BC nega antecipar intervenções no câmbio após declaração de diretor

Em evento, Fabio Kanczuk indicou que autoridade monetária deve atuar no final do ano

Brasília e São Paulo

Após declaração do diretor de Política Econômica do BC (Banco Central), Fabio Kanczuk, sobre possível atuação cambial no fim do ano, a autoridade monetária divulgou nota na noite desta sexta-feira (6) para afirmar que não antecipa eventuais decisões sobre intervenção no câmbio.

Em evento virtual promovido pelo Itaú na tarde desta sexta, Kanczuk indicou que o BC deve atuar no final do ano em função de grande fluxo esperado no país pela questão do overhedge dos bancos, um mecanismo de proteção contra a variação cambial.

De acordo com Kanczuk, o BC tem o tema “super bem monitorado”. Ele pontuou ser trabalho da autoridade monetária impedir problemas.

Autoridade monetária divulgou nota na noite desta sexta-feira (6) para afirmar que não antecipa eventuais decisões sobre intervenção no câmbio - Rahel Patrasso/Xinhua

“O mercado precisa ser espesso, grosso o suficiente para aguentar um fluxo muito grande que vai acontecer no finalzinho do ano, e o Banco Central [está] pensando em alternativas de como não deixar que esse fluxo seja disruptivo”, disse ele.

“A gente tem dúvida se mercado tem espessura suficiente para isso e acha que vai precisar dar alguma ajuda para isso não chacoalhar e com isso o Brasil inteiro sair prejudicado”, completou.

Após as declarações, a moeda americana acentuou a trajetória de queda. No fechamento da sexta, o dólar caiu 2,84%, a R$ 5,388, menor valor desde 18 de setembro e sua maior desvalorização diária desde 28 de agosto.

No início da noite, o BC soltou uma nota à imprensa, na qual afirma que decisões sobre disfuncionalidades de mercado são tomadas de forma fundamentada, com governança e transparência.

“O Banco Central reitera que avalia continuamente o funcionamento do mercado de câmbio e esclarece que não antecipa eventuais decisões sobre intervenção, rejeitando quaisquer interpretações neste sentido”, informou.

Para entender o peso da declaração de Kanczuk é preciso estar atento a uma mudança tributária em curso no setor financeiro e seus eventuais efeitos sobre o mercado cambial.

Pela regra atual, não se tributa a variação cambial dos investimentos dos bancos no exterior. No entanto, há tributação para o hedge (proteção contra a variação do câmbio) feito no Brasil. Por causa dessa diferença, o banco contrata a proteção no Brasil por um valor superior ao que mantém de dólares lá fora.

Esse adicional ao valor do investimento é o chamado de overhedge.

Essa proteção costuma ser feita por meio de instrumentos financeiros como contratos futuros de dólar e de cupom cambial em Bolsa de Valores. Basicamente, os bancos têm posições vendidas em dólar e compradas em real. Em momentos de câmbio instável, como se vê agora durante a pandemia, o custo das operações fica ainda maior.

Dado valor elevado de investimentos no exterior, e a proteção ainda mais elevada no Brasil, se as posições forem desmontadas de uma hora para outra, o impacto no mercado de câmbio no país tende a ser forte.

Com uma MP (Medida Provisória) em março, transformada em lei em julho, o governo vai mudar a tributação. Grosso modo, haverá tributação nas duas pontas, o que eliminaria a necessidade de a proteção ser maior para compensar sua tributação, reduzindo a necessidade orverhedge.

Para zerar posições de overhedge, é preciso vender real e comprar dólar. Todo o mercado espera que o Banco Central atue no mercado no final do ano para evitar a pressão no câmbio quando chegar o limite para todos os bancos estarem preparados para mudança tributária.

O que Kanczuk fez na live do Itaú foi confirmar essa percepção de uma maneira informal e considerada inapropriada.

Segundo fontes ouvidas pela Folha com a condição de não serem citadas, Kanczuk ultrapassou a linha. Na definição de uma, criou um “ruído inadequado”. Outra destacou que “eu posso achar que o BC vai vender, o mercado pode achar, mas um diretor do BC dizer isso numa live é outra coisa”.

A nota do BC foi considerada bem-vida para regularizar os trâmites, mas, agora, todos esperam como fato a ação do BC no final do ano.

Durante a tarde, o ministro Paulo Guedes (Economia) também fez comentários sobre câmbio no mesmo evento.

Guedes voltou a dizer que “agora é juros mais baixo e câmbio mais em cima mesmo”. Para ele, a manutenção do dólar em um patamar muito baixo em relação ao real demanda que o país tenha muitas reservas em moeda estrangeira. De acordo com o ministro, o Brasil não vai “queimar reservas”.

“Uma coisa é você estar com uma moeda a R$ 1,80, R$ 2,00, R$ 2,80, claramente sobrevalorizada. Outra coisa é estar a R$ 5,50, aí não precisa de tanta reserva para defender uma moeda que não está mais sobrevalorizada. Possivelmente até já teve um 'overshooting', já bateu lá em cima e já avançou”, disse. Com Reuters

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