queda das ações de tecnologia nos Estados Unidos, combinada a um maior risco fiscal no Brasil. Aqui o pano de fundo inclui a discussão sobre o Orçamento de 2021 e, mais recentemente, ameaças contra o teto de gastos e as polêmicas em torno do financiamento do Renda Cidadã, novo programa de assistência social.

A Nasdaq, Bolsa americana que reúne grande parte das ações de tecnologia, caiu 5,2% no mês. Segundo Alexandre Espírito Santo, economista da Órama, a Bolsa brasileira acompanhou o movimento

“Antes da pandemia, o Ibovespa acompanhava a Nasdaq em 30% das situações. Agora, a correlação está em 80%. Com perspectiva de crise, os mercados tendem a funcionar de uma mesma maneira. Em 2008, também foi assim.”

O índice S&P 500 caiu 4,7% no mês e o Dow Jones, 3,4%.

O avanço dos novos casos de coronavírus na Europa e nos EUA, com desaceleração da atividade econômica nessas regiões levou o mercado a reavaliar a força e a rapidez da retomada, levando às baixas nos índices em setembro.

No pregão desta quarta, Nasdaq subiu 0,7%, S&P 500, 0,8% e Dow Jones, 1,2%, com a retomada das negociações entre republicanos e democratas para um novo estímulo econômico.

Além disso, o início da corrida presidencial americana aumenta a volatilidade das aplicações e leva investidores a buscarem investimentos de proteção, o que levou grande parte das moedas emergentes perdeu valor ante o dólar.

No primeiro debate da campanha com o rival democrata, Joe Biden, o presidente republicano, Donald Trump, voltou a levantar dúvidas sobre a integridade do processo eleitoral, dizendo sem apresentar evidências, que o uso da votação por correspondência durante a pandemia do coronavírus levaria a fraudes.

"Esse golpe que os democratas estão tentando fazer, é um golpe, um golpe que irá para a Suprema Corte dos Estados Unidos", disse o presidente.

Apenas uma eleição presidencial americana, a disputa entre o republicano George W. Bush e o democrata Al Gore, em 2000, teve seu resultado determinado pela Suprema Corte.

“Se Trump entrar na Suprema Corte pode ser que não se resolva tão rápido como Al Gore, que levou pouco mais de 10 dias. Há risco de os EUA começar 2021 sem presidente. Diante disso, pode haver uma queda maior das Bolsas”, diz Espírito Santo.

O real também foi impactado pela perspectiva de aumento de gastos do governo. Enquanto as reformas seguem paradas, a equipe do ministro Paulo Guedes (Economia) busca uma alternativa para bancar o Renda Cidadã, substituto do Bolsa Família.

A proposta inicial do governo é financiar a ampliação do programa social, que está dentro do teto de gastos, com recursos do Fundeb (fundo para a educação) e precatórios —dívidas de ações judiciais a serem pagas depois das sentenças definitivas—, alternativas consideradas inadequadas pelos analistas por estarem fora do teto de gastos.

Após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e aliados defenderem o modelo na terça (29), Guedes disse, nesta quarta, que os precatórios não vão ser utilizados pelo Renda Cidadã.

“Se queremos respeitar teto, temos que passar lupa em todos os gastos, para evitar propostas de romper teto, de financiar programa de forma equivocada, que nunca foi nossa ideia”, disse o ministro.

"Precisamos ver o quanto da fala do Guedes será ouvida pelo governo, se terá recepção no governo, para depois entendermos se ele estava lavando as mãos ou se a equipe econômica lutará por uma solução mais austera", disse Thomás Gibertoni, gestor da Portofino Multi Family Office.

O JPMorgan, manteve a previsão de que o teto de gastos será preservado no próximo ano, mas diz que "o debate fiscal deu uma guinada perigosa para pior", afirmaram profissionais do banco em relatório.

Apesar de Guedes tranquilizar, em parte, o mercado, investidores estão preocupados com a hostilidade entre o ministro e Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara.

Na tarde de terça, Maia afirmou que Guedes interditou a reforma tributária. O ministro, por sua vez, disse que há boatos de que Maia fez um acordo com a esquerda para travar privatizações.

"Paulo Guedes está desequilibrado. Recomendo ao ministro assistir o filme 'A Queda' ", rebateu Maia. "A Queda" retrata as últimas horas de Adolf Hitler à frente da Alemanha nazista. A história conta o cerco a Hitler na Segunda Guerra Mundial e a derrota do ditador.

“O forte ruído entre Guedes e Maia é a grande interrogação do mercado. Esse mal estar dificulta trânsito das reformas, que, se seguirem neste ano, será uma tarefa hercúlea”, diz Espírito Santo.

No pregão desta quarta, as ações da CSN subiram 7,7%, a R$ 16,50, após analistas do Credit Suisse elevarem a recomendação da ação, com preço alvo indo de R$ 11,50 para R$ 19. O banco também vê perspevctivas positvas para os setor, o que levou Gerdau a subir 3,75%, a R$ 9,40.

A alta de 2,8% do minério de ferro na China também impulsionou os ganhos. A Vale teve alta de 1,3%, a R$ 59,11.

As ações da Petrobras também fecharam em alta. As preferenciais subiram 1,5%, a R$ 19,61, e as ordinárias 0,8%, a R$19,77, após a retomada julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal) sobre venda de refinarias da empresa.

Já a Raia Drogasil saltou 6,8%, a R$ 23,42, após a lançar um marketplace de saúde, dentro de um plano para acelerar seus negócios com maior uso do comércio eletrônico, além de intenção de abrir 240 lojas até 2021.

Em sua estreia na Bolsa, a Boa Vista disparou 15%, a R$ 14,05. O IPO (oferta inicial de ações, na sigla em inglês) da empresa de dados de crédito foi precificado a R$ 12,20 por ação, movimentando R$ 2,17 bilhões.

Dentre as baixas da sessão, a Equatorial perdeu 2%, a R$ 21,18. A empresa participou de leilão de serviços de distribuição de água e esgoto sanitário de Maceió, vencido pela BRK Ambiental. Sabesp, que teve segunda maior proposta, recuou 0,3%, a R$ 46,80.

(Com Reuters)

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