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Cresce interesse de techs brasileiras por emissões em NY, diz diretor da Bolsa nos EUA

Segundo Alex Ibrahim, da NYSE, maior desenvolvimento do setor no mercado americano atrai empresas locais interessadas em abrir capital

São Paulo

O número de empresas brasileiras de tecnologia interessadas em abrir capital na Bolsa de Nova York cresceu significativamente nos últimos meses, afirma o diretor da NYSE (sigla em inglês para Bolsa local), Alex Ibrahim.

O movimento, segundo ele, acompanha o maior desenvolvimento do setor nos EUA em comparação a outros países.

“Essa demanda cresce cada vez mais e também vem de outros lugares, como China, Canadá, Alemanha e Singapura. Isso acontece porque a maioria dos fundos e analistas especializados neste segmento está nos EUA, o que aumenta o entendimento e o dinheiro dedicado ao setor por aqui”, diz o diretor da NYSE.

Funcionários da Bolsa de Nova York usam máscaras para trabalhar; empresas brasileiras de tecnologia enxergam vantagem em abrir capital nos EUA
Funcionários da Bolsa de Nova York usam máscaras para trabalhar; empresas brasileiras de tecnologia enxergam vantagem em abrir capital nos EUA - Brendan McDermid - 26.mai.2020/Reuters

O maior conhecimento sobre o setor no mercado americano permite uma precificação melhor na hora do IPO (oferta pública de ações) e possibilita uma maior liquidez (velocidade em que um ativo pode ser transformado em dinheiro) nos papéis depois da listagem.

“Além de um preço mais acertado [da ação, no IPO], há mais dinheiro no mercado para essas companhias, já que esses recursos não vêm apenas do varejo, mas também de fundos específicos de tecnologia”, diz Ibrahim.

Além da NYSE, o mercado americano também conta com a Bolsa de tecnologia Nasdaq. Ambas carregam a listagem de grandes nomes do setor, como Apple, Microsoft, Amazon, Alphabet, Facebook, Uber, Samsung, Tencent, entre outros.

Apesar de o setor já estar em aceleração há alguns anos, o avanço tecnológico ganhou ainda mais relevância ante o isolamento social trazido pelo coronavírus. As ações das três maiores empresas de tecnologia do mundo valorizaram 74,5% (Amazon), 71,2% (Apple) e 33,2% (Microsoft) desde o início de março, quando o novo vírus foi considerado pandêmico, até 9 de outubro.

A valorização foi maior do que a alta vista nos principais índices americanos no período, de 37,16% (Nasdaq Composite), 17,70% (S&P 500) e 12,51% (Dow Jones).

No Brasil, as cinco empresas consideradas de tecnologia que estão listadas no Novo Mercado da B3 (maior padrão de governança) tiveram um desempenho misto. Enquanto Positivo acumula perda de 28,7%, Sinqia, Linx, Totvs e Locaweb têm ganhos de 2,27%, 11,54%, 14,07% e 195,54% no período, nesta ordem.

O Ibovespa, principal índice acionário brasileiro, acumula uma perda de 6,42%.

A busca pela abertura de capital no exterior, no entanto, não é de agora. Um levantamento realizado pela Folha em dezembro do ano passado já apontava que mais de um terço (38,5%) das companhias brasileiras que fizeram IPO entre 2018 e 2019 escolheram Nova York.

“Quando vimos as companhias optando por listar no exterior, mesmo tendo seus negócios sediados no Brasil, nos debruçamos no assunto para entender o que estava acontecendo. Em resumo, realmente tudo é uma percepção de que o mercado americano traria mais vantagens pela expertise”, disse Flavia Mouta, diretora de emissores da B3.

Para o diretor de relacionamento com empresas da B3, Rogerio Santana, apesar das poucas empresas de tecnologia listadas na Bolsa brasileira, o segmento tem se desenvolvido e conquistado espaço entre os investidores do país.

“Estamos em um momento no qual investidores [brasileiros] começam a avaliar esses casos e a entender as dinâmicas e peculiaridades dessa indústria. Com o tempo, essa diferença de avaliação e desenvolvimento do setor vai diminuindo”, diz

Ainda segundo executivos da B3, parte dessa tendência de maior conhecimento do setor no país também pode impulsionar empresas que sejam tanto de tecnologia como de segmentos mais tradicionais, como varejo ou commodities.

“Investidores começam a procurar ativos com características diferentes para investir. Por isso, a tecnologia tende a se infiltrar em outros setores. Já vemos isso chegando na construção civil e no varejo de forma importante”, disse Leonardo Resende, também da área de relações com empresas da B3.

Um dos movimentos que também tende deixar o setor de tecnologia mais popular na Bolsa brasileira é a maior facilidade com a qual investidores de varejo começam a comprar ações de empresas internacionais.

Em agosto deste ano a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) flexibilizou as regras dos BDRs (Brazilian Depositary Receipts), permitindo que investidores pessoa física comprassem esses ativos na B3.

Os BDRs são certificados negociados na Bolsa de Valores brasileira que representam ações emitidas por empresas estrangeiras em Bolsas de outros países. Na prática, isso significa que quem adquire um BDR da Apple, por exemplo, compra um ativo representativo dos papéis dessa empresa, e não suas ações diretas. É uma alternativa para que companhias no exterior captem recursos no Brasil.

“Os BDRs mais negociados são de empresas de tecnologia e eu não acho que isso seja coincidência. Esse maior acesso [às empresas listadas no exterior] também faz parte de ampliar o mercado por aqui”, diz Santana, da B3.

Para Ibrahim, da NYSE, o movimento também abre espaço para a dupla listagem.

“É provável que as empresas enxerguem vantagens cada vez maiores na dupla listagem, já que além da liquidez em ambos os mercados, também é possível fazer arbitragem”, afirmou. Arbitragem é a compra e venda de um ativo em mercados diferentes.

Apesar de o mercado de capitais global ter sido bastante resiliente ao longo da pandemia, as discussões agora estão sobre até quando o movimento “bull” (touro, na tradução literária, jargão do mercado para momento de alta dos mercados) deve durar.

Só na Bolsa brasileira quatro companhias já suspenderam o processo de abertura de capital até agora — entre eles o da Caixa Seguridade, que estava prevista para ser a maior oferta do ano, movimentando R$ 10 bilhões. Além do braço de seguros da Caixa, BR Partners, Compass e You Inc. também suspenderam seus IPOs.

Todas as companhias afirmaram que parte do motivo eram as piores condições de mercado —situação que pode trazer uma precificação abaixo do esperado e diminuir a liquidez dos papéis na Bolsa após a listagem.

Até o momento, 40 empresas ainda estão com o processo de abertura de capital em análise pela CVM, aguardando o aval para entrarem na Bolsa.

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