Presidente da Huawei diz que banimento fará brasileiro pagar mais caro por 5G

Baocheng afirma que, sem a empresa, a evolução da tecnologia demoraria até quatro anos para ser iniciada

Brasília

No Brasil há seis anos, Sun Baocheng, 43, é apaixonado pelas belezas naturais do país, pela caipirinha de limão e pelo churrasco.

A familiaridade com a cultura local deu um empurrão para que, neste ano, ele assumisse o comando da Huawei, gigante global de equipamentos de rede de telefonia e internet, aceitando um dos maiores desafios desde que a companhia se instalou no país, há duas décadas.

Alvo de uma disputa global entre EUA e China, a Huawei corre o risco de ser banida do fornecimento de equipamentos para as redes de 5G no Brasil devido a um alinhamento estratégico entre Jair Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump.

Sun Baocheng, 43, presidente da Huawei do Brasil. Graduado em tecnologia de automação pela Southeast University (EUA). Atua na Huawei desde 2005, onde trabalhou em diversos diretórios regionais da empresa, na China. Veio ao Brasil em 2014 e, em 2017, assumiu o cargo de presidente do Carrier Network Business Group, atuando diretamente com as principais operadoras do Brasil. Em maio deste ano, assumiu a presidência da filial brasileira. - (Danilo Verpa/Folhapress)

Fornecedora preferida das operadoras locais, a fabricante está presente em praticamente todas as redes.

Baocheng afirma que, sem a Huawei, a evolução da tecnologia de quinta geração demoraria até quatro anos para ser iniciada porque as teles teriam de trocar todos os equipamentos, que não conversam com o 5G dos concorrentes. Isso tornaria a evolução da telefonia mais cara para os brasileiros.

Durante entrevista à Folha, feita por videoconferência e com ajuda de uma tradutora do chinês para o português, Baocheng resistiu em dizer com quem fala junto ao governo para tentar reverter o possível banimento de sua empresa do mercado de 5G.

Para ele, um banimento serviria como um sinal ruim de que o país não é mais um território livre e justo para a livre iniciativa e isso comprometeria investimentos estrangeiros.

As operadoras afirmam que a Huawei é sua maior fornecedora. Qual a participação da empresa no mercado de telecomunicações hoje? As pessoas conhecem a Huawei por causa do 5G, mas estamos no Brasil há 22 anos. Começou com o 2G, depois veio o 3G, o 4G, agora o 5G. Temos também transmissão em IP [protocolo de internet] e redes de acesso. Também prestamos serviços para outras indústrias, como energia, instituições financeiras e o setor público.

Qual é, afinal, a participação da Huawei? No setor de telecomunicações, tem algo entre 40% e 50% de participação. Para outras indústrias, também é o prestador principal. Para os pequenos provedores de internet [ISP], temos mais de 40% de mercado.

A Huawei cresceu mais rápido que seus competidores no Brasil depois do 4G? Nessa área a Huawei fez um investimento de mais de US$ 4 bilhões há mais de dez anos. Estamos como líder, além do 5G e de soluções como transmissão em IP. Temos um melhor conhecimento de nossos clientes para oferecer a melhor tecnologia. Por isso, estamos crescendo mais rápido que nossos concorrentes.

Quanto a Huawei cresce mais do que seus concorrentes? Difícil responder.

As empresas afirmam que, especialmente no 5G, a solução é mais barata. O leilão só vai acontecer no ano que vem. Os operadores que decidirão quais fornecedores vão contratar, mas a Huawei vai prestar a solução com o melhor custo benefício.

Como o senhor está lidando com a possibilidade de restrição pelo governo brasileiro de banimento ou restrição à participação da Huawei como fornecedora de equipamentos de 5G para as teles? Primeiro, só gostaria de lembrar que será um leilão que a Anatel vai fazer e os operadores vão participar. A Huawei não participa diretamente. Além disso, hoje uma operadora já pode usar as redes existentes para fazer upgrade de 4G para 5G com [atualização] de software. No ano que vem, vai fazer leilão para frequências novas e os operadores vão participar. O banimento da Huawei terá pontos negativos.

Quais? Há três principais. O primeiro é que vai demorar a transformação digital do Brasil. O segundo é que vai aumentar os custos dos operadores e o terceiro é que os custos dos operadores vão ser transferidos para os consumidores. Os brasileiros vão pagar um preço mais alto pelos serviços [de 5G]. Acho que qualquer tipo de banimento contra a Huawei só vai trazer impactos negativos e nenhum ponto positivo.

Quanto a mais custará para os consumidores? Muito difícil calcularmos. Nossos clientes, como operadores, sabem melhor do que a Huawei que tipo de custo virá com o banimento ou algum tipo de restrição.

