Descrição de chapéu áfrica

EUA se opõem a nigeriana para dirigir a OMC e irritam países membros

Ngozi Okonjo-Iweala seria a primeira mulher e a primeira pessoa da África a presidir a OMC

Nova York | The Wall Street Journal

Os Estados Unidos se opuseram à seleção da ex-ministra das Finanças nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala para dirigir a OMC (Organização Mundial do Comércio), disseram dirigentes da organização na quarta-feira (29), o que representa a mais recente contestação do governo Trump ao grupo.

Okonjo-Iweala seria a primeira mulher a liderar a OMC, depois de conquistar o apoio da maioria dos países membros da organização. Mas com o avanço de sua indicação, em uma reunião na quarta-feira, os Estados Unidos se tornaram o único país a continuar expressando oposição à sua seleção. Dezenas de governos se pronunciaram rapidamente contra a posição americana, afirmando que Washington estava tentando obstruir e enfraquecer a organização que regulamenta o comércio internacional, disseram diversas pessoas presentes à reunião ou informadas a respeito.

Ngozi Okonjo-Iweala, que também tem cidadania dos Estados Unidos, seria a primeira mulher e a primeira pessoa da África a presidir a OMC. Ela estava disputando o cargo com a ministra do comércio internacional da Coreia do Sul, Yoo Myung-Hee, que tem o apoio de Washington.

Okonjo-Iweala
Ngozi Okonjo-Iweala, que também tem cidadania dos Estados Unidos, seria a primeira mulher e a primeira pessoa da África a presidir a OMC - Fabrice Coffrini/AFP

“Havia 27 delegações representadas”, disse o porta-voz da OMC, Keith Rockwell. “Uma delegação não apoiou a indicação da Dra. Ngozi e declarou que continuaria a apoiar a ministra Yoo, da Coreia do Sul. Essa delegação foi a dos Estados Unidos”.

A Casa Branca e o escritório do governo americano para assuntos de comércio internacional não responderam a pedidos de comentários sobre as objeções de Washington a Okonjo-Iweala.

O presidente Trump se queixou repetidamente de que a OMC é injusta com os Estados Unidos, e alguns legisladores republicanos buscam remover os Estados Unidos da organização. Washington bloqueou a indicação de juízes para o principal tribunal da OMC, conhecido como Órgão de Apelação, e assim, desde dezembro de 2019, este conta com um número de juízes insuficiente para decidir sobre grandes disputas comerciais entre países.

Representantes dos Estados Unidos afirmaram que a OMC precisa de uma grande reforma para combater o que os países ocidentais dizem ser práticas desleais de comércio adotadas pelo sistema de capitalismo estatal da China. Washington se opõe há muito tempo àquilo que vê como ativismo judicial do Órgão de Apelação, e o governo Trump atacou o órgão por decidir que algumas tarifas americanas sobre a China eram ilegais.

Rockwell disse que a OMC levaria adiante uma reunião marcada para 9 de novembro a fim de selecionar seu novo líder. Se necessário, e como último recurso, uma votação pode ser realizada para selecionar um líder, o que romperia o precedente de selecionar um líder por consenso.

Ele disse que as consultas aos Estados Unidos e outros países membros continuariam. A Coreia do Sul se recusou a retirar a candidatura de Yoo.

Okonjo-Iweala venceu por ampla margem, disse Rockwell. Ela já garantiu o apoio da União Europeia e de muitos países da África e do Caribe.

Mas no início da reunião da quarta-feira, os Estados Unidos foram o primeiro país a participar da videoconferência, para afirmar que faltava a Okonjo-Iweala a experiência necessária ao posto, de acordo com um embaixador ocidental participante. Os Estados Unidos se queixaram de que as regras eleitorais da OMC eram falhas porque não permitiam que governos registrassem uma visão negativa sobre um determinado candidato, disseram o embaixador e mais uma pessoa informada sobre o acontecido.

A objeção americana levou a protestos dos delegados de mais de duas dezenas de governos e organizações internacionais presentes, com os aliados europeus, a China, o Canadá, e países latino-americanos e africanos se unindo contra os Estados Unidos.

Um representante da União Europeia se queixou de que se os Estados Unidos tinham problemas com o processo, poderiam e deveriam tê-los expressado muito antes, disseram as fontes. Outros países que tinham delegados presentes, entre os quais alguns que inicialmente apoiavam Yoo, aderiram às objeções da União Europeia ao protesto americano. Delegados acusaram os Estados Unidos de tentar intimidá-los e disseram que se os americanos não retirassem suas objeções forçariam uma votação no mês que vem sobre a candidatura de Okonjo-Iweala, na qual virtualmente todos os países membros devem apoiá-la.

“Se chegarmos a uma votação, a probabilidade de que a Nigéria vença é de 99%”, disse o embaixador.

Nos últimos anos, os Estados Unidos têm agido com relação a diversas organizações multilaterais. O governo Trump abandonou a Organização Mundial da Saúde (OMS), alguns meses atrás, e impôs sanções a representantes do Tribunal Criminal Internacional de Haia.

Okonjo-Iweala se posicionou como defensora dos países em desenvolvimento. Ela alardeou sua experiência de gestão e trabalho como dirigente sênior do Banco Mundial e membro da Aliança Global pela Vacinação e Imunização, afirmando que isso era um preparo ideal para direcionar o foco da OMC aos sérios desafios comerciais que a crise de saúde mundial criou.

Em entrevista ao The Wall Street Journal na terça-feira, ela disse que a OMC precisava sair do silo do comércio em que está isolada e cooperar com outras instituições multilaterais a fim de encontrar soluções para questões como a saúde pública, que possam ajudar os países em desenvolvimento a colher os benefícios do comércio mundial.

Em declaração divulgada depois da reunião, Okonjo-Iweala falou como vencedora, afirmando que recebe “com imensa humildade o apoio do comitê de seleção da OMC”.

“Uma conclusão rápida do processo permitirá que os membros recomecem a trabalhar, juntos, nos desafios e prioridades urgentes”, ela acrescentou.

Kelly Ann Shaw, antiga diretora de comércio internacional da Casa Branca no governo Trump e antiga representante do escritório do governo americano para assuntos comerciais na OMC, em Genebra, disse que a falta de consenso sobre a indicação para a direção geral “deixa antever os desafios que virão para quem quer que obtenha o posto”.

“A OMC vive uma grande crise e deveria estar claro para todos os seus membros que o status quo atual, de inação, é insustentável. O sistema multilateral de comércio está à beira do colapso”, ela disse.

A disputa pelo posto, que inicialmente envolveu oito candidatos, foi lançada quando o brasileiro Roberto Azevedo anunciou, em maio, que o deixaria um ano antes do prazo, em parte para permitir que uma nova liderança conduzisse as importantes reuniões da OMC no ano que vem.

The Wall Street Journal, tradução de Paulo Migliacci

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