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Como a China de Xi Jinping vai manter seu projeto de grande potência mundial?

Três livros mostram as forças que guiam a missão de Pequim pela posição de superpotência e o que isso acarreta para o planeta

James Kynge
Hong Kong | Financial Times

“A China comeu seu almoço, Joe”, foi a ironia de Donald Trump no debate com se adversário, Joe Biden, transmitido pela televisão no mês passado.

Se a temperatura sobe na reta final da campanha para a eleição presidencial nos Estados Unidos, pode-se esperar mais provocações. A visão de Trump é clara: a China é um vilão global que espalhou uma “praga” enquanto roubava empregos e propriedade intelectual dos Estados Unidos. Já Biden, chamou o líder chinês, Xi Jinping, de “bandido”.

O que não se nota quando a China surge como retórica para obter votos, é como Pequim vê sua própria missão histórica como superpotência emergente. Estes livros, cada um ao seu modo, ajudam a corrigir esse desequilíbrio.

O líder chinês Xi Jinping durante evento em Pequim - Noel Celis - 30.set.2020/AFP

Dois deles —China’s Good War (a boa guerra da China), de Rana Mitter, e Superpower Interrupted (superpotência interrompida), de Michael Schuman— são sobre o poder da história para moldar a autoimagem e a posição estratégica da China. O outro —The Emperor’s New Road (a nova estrada do imperador), de Jonathan E. Hillman— mostra como a China projeta seu poder pelo mundo.

Os três mostram que na China há pouca clareza entre repercussão histórica e prospecções do futuro. Ecos e rimas do passado são reproduzidos no presente tão insistentemente que assustam.

Michael Schuman, correspondente estrangeiro na Ásia por 23 anos, tira o maior partido disso. Ele identifica o fundador da dinastia Ming (1368-1644 a.C.), o imperador Hongwu, como ancestral espiritual de Xi Jinping. Ambos criaram regimes personalizados e alimentaram o vitimismo para abastecer o nacionalismo.

O imperador Hongwu, Zhu Yuanzhang, via sua dinastia como renovação do domínio chinês após um século sob os mongóis. Xi se mostra como o herói da nação chinesa depois das humilhações impostas pelas potências ocidentais.

A mentalidade de “nós contra eles” que Xi aplica cada vez mais aos negócios com o resto do mundo ficou clara em um discurso que ele fez em 2014 na Universidade de Pequim.

“A China costumava ser uma potência econômica mundial. Mas perdeu sua oportunidade no rastro da Revolução Industrial e das mudanças consequentes, foi deixada para trás e humilhada sob invasão estrangeira. Não devemos deixar que essa trágica história se repita. A China nunca mais irá tolerar ser ameaçada por nenhum país”, disse Xi.

Enquanto Deng Xiaoping, arquiteto das reformas de livre mercado da China nos anos 1970, inaugurou um período de abertura e interação comercial inédita com o mundo exterior, nos últimos anos Pequim esfriou em relação ao Ocidente.

Se Ming construiu a Grande Muralha, Xi ergueu um “Grande Firewall” de censura para bloquear influências estrangeiras pela internet. A economia hoje prioriza os atores estatais ante os privados, e impôs um regime mais restritivo para estrangeiros.

Os reveses inerentes a essa mentalidade ficam claros no livro de Jonathan E. Hillman. A “nova estrada do imperador” do título se refere à Iniciativa Cinturão e Estrada da China (BRI na sigla em inglês), programa lançado em 2013 para construir infraestrutura em valor superior a 1 trilhão de dólares, em mais de cem países., para reforçar a influência internacional da China.

O livro de Hillman salienta que a China ainda não encontrou uma forma de projetar sua influência além de suas fronteiras de modo a reforçar seu prestígio nacional.

Esse ponto é crucial porque se o BRI seguir sem reformas minará os esforços chineses para polir sua imagem no mundo. Rana Mitter, professor na Universidade de Oxford, aborda essas reivindicações em China’s Good War.

O título do livro quer ser um pouco irônico. Em termos humanos, as perdas da China na luta com o Japão na Segunda Guerra Mundial são estimadas em pelo menos 10 milhões de civis chineses e cerca de 4 milhões de soldados chineses e japoneses. Mas o sentido em que a guerra foi “boa” está no fato de que a China prevaleceu, permitindo que participasse da criação da ordem mundial no pós-guerra.

“Pequim hoje diz que a China foi um criador da ordem que surgiu em 1945, e que a ameaça vem dos Estados Unidos, não da China”, escreve Mitter. Todo país canaliza sua própria história ao lidar com o mundo exterior. Mas a história da China é tão longa e variada que pode ser difícil saber que ecos repercutem mais alto em Pequim em determinado momento. Esses três livros permitem que o leitor —e o próximo governo dos EUA— se prepare para o que a China poderá fazer agora.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves​

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