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Nosso faturamento vai crescer 110% neste ano, diz presidente do primeiro unicórnio do ecommerce

Segundo Rafael Forte, VTEX avança na pandemia graças à presença em diferentes frentes do varejo digital

Beatriz Montesanti
São Paulo

Presidente da mais recente startup brasileira a se tornar um unicórnio, ou seja, valer mais de um US$ 1 bilhão, Rafael Forte diz acreditar que os números do comércio online impulsionados no período da pandemia não voltarão aos patamares anteriores quando o isolamento acabar.

"Até o uso desses termos, para mim, é uma coisa ultrapassada. Se você vai na loja física, pagar com seu cartão, colocar o produto debaixo do braço e sair com ele, foi uma compra digital, porque não tem mais como você se livrar desse modus operandi. Tudo é digital", diz Forte à Folha.

A VTEX trabalha com uma plataforma de comércio que unifica canais de venda, gerenciamento de pedidos e marketplace, o que contribui para as vendas online de marcas globais.

O presidente da startup de ecommerce Vtex, Rafael Forte, posa no escritório da empresa, na Faria Lima
O presidente da startup de ecommerce VTEX, Rafael Forte - Divulgação

Há mais de 20 anos no mercado, se diferencia de outras na lista de unicórnios que tiveram um crescimento fulminante em pouco tempo de estrada. A longevidade faz lembrar que o conceito de startup acaba sendo mais associado ao nível de inovação e ao modelo de negócio, capaz de mudar práticas estabelecidas, do que ao tamanho da empresa ou ao seu tempo de existência.

Ela também é a única no ramo de ecommerce a ultrapassar a marca, na esteira do crescimento do setor nos últimos meses. Segundo a VTEX, foi registrado um aumento de 98% na adoção de sua plataforma no período.

O título de animal místico foi adquirido, em setembro, na quarta rodada de investimentos feita pela VTEX, quando recebeu o aporte de R$ 1,25 bilhão da Tiger Global e da Lone Pine Capital, passando a valer mais de US$ 1,7 bilhão.

A rodada anterior foi feita no final do ano passado, e teve aporte do SoftBank e das gestoras Gávea Investimentos e Constellation Asset. Também permanece como sócio da empresa desde 2015 o fundo americano Riverwood.

O presidente destaca como desde a primeira rodada a empresa não queimou dinheiro de investimento. "Estamos desde 2012 gerando caixa. Acho que essa é uma mensagem importante para as startups que estão aí hoje, de que a vida de fazer rounds não é para se queimar dinheiro, mas para reforçar o desenvolvimento de produtos, de soluções, de marketplace, de inteligência artificial etc."

Mas Forte não se diz impressionado com o novo título: "É um rótulo que o mercado coloca, mas a gente nunca perseguiu e não é algo que muda nosso dia a dia", diz à Folha.

Para ele, se tornar um unicórnio se soma a outros importantes marcos da VTEX —o primeiro foi adquirir a conta do Walmart Brasil, em 2007. De lá para cá, a empresa passou a atender marcas como Coca-Cola, Nestlé e Samsung. Ao todo, são mais de 3.000 clientes em 42 países.

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Vocês são o primeiro unicórnio no ramo de ecommerce, que acabou crescendo muito com a pandemia. O que projetam para o pós-pandemia?

A despeito deste momento que estamos passando, extremamente triste, a humanidade na sua capacidade de invenção adotou o digital como saída para algumas necessidades que precisavam ser supridas, principalmente a de aquisição de bens. É inegável que o varejo, o comércio unificado, precisou se valer das soluções digitais para poder sobreviver. Imagina uma rede que 95% de seu faturamento vem de lojas físicas e a loja fecha do dia para a noite. Você precisa encontrar outra maneira de sobreviver, e a maneira mais rápida que ela encontrou foi o ecommerce.

O ecommerce não é apenas venda digital. Nossas soluções abrangem loja física, marketplace, televendas, todos os pontos de contato que se pode ter com o vendedor, todas as formas que se pode fechar um pedido. A gente foi beneficiado, porque muitas dessas soluções se transformaram na saída para as empresas manterem o faturamento. Para o faturamento da VTEX neste ano, a gente estima um crescimento de 110%, 115%.

Os números que se concentraram hoje na compra digital vão se diluir novamente, voltando para a loja física, mas não vão voltar aos patamares que estavam antes, e por vários motivos.

Primeiro porque o consumidor aprendeu e gostou de usar essa nova modalidade. No Brasil, estima-se que pelo menos cinco milhões de novos consumidores online surgiram nesta pandemia. Outros intensificaram suas compras por esse meio. Eles vão voltar a comprar na loja física, mas não vão deixar de comprar online. Esse é um hábito que começou e vai ficar.

