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mercado de trabalho

Os reflexos da pandemia sobre o mercado de trabalho

Alta da taxa de desocupação se deve ao abrandamento do isolamento social

Otto Nogami

Economista, professor do Insper e sócio da Nogami Consultoria e Treinamento

A necessidade de se implementar uma política de isolamento social, não poderia ser diferente, trouxe reflexos sobre a sociedade. O PIB (Produto Interno Bruto) no segundo trimestre do ano, período mais crítico do isolamento, caiu 9,7% ante o primeiro trimestre. Essa queda na atividade econômica veio com a paralisação das atividades de produção e de serviços.

O impacto mais forte se deu sobre o mercado de trabalho. Bom lembrar que, antes da pandemia, a taxa de desocupação já tinha tendência de alta, sinalizando uma componente recessiva na economia. Talvez aí esteja a justificativa para o forte impacto da pandemia, não só sobre a empregabilidade, mas nas atividades informais e serviços domésticos.

A apuração da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), que acompanha as flutuações trimestrais da força de trabalho, no trimestre encerrado em agosto, apresenta recordes negativos em todos os seus indicadores.

A alta da taxa de desocupação se deve ao abrandamento do isolamento social. Com a retomada da atividade econômica, as pessoas começam a sair de suas casas atrás de vaga no mercado de trabalho, condição para que entrem na estatística. Se alguém buscou emprego nos últimos trinta dias, é considerado desocupado, se não, está fora do mercado de trabalho.

A queda no número de pessoas ocupadas pode estar ligada ao fato de que muitas empresas, tentando voltar à normalidade, perceberam que, com o baixo movimento, custos superavam as receitas, obrigando-as a se ajustarem à nova realidade, reduzindo o quadro de colaboradores. O aumento da população desalentada pode estar relacionado a uma combinação da manutenção do isolamento com o cenário político, que cria um clima de falta de perspectivas. A queda no número de trabalhadores por conta própria e de informais pode se dar pelas mesmas razões.

A redução no número de trabalhadores domésticos pode ser atribuída à manutenção do distanciamento social, e pela decisão que muitas empresas tomaram de manter seus colaboradores em regime de trabalho home office, o que reduz a necessidade de ter alguém para cuidar dos afazeres domésticos.

O rendimento médio real habitual ficou estável, interrompendo a tendência de alta. Esta pode ter ocorrido pela busca de colaboradores mais produtivos por parte das empresas, e que tenham a condição de trabalhar remotamente sem necessidade de uma supervisão presencial.

Um aspecto importante a destacar, e que pode ter influenciado o comportamento do mercado de trabalho, está relacionado ao auxílio emergencial. Muitos trabalhadores, formais ou informais, preferiram usufruir do programa a trabalhar ou buscar um emprego.​

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