Produtos somem das lojas na Argentina após congelamento

Política que vale para produtos alimentícios e medicamentos gera fricções entre governo, fornecedores e vendedores

Buenos Aires

Há semanas falta iogurte natural nos mercados do bairro de Palermo, em Buenos Aires. Iogurte tem, mas só com sabor de morango, com cereais, com doce de leite. Todos esses, porém, não estão na lista de Preços Máximos (o iogurte natural está) e, portanto, custam um pouco mais.

Procuro arroz integral, que também está na lista de Preços Máximos (que contém 2.300 itens controlados pelo governo), em mercados de Chacarita e da Recoleta. Tampouco há. Mas arroz tem, só que sempre com “algo a mais”: para fazer risoto, com sabor brócolis e assim por diante.

Todos também mais caros.

Trabalhador carrega saco de batatas no Mercado Central de Buenos Aires - Martín Zabala/Xinhua

“Quando você estabelece uma tabela com Preços Máximos, sabe que isso vai acontecer. O congelamento é sempre uma política artificial, de emergência, e que não pode durar muito tempo. O mercado se acomoda. O provedor vai segurar os itens tabelados da lista e tentar vender versões diferentes e, portanto, mais caras”, explica o economista Marcelo Elizondo.

Buscando empenhadamente o mesmo iogurte, perto de casa, vou a um minimercado chinês (muito comum em Buenos Aires, pois, como compram no atacado e têm pouco gasto com pessoal de serviço, costumam ser muito mais baratos do que os supermercados comuns), e volto a perguntar do iogurte.

“Não vai vir enquanto não descongelarem [os preços]. A gente paga uma taxa de transporte dos alimentos que aumenta todo mês, então só vamos trazer o que vale a pena vender. Esse daí está muito barato. Compensa trazer outra coisa no lugar”, afirma o proprietário, usando seu economês sincero.

A política de congelamento de produtos alimentícios e medicamentos, chamada de Preços Máximos, implementada na Argentina em março, por causa da pandemia do coronavírus e com previsão de ir até o fim de outubro, vem gerando fricções entre o governo, fornecedores e associações de vendedores de pequenos e grandes mercados.

Por ora, é a justificativa do governo para defender a população da inflação em tempos de dificuldade.

Também estão congeladas as tarifas de transporte, gás, telefonia móvel e fixa e internet. Aluguéis vencidos não podem gerar desocupação dos apartamentos, tampouco a falta de pagamento de condomínio.

Por ora, tudo isso vem sendo perdoado.

Trata-se de uma das distintas estratégias da gestão de Alberto Fernández para proteger a população mais humilde.

Outra é a distribuição do IFE (Ingresso Familiar de Emergência), que tem entregado 10 mil pesos (R$ 705) mensais a famílias que vivem do trabalho informal ou que estão vinculadas a outros planos sociais do governo.

Ao todo, há 11 milhões de argentinos que sobrevivem com alguma ajuda do estado (de uma população de 44,9 milhões). A pobreza ronda a cifra de 40% da população, de acordo com o Indec (equivalente ao IBGE na Argentina).

O IFE, porém, tem previsão de ser pago, apenas, até o dia 21 de setembro. Ainda não está decidido se irá haver uma nova prorrogação dessa ajuda econômica.

Para distribuir o recurso, o governo tem emitido moeda. Desde o início da pandemia, foram emitidos 1,3 bilhão de pesos (R$ 91,715 milhões).

“A nossa perspectiva é que isso seja absorvido com a retomada do consumo e de áreas que estão hoje paradas”, diz à Folha, de modo otimista, o ministro Martín Guzmán.

Outros economistas discordam. “Imprimir dinheiro é receita certa para criar inflação. Não creio numa híper, mas sim que vamos voltar à situação anterior à da pandemia, que era a de uma inflação muito alta e sustentada, o que pode causar muito estrago à economia do país”, diz o economista Elizondo.

Antes da pandemia, a inflação estava em 55% ao ano, uma das maiores da região, perdendo apenas para a descontrolada Venezuela.

Em agosto de 2020, foi de 2,8%. Embora seja uma cifra menor do que a da média mensal no ano passado, trata-se de uma inflação alta considerando que há diversos preços congelados, muitos comércios não essenciais fechados por quatro meses e pessoas evitando grandes gastos em razão da pandemia.

“É como se insistíssemos em políticas que sabemos que vão acabar mal, achando que por uma vez vai acabar bem. Ou seja, ver duzentas vezes o filme ‘Casablanca’, esperando que o final seja diferente, embora conheçamos o final de cabeça. Se você toma essas medidas, congelamento, emissão monetária, você tem inflação depois”, diz o economista Roberto Cachanosky.

As associações de vendedores vêm pedindo ao governo uma alternativa ao longo congelamento. Victor Palpacelli, presidente da Fasa (Federação Argentina de Supermercados), diz que, “em um cenário inflacionário, é inviável manter preços congelados. Estamos fazendo nossa parte do esforço nessa pandemia, mas precisamos de opções, porque nossos custos têm aumentado”, diz, referindo-se a transporte e a relação com fornecedores.

A Associação Empresária Argentina lançou, há cerca de dez dias, um documento pedindo o fim da política de congelamento e mais políticas de reativação econômica.

“É fundamental evitar os controles de preços e os de tarifas. A Argentina precisa crescer e se desenvolver de modo sustentável”, diz o texto.

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