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Mais procurados na pandemia, veterinários divergem sobre consulta online para pets

Parte dos profissionais defende regulamentação da telemedicina veterinária; conselho resiste

São Paulo

Nos últimos meses, veterinários veem a demanda de clientes confinados em casa aumentar, enquanto as possibilidades de atendimento nas clínicas e consultórios diminuíram. Sobrecarregados, profissionais defendem a regulamentação da telemedicina veterinária —ou seja, a possibilidade de realizar alguns procedimentos de forma online.

Para muitos, seria uma evolução adicional em um segmento de negócio em ascensão. O Brasil tem cerca de 140 milhões de bichos de estimação e já é o segundo maior mercado de produtos pet do mundo, de acordo com dados consolidados pelo Instituto Pet Brasil.

Esse mercado movimenta no país mais de R$ 30 bilhões por ano. Serviços e produtos veterinários têm cerca de 20% dessa fatia. Mas negócios por meios eletrônicos, a maioria comércio, representavam algo como 3% antes da pandemia.

Num mundo ainda sob efeito parcial do isolamento social e rápidos avanços tecnológicos, a telemedicina ganha adeptos entre os donos dos animais, os humanos. Em abril, o governo federal sancionou uma lei autorizando seu uso em caráter emergencial. Desde então, médicos de todas as áreas da saúde e pacientes fazem consultas virtuais, o que mantém os consultório funcionando, ainda que virtualmente.

No entanto a prática é mais polêmica quando falta ao paciente uma capacidade essencial ao atendimento remoto: a de falar sobre seus sintomas. Por isso o debate está travado no CFMV (Conselho Federal de Medicina Veterinária).

O veterinário Leandro Romano, especializado em ortopedia e neurologia, se dedicava à defesa da medida antes mesmo do isolamento exigido pelo coronavírus. Ele estuda as possibilidades de teleatendimento desde 2010, quando se deu conta que gastava a maior parte de seu tempo respondendo a perguntas enviadas por alunos e pacientes por Whatsapp ou e-mail.

"Eu queria uma forma de monetizar isso que fosse moral e ética. Internacionalmente, a telemedicina veterinária é muito forte e aumentou na pandemia. Já é uma realidade no mundo, mas a comunidade médica no Brasil não se interessa", diz.

Romano defende que em sua área, a ortopedia, boa parte dos diagnósticos podem ser feitos por inspeção visual.

"O exame clínico é dividido em partes. Óbvio que o físico não dá para fazer por meio virtual, mas há uma parte mais relacionada à conversa com o dono, a entender o histórico do paciente. E há outra que é a inspeção visual, olhar características específicas, como o paciente está mancando, por exemplo, e isso dá para fazer virtualmente", diz.

Vice-presidente do CRMV-GO (Conselho Regional de Medicina Veterinária de Goiás), Ingrid Atayde lembra que a telemedicina não se restringe à consulta, e inclui também outras possibilidades, como a discussão de casos entre médicos e laudos remotos de exames. Esses meios já são utilizados com frequência pelos especialistas, ainda que não exista regulamentação pelo conselho.

"No caso de doenças crônicas, por exemplo, é preciso conversar sobre acompanhamento virtual. Já se utiliza um chip que monitora a glicemia do animal sem necessidade de coletar sangue, e a leitura pode ser feita remotamente, com segurança para o pet, mas hoje isso não é previsto", diz.

Mas para ela, apesar de a regulamentação dessas práticas ser urgente, o atendimento ainda precisa ser ao vivo. "O ser humano pode relatar seus sintomas, o animal, não. Então a consulta precisa ser presencial, para não levar a erro de diagnóstico."

A veterinária seguiu trabalhando de seu consultório para pequenos animais durante a pandemia. Como forma de segurança, atende apenas com hora marcada, em horários espaçados, e restringiu o número de acompanhantes - apenas uma pessoa é permitida na clínica.

Outra preocupação grande entre os veterinários é o atendimento feito por telefone ou mensagens de texto. Nos últimos meses, com as pessoas em casa convivendo mais com seus pets, muitos deles viram a procura aumentar consideravelmente.