O 5G promete a chamada transformação digital. Por que ela seria retardada com o banimento? A transformação digital vai demorar porque agora tem muito equipamento da Huawei nas redes do Brasil. Todos estão prontos para a evolução de 4G para 5G. Se vai trocar esses equipamentos, vai demorar muito tempo. Se for assim, vai demorar mais anos para a transformação digital.

Algumas operadoras afirmam que não seria preciso, necessariamente, trocar os equipamentos da Huawei porque eles seriam capazes de conversar com aparelhos de outros fabricantes na tecnologia 5G.
Na nossa tecnologia, isso não é possível. Não existe ainda um protocolo nesse tipo de conexão, algo que não depende dos fornecedores mas dos padrões do setor. E ainda não existe padrão para esse tipo de conexão entre fabricantes diferentes. Isso vai ser realizado, mas só três anos ou quatro anos à frente.

Insisto na pergunta, como o senhor está lidando com a possibilidade de restrição ou banimento? Entramos no Brasil no momento da privatização, em 1998. Sempre respeitamos a lei e os regulamentos no país, incluindo aqueles sobre proteção de dados e da privacidade. Estamos sempre mantendo contato e conversas com as agências vinculadas ao governo. Desde a privatização, o mercado sempre foi livre, justo, sem discriminação. Acredito que o governo vai fazer a opção correta. Acho que um mercado livre sem discriminação não é só importante para a Huawei, mas também para outras empresas estrangeiras. Por isso há tantas empresas com vontade de investir no Brasil.

O presidente dos EUA, Donald Trump, escolheu a Huawei como alvo de uma disputa não só comercial como geopolítica com a China. O presidente Bolsonaro é um aliado de Trump, que força o Brasil a impor barreiras contra a Huawei. Ou seja, o 5G se tornou um assunto de estado. A China dá suporte à Huawei nessa disputa? Parece que é uma disputa geográfica ou ideológica mas, na verdade, é um ataque contra as empresas de alta tecnologia, inclusive contra as chinesas. Os EUA são um país muito prático. No passado, tentaram ganhar da Alstom, atacaram a brasileira Engesa, e agora estão tentando com a Huawei. No futuro, qual será a próxima empresa? Alguns políticos americanos sempre estão atacando a Huawei sem provas. Não há evidências contra a Huawei sobre segurança cibernética e proteção de dados.

Existe algum processo judicial em que a suposta fragilidade de segurança de dados dos equipamentos da Huawei tenha sido questionada? Não sei se existe. Operamos em mais de 170 países há mais de 33 anos e nunca ocorreu nenhum incidente de hacker.

Afinal, a Huawei conta com o apoio do governo chinês? Não sei como responder. A Huawei é uma empresa 100% privada.

A Huawei mantém relações comerciais com o governo federal? Não é só comercial. Contribuímos com a responsabilidade social. Nos dez anos passados treinamos mais de 30 mil talentos [que hoje operam no setor]. E nosso plano é que, nos próximos cinco anos, vamos treinar outros 30 mil.
Também trabalhamos com nossos parceiros para fazer a conectividade nas áreas rurais, importante para o Brasil.

Essas iniciativas são em parceria com governos locais ou federal? Cooperamos com vários tipos de parceiros. O treinamento é com as universidades, como o Inatel. Temos também outros projetos com ministérios, como o da Educação e o da Agricultura. Trabalhamos também com outros parceiros para treinar os “nem-nem”, os jovens que nem trabalham nem estudam.

Representantes do governo dos EUA visitam regularmente o alto escalão do Planalto alertando contra os riscos de um aval à Huawei. Sua empresa também faz esse tipo de abordagem? Vamos manter a comunicação com o governo para apresentar uma Huawei aberta e transparente. Como fazemos há 22 anos. No futuro, vamos continuar a respeitar a lei do Brasil, a soberania digital, a proteção dos dados e da privacidade.

Com base no que Bolsonaro tem dito sobre 5G, diria que haverá restrições? Estou ciente da palestra de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU. Ele mencionou o 5G. Ele disse que qualquer empresa tem de respeitar a soberania digital, a proteção dos dados e da privacidade dos usuários. Acho que esse padrão é muito certo. Se existe esse padrão a Huawei vai respeitar.

Acredita que haverá algum tipo de sanção comercial da China contra o Brasil caso a Huawei sofra restrições no 5G? O Brasil é um mercado livre e justo, algo muito importante para a economia, não só para o mercado, para todas as multinacionais. O Brasil não deve escolher os EUA, nem escolher a China, tem de escolher o caminho de um mercado sem discriminação, livre e justo, porque isso vai beneficiar o país e o povo.

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