Inflação ainda não tira o sono e permite manter Selic baixa

Aumento do preço dos alimentos já faz parte de repasse, mas tende a ser temporário

Marcelo Kfoury Muinhos

Professor e Coordenador do Centro Macro-Brasil da FGV-EESP

A inflação de agosto, divulgada nesta quarta-feira (9), atingiu 0,24%, e, em 12 meses, 2,4%, valor bem abaixo da meta de inflação para o ano de 2020.

Mesmo com o aumento no preço dos alimentos na residência em cerca de 10% no acumulado de 12 meses, a situação dos preços ainda é tranquila e permite ao Banco Central manter os juros da Selic no nível mínimo histórico de 2%.

Há algum desconforto com a inflação dos alimentos, principalmente por estar focado em itens que compõem a cesta básica, como arroz, feijão e café, o que deixa uma percepção para a população de que inflação é maior do que realmente é.

O aumento do preço dos alimentos já faz parte desse repasse, mas tende a ser temporário. Arroz e feijão dispararam no ano, mas devem voltar, como já está acontecendo com a cebola.

Além disso, a inflação no atacado, medida pelos IGPs, que são os indexadores dos aluguéis, está em cerca de 15% no acumulado de 12 meses, o que também causa estranheza. A discrepância é devido ao maior e mais rápido repasse do câmbio e das commodities agrícolas para os preços ao atacado.

Há uma dúvida no ar: se os preços mais altos do atacado irão afetar a inflação dos consumidores.

Por outro lado, os preços do serviço estão despencando —em 12 meses, estão abaixo de 1%—, dada a impossibilidade de utilização de vários desses serviços durante a pandemia.

Em agosto, os preços com educação recuaram 3,5%. Os aumentos da gasolina também pressionaram a inflação no mês passado, mas, como os preços monitorados caíram muito durante a pandemia, em 12 meses ainda estão puxando a média da inflação para baixo. O IPCA é uma média do consumo de famílias que ganham entre 1 e 40 salários mínimos, e o peso dos alimentos nessa cesta é de cerca de 20%.

A profunda recessão causada pela pandemia inibe o repasse dos preços do atacado para o varejo, mas isso pode ser temporário. No próximo ano, se houver uma recuperação forte da economia, pode acelerar o repasse represado nos preços do atacado.

Uma outra hipótese complicadora para o cenário inflacionário é uma recusa por parte das autoridades de desfazer o aumento dos gastos públicos de 2020 com a pandemia.

Nesse caso, pode haver aumento do risco da dívida pública em deter a dívida pública e nova desvalorização da moeda com mais capitais saindo do Brasil. Assim, o risco fiscal pode fazer também com que a desvalorização cambial seja enfim repassada para a inflação dos consumidores.

Concluindo, as projeções dos analistas econômicos estão convergindo para valores próximos a 2% em 2020 e não devem alterar o plano de voo do Banco Central, mas afastam qualquer possibilidade de redução nos próximos meses. Porém, para o próximo ano, o mercado projeta leve alta nos juros da Selic (2,88% pelo Focus), mas eu vejo dois cenários que contemplam altas mais robustas:

1) se a economia se recuperar fortemente; 2) novas desvalorizações com preocupações com as contas públicas.

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