Isso porque, por um lado, donos estão mais atentos a sinais de doenças neles mesmos, em especial com sintomas do coronavírus. Por outro, os próprios pets ficam mais ansiosos com a presença constante dos tutores no lar, além de acumularem energia com saídas mais escassas à rua.

Para além do inconveniente da procura intensa, por vezes em horários inapropriados, pesa também para os especialistas o fato de que o tempo gasto online raramente será remunerado.

A veterinária Estela Pazos, especializada em gatos, sentiu a diferença nos últimos meses. Acabou cortando o Whatsapp depois de ser procurada por clientes durante as madrugadas. Contratou uma assistente para filtrar mensagens mais urgentes e, no geral, direciona a procura para o e-mail.

“Eu terminava meus atendimentos na clínica, ficava duas horas respondendo mensagens. Quando terminava, já tinha um monte de novas, é desesperador. Eu aguentei durante um tempo por ser um diferencial, mas tive que cortar.”

Apesar de também defender a regulamentação para evitar esse tipo de transtorno, Estela é reticente em relação à possibilidade de consulta online. "Eu não me sinto confortável. O gato obviamente não fala e, além disso, tem tendência a esconder a dor. É diferente do cachorro, que mostra quando não está bem. Não dá para aplicar o teleatendimento na veterinária."

O farmacêutico Thássio Vieira e a médica Ana Carolina Cattony tiveram que lidar com um cachorrinho com câncer no cérebro durante a pandemia. O tratamento foi feito no geral presencialmente, mas em determinado momento os donos optaram por parar, devido ao estágio avançado da doença. A neurologista passou a dar orientações por telefone sobre como deixar Fred, como chamava o buldogue francês, mais confortável.

Para além da medicina, entre as soluções que o casal encontrou em tempos de isolamento para cuidar do animal esteve o adestramento online. E no caso, dizem eles, Fred e seu companheiro, o vira-lata caramelo Flintstone, se adaptaram bem à solução virtual.

"Quando já estava super debilitado, o que deu um alívio para Fred foi o treinamento. Era a hora que ele ficava mais tranquilo", conta Ana Carolina. "O atendimento online dos cachorros é uma adaptação, mas mais dos donos do que deles."

Vieira e Ana Carolina seguem com o adestramento virtual com Flintstone. A prática funciona por chamada de vídeo. O casal se reveza entre quem segura o celular e quem passa os comandos.

A adestradora e médica veterinária Flávia Sayeg, responsável pelo treinamento, explica que toda a comunicação é feita com os tutores, e não com os animais, e por isso a adaptação funciona bem. Além de trazer vantagens em termos de tempo e distância - Flávia se mudou recentemente de país, mas manteve seus clientes e ainda ganhou outros. Segundo ela, a procura por adestramento aumentou durante a pandemia.

"O atendimento remoto surgiu como solução para que os treinos que já estavam em andamento não fossem prejudicados, mas logo se tornou mais uma opção nesse mercado. Em pouco tempo comecei a notar os benefícios do serviço feito dessa forma: muito mais praticidade e aproveitamento."

Em nota, o CFMV respondeu à Folha que a telemedicina veterinária requer regulamentação e reconheceu a importância do debate sobre o uso de tecnologias de comunicação para o trato de animais. Mas ressaltou que para o exame clínico, "é imprescindível que o atendimento seja realizado presencialmente por médico-veterinário, como determina o código de ética. Em especial, pela impossibilidade de expressão dos animais."

A veterinária Ingrid Atayde reforça a relevância da discussão: "A modernidade vem acontecendo, as pessoas solicitam e cabe a nós informar o que é permitido ser feito e o que não é. Novos dispositivos de tecnologia vão surgir cada vez mais, e o conselho precisa ter flexibilidade para avaliar possibilidades que não eram previstas. Não podemos ficar de fora dessa discussão, mas devemos delimitar o que é seguro, e o que não é."

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