Argentina tenta conter disparada do dólar

No mercado paralelo, moeda americana chega a custar mais que o dobro da cotação oficial

Buenos Aires

A Argentina vive uma semana tensa em relação ao dólar e a uma possível desvalorização do peso. Na última terça-feira (27), o valor do dólar paralelo (conhecido como "blue") chegou a 195 pesos, enquanto o oficial está em 83,5 pesos.

A​ desvalorização da moeda local causou uma reação política e uma fricção entre o presidente, Alberto Fernández, e sua vice, Cristina Kirchner. Enquanto esta defende uma troca de ministros, o mandatário respalda sua equipe econômica.

O ministro da economia, Martín Guzmán, tentou duas estratégias para conter a disparada da moeda norte-americana. Primeiro, colocou em licitação bônus em pesos ajustáveis à variação do dólar oficial, na tentativa de levantar a maior quantidade de pesos argentinos do mercado. Com menos moeda local em circulação, a expectativa é que ela se valorize.

Presidente da Argentina, Alberto Fernández
Presidente da Argentina, Alberto Fernández - Juan Mabromata/AFP

Em segundo lugar, Guzmán anunciou que a licitação será nos dias 9 e 10 de novembro, dando tempo para que grandes fundos de investimento que estejam atados ao peso possam mudar de moeda, diminuindo a pressão sobre ela.

Com essas medidas, Guzmán conseguiu fazer com que o "blue" fechasse a 187 pesos na terça e a 181 pesos nesta quarta. Ainda assim, a grande distância que há entre os dólares oficial e paralelo, de mais de 130%, causa grande preocupação no governo e na sociedade.

Para conter o valor do dólar, o Banco Central argentino também vendeu cerca de US$ 80 milhões. Só neste mês, as vendas da moeda americana pelo BC local somam US$ 1,2 bilhão.

A inflação continua subindo, pois o comércio acaba se guiando pelo "blue". E a corrida pelos dólares só está contida porque a compra da moeda está limitada a US$ 200 por pessoa por mês.

Em entrevista a uma rádio local na terça, Guzmán afirmou que não haverá uma desvalorização do peso argentino e que "ainda há alternativas para acalmar o mercado".

Uma das dificuldades que o país enfrenta é o fato de ter havido, durante a fase mais dura da quarentena, um aumento da emissão monetária de mais de 85% com relação a todo o ano de 2019. Isso exerceu ainda mais pressão na inflação e no valor da moeda.

Nesta quarta (28), Guzmán apresentou o projeto de orçamento para o ano que vem, prevendo cobrir déficit fiscal previstao para 2021 (de 4,5% do PIB) em 60% com novas emissões de moeda e 40% com financiamento do mercado.

Ao mesmo tempo, Guzmán iniciou conversas para reestruturar a dívida tomada pelo país com o FMI em 2018 e busca a liberação de US$ 5,4 bilhões que eram parte deste acerto para reforçar as reservas do Banco Central.

Outra medida que vem causando polêmica é a decisão do presidente de reabrir as fronteiras para o turismo com relação aos países fronteiriços. Essa reabertura é limitada. Os turistas poderão vir apenas para Buenos Aires, uma vez em que há restrições internas de circulação dentro do território argentino.

Ao ser questionado por jornalistas sobre a razão desta abertura quando a Argentina enfrenta uma alta no número de contaminações e de mortes diárias pela doença, Fernández referiu-se à necessidade de entrada de dólares no país.

Os turistas somente poderão entrar na Argentina com um exame de coronavírus (PCR) negativo realizado 48h antes do embarque e com a apresentação de um seguro médico. A abertura será para turistas de Brasil, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Chile.

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