Desemprego limita recuperação e torna incerta a retomada da economia

País só deve voltar em 2022 ao nível de atividade econômica que havia antes da pandemia

São Paulo e Rio de Janeiro

Depois de dois trimestres seguidos de queda, a economia brasileira deve voltar a crescer no terceiro trimestre de 2020, mas o ritmo de recuperação é incerto, devido à questões como a evolução da pandemia, os limites de gastos do governo e um esperado aumento do desemprego nos próximos meses.

O PIB (Produto Interno Bruto) caiu 2,5% no primeiro trimestre (dado revisado para pior) e inéditos 9,7% no segundo, de acordo com o IBGE, número acima das estimativas de mercado.

Para alguns analistas, o resultado pior que o esperado neste começo de 2020 pode ser compensado por um desempenho melhor no segundo semestre.

Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimentos e colunista da Folha, afirma que o resultado do segundo trimestre decepcionou, mas que indicadores mais recentes de atividade mostram um ritmo de recuperação muito positivo.

Como a revisão do primeiro trimestre foi no dado dessazonalizado e não no número original, ela afirma que isso não altera sua projeção para o ano, de queda de 5% para o PIB, com alta de 7,5% no terceiro e 1,5% no quarto trimestre, na comparação trimestral.

“Houve uma decepção grande, muito concentrada em serviços e na agropecuária. Mas não muda muito a expectativa dos agentes de que o terceiro trimestre vai ser melhor, que a economia está retomando”, afirma Srour.

Ela afirma que, se o Brasil mantiver o número de mortes estabilizado, mesmo que em um patamar alto e que demore a cair, será possível manter a reabertura das atividades. A recuperação da economia, no entanto, tende a ser lenta, já que a taxa de desemprego tende a aumentar no próximo trimestre e há dúvidas sobre a continuidade dos auxílios do governo.

O auxílio emergencial foi fundamental para a retomada que a gente está vendo no terceiro trimestre e vai ser fundamental até o final do ano. A grande incógnita é quanto vai ser o Renda Brasil para sustentar o crescimento do ano que vem e ao mesmo tempo não furar o teto e criar uma grave crise de desconfiança na economia”, diz Srour.

O economista do Itaú Unibanco Luka Barbosa afirma que também não alterou a projeção da instituição para o ano, uma queda de 4,5%, e que também espera crescimento superior a 7% neste trimestre. Para ele, no entanto, o auxílio emergencial é um fator menos relevante para a recuperação da economia.

Segundo Barbosa, o principal fator da recuperação é o juro baixo, que tem permitido, por exemplo, o aumento das concessões de crédito imobiliário, para aquisição de veículos e outros bens. Outro ponto é a redução gradativa do isolamento social, que ajudará na recuperação dos serviços. O terceiro fator é a recuperação global que deve continuar ajudando a economia brasileira.

“O quarto fator, e menos importante que esses três, é o auxílio emergencial. Se tirar o auxílio, e precisa tirar em algum momento, e os três outros fatores continuarem a ajudar, a economia vai continuar se expandindo. O risco é não tirar o auxílio emergencial e abandonar o teto de gastos, o que piora a situação fiscal do governo, a dinâmica da dívida sai de controle, as condições financeiras se deterioram, os juros sobem, e aí você mata o principal fator, que é o juro baixo”, afirma Barbosa.

O economista Vitor Vidal, da XP Investimentos, diz que as projeções para o PIB de queda de 4,8% neste ano e crescimento de 3% no próximo estão mantidas, pois o resultado abaixo do projetado no segundo trimestre se deveu, principalmente, a um desempenho pior que o esperado na administração pública. Ele projeta alta de 6,8% no terceiro trimestre.

Para ele, o desempenho futuro da economia ainda está muito dependente da evolução da questão sanitária e também do mercado de trabalho, que deve demorar a se recuperar, como em outras crises.

“Você ainda não está vendo todo mundo com confiança, indo para a rua, consumindo, planejando viagem. Acredito que a recuperação ao longo de 2020 vai ser gradual. Imaginar que vai ter um crescimento em 2021 muito forte ainda é difícil, muito por conta do mercado de trabalho. A gente só volta ao nível pré pandemia no segundo trimestre de 2022”, afirma Vidal.

