Descrição de chapéu Pix

Sistemas engessados podem ter sido motivo de falha de apps bancários no lançamento do Pix

Grandes instituições tiveram instabilidade nesta segunda; investimento do setor em tecnologia foi de R$ 25 bilhões em 2019

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São Paulo e Brasília

Os sistemas dos grandes bancos privados falharam nesta segunda-feira (5), no primeiro dia de cadastro do Pix, novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. Clientes criticaram ao longo do dia a dificuldade de acesso nos aplicativos bancários e muitos relataram que não conseguiam pagar contas.

Tradicionalmente, os grandes bancos brasileiros foram protagonistas em inovação tecnológica e financeira, criando um sistema integrado e ágil, mas especialistas ouvidos pela Folha afirmam que o tamanho do sistema e a concentração bancária podem ter feito com que alguns dos processos desses bancos tenham ficado engessados.

Ao longo do dia, principalmente pela manhã, clientes dos três maiores bancos privados do país publicaram reclamações em suas redes sociais criticando os aplicativos bancários pela lentidão e instabilidade.

Aplicativos bancários apresentaram instabilidade nesta segunda-feira, primeiro dia de cadastro do Pix, novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Centralacesso celular
Aplicativos bancários apresentaram instabilidade nesta segunda-feira, primeiro dia de cadastro do Pix, novo sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central - Pixabay

Apesar de não existir um prazo final para o cadastro no novo sistema, o Banco Central afirmou que só nesta segunda-feira o Pix teve 3,5 milhões de chaves cadastradas.

Segundo um especialista em tecnologia que preferiu não se identificar, a estrutura maior e mais complexa dos grandes bancos faz com que eles sejam mais engessados em comparação com outras instituições de menor porte. Esse problema também afeta os sistemas associados a eles, como os aplicativos.

Por essa razão os aplicativos não teriam sido capazes de aguentar o fluxo maior, apesar dessa movimentação não ser uma surpresa —o início dos registros de cadastos do Pix já estava na agenda dos bancos.

Para esse especialista, é difícil imaginar que, com todo o investimento anunciado em tecnologia, os bancos não tenham sistemas preparados para receber um grande volume de acessos.

O Banco do Brasil, que não recebeu reclamações como os bancos privados, aprovou R$ 2,3 bilhões a mais para as áreas de tecnologia e infraestrutura como forma de se antecipar ao Pix. A instituição anunciou, em agosto, que o valor será investido dentro de três anos.

O diretor de Tecnologia do BB, Gustavo Fosse, ressaltou que, além do reforço na infraestrutura, a instituição realizou testes exaustivos nos servidores para evitar a sobrecarga.

"Estamos nos preparando há muito tempo. Fizemos muitos testes de estresse e alto volume de requisições, até para saber quanto cada servidor suportava. Isso deixou nossa infraestrutura numa posição tranquila para a demanda", disse.

Segundo ele, o aplicativo do BB chega a 6 milhões de acessos simultâneos por dia.

Entre o total de cadastros feitos hoje no Pix, divulgado pelo BC, pelo menos 10% eram de clientes do Banco do Brasil.

Os últimos dados divulgados pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) apontam que em 2019 o volume investido pelo sistema financeiro foi de R$ 25 bilhões, 29% a mais do que o orçamento do ano anterior, de R$ 20 bilhões.

Ainda segundo os especialistas, parte da explicação para os problemas também pode residir em falha nos testes do sistema –que passou a incluir um meio de cadastro para o Pix– ou mesmo num processo de contingência de segurança.

“Os sistemas talvez não estavam preparados para receber o número de acessos que receberam, o que também é estranho, já que o cadastro era previsto. Além disso, também é possível que seja algum aspecto ligado à segurança da tecnologia, já que os bancos tendem a tomar uma série de cuidados no cadastramento dos usuários para o novo sistema. Pode ter sido uma contingência de segurança”, afirmou o professor do Insper Ricardo Rocha.

Outro fator que chamou a atenção foi BB e Caixa não terem apresentado um volume semelhante de reclamações aos vistos entre clientes dos bancos privados. Segundo Rocha, a explicação também pode estar atrelada ao público de cada banco.

“É natural imaginar que o pessoal de mais alta renda já tenha recorrido aos bancos para experimentar o Pix, mas é provável que uma grande parte da população de mais baixa renda que, inclusive, é a maior parte do público desses bancos [estatais], não tiveram pressa para se cadastrar, já que não usam cartões ou celulares para pagar com tanta frequência”, afirmou o professor do Insper.

Em nota, o Itaú afirmou que a instabilidade vista no seu aplicativo nesta segunda-feira não foi pelo alto volume de acessos.

“O Itaú Unibanco esclarece que enfrentou um problema pontual durante parte do dia, sem relação com o volume de acessos, e reforça que o app para clientes pessoa física já está operante, inclusive com a funcionalidade de cadastro de chaves do Pix. O banco pede desculpas a seus clientes por qualquer inconveniente”, afirmou em nota.

Sem dar mais detalhes, o Bradesco disse que foi um problema de instabilidade no aplicativo do banco.

“O Bradesco esclarece que registrou momentos de instabilidade no app, que não chegou a ficar fora do ar. O problema já está resolvido. Os demais canais do banco permanecem ativos e funcionaram normalmente”, disse em nota.

Já o Santander afirmou apenas que “o aplicativo já estava normalizado”.

A previsão é que o novo sistema esteja completamente disponível para operação só a partir de 16 de novembro. O Pix permitirá mandar dinheiro para outra pessoa ou empresa de maneira instantânea e independente de qual seja a instituição de recebimento.

As transações poderão ser feitas 24 horas por dia, nos sete dias da semana, incluindo feriados, e acontecerão de maneira gratuita para pessoas físicas e microempreendedores individuais.

Nesta segunda, começaram os cadastros das chaves dos clientes, como são chamadas as indentificações das contas cadastradas. O registro das chaves é quando o cliente vincula ao número do celular ou ao endereço de email, por exemplo, informações pessoais e bancárias.

Na prática, quem fizer o cadastramento não vai precisar informar todos os dados na hora de transferir dinheiro ou pagar conta pelo Pix. Precisará apenas falar a chave cadastrada (CPF, email ou número de celular, por exemplo).

Para o cadastro inicial, clientes pessoas físicas e jurídicas poderão acessar o aplicativo das instituições nas quais têm conta e registrar uma das chamadas “chaves Pix”. Existem quatro tipos de chaves: CPF/CNPJ, email, número de telefone celular ou uma chave aleatória, que será constituída por um conjunto de números, letras e símbolos gerados aleatoriamente e que servirá para que a pessoa não precise passar outros dados.

Segundo o BC, uma pessoa pode fazer até cinco chaves por conta-corrente e uma empresa, pode até 20. Elas precisam ser validadas uma a uma.

Na prática, o Pix vai transformar toda conta –seja ela corrente, poupança, de pagamento ou uma carteira digital– em um grande sistema de pagamentos que concorrerá com cartões e maquininhas.

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