Embraer anuncia corte de 12,5% de sua força de trabalho devido à crise

Empresa demite 900 e 1.600 aderem a PDV após pandemia e fim do negócio com a Boeing; sindicato decreta greve

São Paulo

Em busca de uma nova parceria externa e buscando sinalizar ao mercado reação à crise, a Embraer anunciou nesta quinta (3) o corte de 4,5% de seus 20 mil empregados no Brasil e no exterior.

Eles se somarão a outros 10% dos 16 mil trabalhadores da fabricante de aviões só nas unidades brasileiras que aderiram a programas de demissão voluntária.​ Ao todo, serão 2.500 os afetados.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos (SP), onde fica a sede da empresa, fez uma assembleia e decretou paralisação para forçar negociações —grevistas não podem ser demitidos se o movimento não for declarado abusivo pela Justiça.

Um Embraer E195-E2, da nova geração de aviões regionais da fabricante paulista
Um Embraer E195-E2, da nova geração de aviões regionais da fabricante paulista - Divulgação

Os motivos são dois: o impacto da pandemia da Covid-19 no setor aéreo e o fim do acordo segundo o qual a americana Boeing compraria a divisão de aviação comercial da Embraer.

Combinados, os fatores causaram R$ 2,95 bilhões de prejuízo à empresa no primeiro semestre deste ano.

O segundo trimestre registrou o pior resultado em 20 anos, com R$ 1,68 bilhão em perdas. Apenas 4 aviões comerciais e 13 executivos foram entregues, ante 26 e 25, respectivamente, no mesmo período de 2019.

Comparando primeiros semestres dos dois anos, a queda foi de 75%. A empresa afirma que não houve cancelamento de pedidos, mas sim mudança de datas de entregas a companhias aérea.

A Associação Internacional de Transporte Aéreo estima que, após um pico de redução que chegou a mais de 90% nos principais mercados, 2020 feche com uma queda de 55% no volume de passageiros que voaram pelo mundo.

A entidade prevê que o nível de passageiros transportados só voltará ao patamar de 2019 em 2023 e o ganho segundo o quesito passageiro por quilômetro voado, em 2024.

A queda de demanda já havia obrigado as maiores fabricantes do setor, Boeing e a europeia Airbus, a fazer cortes. A primeira anunciou que demitirá em 2020 10% de seus 160 mil empregados e a segunda, 15 mil de seus 135 ml trabalhadores.

Em relação ao fracassado acordo com a Boeing, costurado desde dezembro de 2017 e aprovado no ano passado pelo governo brasileiro, que detém poder de veto sobre negócios da ex-estatal, o prejuízo é de outra ordem.

Neste ano, haviam sido gastos R$ 98 milhões no trabalho de desacoplar a área de aviação comercial que seria comprada pela Boeing.

Mas o mais importante foi o impacto estrutural desse destrinchamento, que paralisou a produção da Embraer em janeiro e agora está sendo desfeito —obrigando a reunificação de setores que foram duplicados, por exemplo.

O divórcio, anunciado pela Boeing em abril, não foi amigável. Os americanos já viviam sua própria crise, com a paralisação da produção do 737 MAX devido a problemas que levaram a duas quedas, quando a Covid-19 chegou.

Acumulando prejuízos, não bancaram o desembolso de US$ 4,2 bilhões (R$ 22,5 bilhões nesta quinta) pela Embraer. Alegaram que os brasileiros não cumpriram cláusulas nunca reveladas do contrato, vistas como detalhes pelos negociadores daqui, e romperam o negócio.

A brasileira disse que a Boeing forçou o fim do contrato devido a seus problemas, de quebra buscando evitar pagamento de multas. O caso agora está numa corte de arbitragem em Nova York.

Com tudo isso, a Embraer anunciou que busca uma nova parceria no mercado internacional. O foco inicial deverá ser o desenvolvimento de uma nova família de aviões turboélice, de menor custo e tamanho. Especulam-se conversas com fabricantes chineses, indianos e japoneses.

Seus programas militares, por outro lado, não sofreram alteração dadas as particularidades do setor. O terceiro cargueiro KC-390 da Força Aérea Brasileira foi entregue no último trimestre, e a empresa nutre esperança de desenvolver uma versão de transporte leve em conjunto com os militares.

Assim, o corte visa demonstrar ao mercado que a empresa não está passiva ante às dificuldades. "O objetivo é assegurar a sustentabilidade da empresa e sua capacidade de engenharia", afirmou a Embraer em nota.

A Embraer passou por uma reestruturação de sua equipe de comando, finalizada em julho, e fechou um acordo com consórcio de bancos para financiamentos de até US$ 600 milhões (R$ 3,2 bilhão nesta quinta) em quatro anos.

Paralelamente, tomou medidas em relação à força de trabalho.

Houve adesão à medida provisória do governo para reduizer salários e jornada por três meses, licenças remuneradas e férias coletivas. Três PDVs (planos de demissão voluntária) foram acionados, o que não foi aceito pelo sindicato.

O prazo de adesão ao terceiro programa acabou na quarta (2). O Ministério Público do Trabalho afirmou que vai investigar as denúncias de que funcionários foram coagidos a aceitar o PDV, o que a Embraer nega.

A empresa já passou por outras crises em sua história de 51 anos. Em 1990, teve de demitir cerca de 4.000 pessoas, selando a crise que levou à sua privatização, em 1994. Em 2009, no bojo da crise econômica mundial, foram 4.300 demissões.

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