“A gente vai ver a taxa de desemprego explodir ainda. Ela não está tão elevada porque o número de pessoas procurando emprego está baixo. A partir do momento em que tiver uma retirada dos estímulos, vai começar a ter essa pressão por procura de emprego”, diz o economista da XP.

Thiago Moraes Moreira, economista e professor da pós-graduação do Ibmec RJ, afirma que um ajuste nas projeções de mercado da pesquisa Focus do Banco Central, considerando os dados divulgados do primeiro semestre, apontam para uma retração no ano mais próxima de 6%.

Para se chegar a um número entre 4% e 5%, como projetam governo e vários analistas, seria necessário um desempenho médio de nesse mesmo nível até o final deste ano, mas ele avalia que o crescimento deverá ficar em, no máximo, 3% na média dos dois trimestres.

Para ele, o futuro do auxílio emergencial, o comportamento do mercado de trabalho e as incertezas sobre a evolução da pandemia trazem dúvidas sobre a recuperação da economia.

“A mediana das projeções do Focus só começaram a melhorar quando o mercado percebeu que o auxílio estava fazendo diferença. Alguns economistas avaliam que, pela taxa de juros estar na mínima agora, vai ter um boom do crédito. Eu discordo. Produtos mais associados a crédito são 15% do consumo total. O que sustenta o consumo é a renda”, afirma Moreira.

“Quando se olha para a frente, o viés para as expectativas é negativo. O tombo do PIB foi maior que o esperado, a extensão do auxílio foi pela metade do valor e, no mercado de trabalho, a taxa de desemprego pode ir a 23% se todas as pessoas hoje desocupadas passarem a procurar emprego e não encontrarem.”

De acordo com Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter, a expectativa para o 3º trimestre é de uma recuperação próxima de 6%.

“Apesar da forte queda média do PIB no trimestre, é importante destacar que o comportamento da atividade não foi constante ao longo dos três meses. O mês de abril teve retração mais significativa e, a partir de maio, já observamos melhora. Os indicadores prévios de julho e agosto apontam que a recuperação no 3º trimestre deve ficar entre 5% e 6%, liderada pela indústria, construção, e também uma retomada no varejo que se iniciou de maneira mais tímida a partir de junho, mas vem ganhando força com a reabertura da economia somada ao impulso positivo do auxílio emergencial”, afirma Vitória.

“Os serviços às famílias devem continuar mais impactados pelas medidas de distanciamento social e com recuperação mais lenta”, diz a economista, que projeta queda acumulada próxima de 4,7% no ano de 2020 e crescimento de 3,9% em 2021, retornando ao patamar pré crise somente em 2022.

Em relatório, o Bank of America afirma que a queda no segundo trimestre foi considerável, mas que os indicadores antecedentes mais recentes estão sinalizando uma recuperação contínua da economia. A instituição estima queda do PIB de 5,7% neste ano, com uma recuperação gradual limitada pelo mercado de trabalho.

Para José Ricardo Roriz Coelho, vice-presidente da Fiesp e presidente da Abiplast, a grande questão é o pós-pandemia. “Teremos um governo muito endividado, empresas com dívidas assumidas durante o período da pandemia, ou seja, com taxas de juros altas, famílias endividadas, porque o número de desempregados é muito grande, e, sobretudo, teremos cadeias produtivas desorganizadas, principalmente por aumento de preços de matérias-primas referenciadas em dólar.”

"O resultado do PIB mostra a severidade da crise. Voltamos ao nível de 2009. Entre os setores de serviços que apresentaram queda, informação e comunicação foi o que apresentou a menor taxa, -3,2%. Ao fornecer a base de funcionamento da economia durante a pandemia, o setor de telecom permitiu que outros tivessem quedas menores se caso houvesse uma paralisação absoluta", disse o presidente-executivo do SindiTelebrasil (sindicato das empresas do setor), Marcos Ferrari.

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