O próprio mercado, os próprios empresários, seja do varejo, seja da indústria, iniciaram diversas iniciativas de diversificação do risco do seu faturamento, porque você não pode ter todos os ovos numa cesta só. Muitos deles começaram estratégias de omnichannel, que é poder comprar online e retirar na loja física, começaram a investir em força de vendas, B2B (negócio para negócio) e por aí vai. Isso abriu um leque muito grande.

Como você avalia o ecossistema de startups hoje no Brasil?

Primeira coisa que eu quero te dizer é que o talento digital brasileiro é uma coisa única no mundo. O brasileiro tem uma capacidade de inovação, reinvenção, de não sucumbir a pressão ou trabalhar dentro do caos que os outros não têm.

Eu vejo talentos de outros países que às vezes congelam em meio a crises como essa. O brasileiro, não. Bate no peito e fala: "vamos lá achar uma solução". Porque o nosso ambiente é hostil.

O país tem um histórico de alta inflação, crises financeiras, crise políticas, diversas mazelas. O brasileiro sabe se reinventar no meio disso. Não à toa muitas soluções das startups brasileiras hoje vêm ganhando muito espaço na América Latina e no mundo, porque trazem soluções realmente disruptivas.

Os bancos brasileiros, e agora está surgindo uma onda de bancos digitais, vêm com diversas inovações que você não vê em nenhum lugar do mundo. O banco tradicional brasileiro já é reconhecido mundialmente pela sua alta informatização, automação de serviços e agilidade.

Existem diversas empresas no ecossistema brasileiro, inclusive no nosso mercado mesmo, que são soluções complementares à VTEX. Meios de pagamento, plataformas de integração, plataformas de recomendação, que vêm ganhando corpo, sendo comercializadas e adquiridas dentro do próprio mercado brasilerio.

Você vê muitas empresas como Totvs, a Magazine Luiza, olhando e comprando diversas startups que complementam seu portfólio de serviços ou necessidades. Olhando o fator externo, existem muitos fundos globais que têm um bom dinheiro destinado a investimentos em América Latina que começaram a olhar para cá. Conheço diversas startups que estão sendo abordadas por esses fundos. Então eu vejo que em pouquíssimos anos vamos ter diversas startups fazendo rodadas série B, série C, ou série D tão grandes quanto as que a gente fez.

Quais são os próximos passos para a VTEX?

Estamos investindo muito em nossas soluções de OMS e marketplace, para empregar um serviço cada vez melhor para o nosso cliente.

Abrimos 170 novas vagas para engenheiros de software trabalharem com produto, queremos continuar evoluindo nossos planos de expansão fora do Brasil e continuar a investir aqui no país, principalmente no desenvolvimento do nosso software, que foi reconhecido como um dos líderes globais.

Vocês têm uma trajetória de duas décadas, o que mudou nos últimos meses?

A primeira coisa que é legal dizer é que a gente vem preparando e organizando a empresa muito dos últimos cinco anos para cá, e nós notamos, a cada ano, que somos uma companhia muito diferente de antes, completamente nova.

Primeiro, no sentido organizacional. A gente realmente profissionalizou o compliance [transparência] e os processos. A segunda coisa que nós fizemos, pode parecer bobagem, mas foi um grande divisor de águas, foi um planejamento de comunicação de alta performance para as pessoas dentro da companhia saberem trocando informações de forma efetiva e eficaz.

Passamos a declarar de forma transparente qual é o futuro desejado da empresa. Ou seja, aquilo em que queríamos focar e o que não queríamos. É muito comum startups perderem energia focando em algo que não é o "core business" [coração do negócios] delas, então isso foi muito importante para gente.

E o que é esse futuro desejado no caso da VTEX?

Sermos uma empresa de tecnologia para comércio unificado, que entrega soluções sem precedentes, detém um conhecimento, é fonte do conhecimento do mercado do comércio digital e referência global nesse nível de atuação.

Em que lugar estão nesse processo?

Vou ser bem sincero com você, o título de unicórnio na verdade é um rótulo que o mercado coloca, mas a gente nunca perseguiu e não é algo que muda nosso dia a dia.

O que trouxe a gente aqui foi manter a consistência no caminho que traçamos e seguimos. É inegável que a gente alcançou um novo patamar, e que ele é um divisor de águas, mas é mais um dentro da VTEX. Foi assim com o Walmart, a Samsung, o Carrefour —grandes clientes que a gente trouxe e que mudaram muito— e com o lançamento do nosso OMS [sigla em inglês para um sistema de gerenciamento], que trouxe soluções para a loja física.

Você vai me perguntar como foi o dia seguinte, eu vou falar que foi igual ao dia anterior. A gente continua trabalhando sem deslumbramento, focado no que a gente quer realizar.

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Raio-x
Rafael Forte, 40
Presidente da VTEX Brasil, está na empresa há nova anos. Antes foi chefe de vendas e diretor de consultas. Em 2001, cofundou a WX7, que foi incorporada à VTEX.​

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