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Luca Belli

A guerra fria digital chega ao Brasil

País se encontra na linha de fogo entre Estados Unidos e China

Luca Belli

Professor de governança e regulação de internet na FGV Direito Rio, coordenador do projeto CyberBrics e membro do conselho diretor da Alliance for Affordable Internet (A4AI)

As últimas semanas testemunharam uma sequência de ameaças mais ou menos veladas e anúncios mais ou menos bombásticos sobre 5G. Uma guerra fria digital está em curso e o Brasil se encontra na linha de fogo entre Estados Unidos e China.

Depois de o embaixador dos Estados Unidos ter alertado que se o Brasil permitir o desenvolvimento de infraestrutura 5G pela chinesa Huawei "haverá consequências", o embaixador da República Popular da China classificou as afirmações do colega norte-americano como "infundadas" e "puramente difamatórias". E afirmou que a decisão brasileira sobre o 5G será crítica para definir a relação com o gigante asiático.

Neste contexto, uma delegação americana de alto nível acaba de prometer oferecer crédito para as operadoras brasileiras para que elas comprem equipamentos das principais competidoras da Huawei --a sueca Ericsson e a finlandesa Nokia.

Os objetivos dos dois rivais são claros. Depois de ter desenvolvido um ecossistema digital interno de vanguarda, a China pretende afirmar sua influência tecnológica globalmente. Para alcançar sua ambição, Pequim investiu de maneira maciça nas tecnologias consideradas como altamente estratégicas: inteligência artificial, 5G, robótica e internet das coisas (IoT na sigla inglês).

O governo chinês é o único a ter uma visão sistêmica não somente sobre como desenvolver essas tecnologias de maneira sinérgica, mas também uma estratégia –já em fase de implementação há pelo menos quatro anos– sobre como se tornar líder mundial nessas tecnologias.

De outro lado, os EUA conhecem extremamente bem a vantagem estratégica, econômica e política de ser o produtor da tecnologia utilizada globalmente e o principal minerador de dados a nível mundial. E estão determinados a fazer todo o possível para preservar tal posição.

Menos clara parece a posição brasileira: de um lado, o principal aliado ideológico do atual governo; de outro lado, seu principal parceiro econômico. E o leilão das faixas de espectro para 5G agendado para o final do primeiro semestre de 2021.

Para esclarecer a posição nacional, duas considerações parecem necessárias. Primeiramente, por que o 5G se tornou tão relevante? A quinta geração de internet móvel aumenta exponencialmente a performance –maior banda passante e menor latência– mas sua verdadeira vantagem é a possibilidade de controlar muito mais dispositivos conectados.

A tecnologia 5G demanda um enorme investimento para ser implementada. Considere-se que, na China, as três operadoras nacionais –entre as maiores do planeta– formaram um consórcio para compartilhar os custos de implementação. Além de investimento no espectro, é necessário colocar uma enorme quantidade de macro e micro células pela transmissão e ter uma enorme rede de fibra que possa conectar eficientemente todas as células.

Não por acaso, TIM, Telefônica e Claro acabam de formar um consórcio para adquirir parte dos ativos da Oi, detentora da maior rede de fibra da América Latina.

Todo esse investimento claramente não faz sentido pura e simplesmente para atrair consumidores que, em período de crise, precisariam suportar tarifas mensais ainda maiores, além de comprar novos smartphones habilitados para 5G.

Na verdade, o investimento faz muito mais sentido para a indústria brasileira, considerando o enorme potencial do 5G para a internet industrial. O 5G é perfeito para automatização de fábricas –nas quais, por sinal, são essenciais a IoT e a robótica–, e tem extraordinário potencial para a implementação da inteligência artificial. Lembra da visão sistêmica chinesa?

A segunda observação, muito mais pragmática, é a seguinte. Apesar da Huawei ter sido criticada amplamente por supostas falhas que permitiriam espionagem e prejudicariam a cibersegurança, não existe, até hoje, nenhuma prova em tal sentido. Ao contrário, as revelações de Edward Snowden foram evidência absoluta do esquema de vigilância global por meio de tecnologias estadunidenses, chegando a grampear presidentes de nações aliadas, incluindo o Brasil.

Portanto, o governo, as empresas e a sociedade civil brasileira deveriam se perguntar se valeria a pena confrontar nosso principal parceiro econômico, que oferece tecnologia de ponta pelo preço mais reduzido, sem nenhuma sólida evidência de má conduta.

Além disso, cabe destacar que as ofertas de crédito anunciadas recentemente pela delegação norte-americana são efetuadas a poucas semanas de eleições que provavelmente determinarão uma notável mudança das prioridades de política e financiamento exterior.

Tomar escolhas tão relevantes para o futuro das infraestruturas digitais e da indústria brasileira com base em premissas frágeis poderia se revelar uma escolha temerária. Esse é o momento no qual uma visão sistêmica por parte do Brasil parece essencial.

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