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Michael França

De frente pro crime

A Covid-19 abriu uma ferida no tecido social que não deve ser subestimada

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Michael França

Doutor em Teoria Econômica pela Universidade de São Paulo; foi visiting scholar na Universidade Columbia e é pesquisador do Insper

A agenda racial ganhou destaque após ser divulgado o efeito desproporcional da pandemia sobre a população negra. Nos EUA, a profunda cobertura da mídia sobre as disparidades raciais nas mortes aumentou a temperatura do debate.

Nesse contexto, a morte agônica de George Floyd foi o catalisador que levou à explosão do que pode ter sido, segundo o New York Times, a maior manifestação da história americana e, por sua vez, teve considerável repercussão nas eleições.

No Brasil, talvez de maneira relativamente mais tímida, a mídia também tratou do assunto. Sabe-se que aqui, em muitos meios de comunicação de massa, é comum dar pouca atenção aos desafios raciais e sociais. De certa forma, ignorar as mortes de pobres, negros e indígenas passou a representar algo do cotidiano brasileiro.

Contudo, não foi possível se abster da ascensão do movimento antirracista. Assim, criaram-se ingredientes suficientes para impulsionar o debate racial local. Atualmente, essa pauta não só esquentou como também existe a possibilidade de se tornar uma das agendas mais quentes do debate público nos próximos anos.

No que diz respeito especificamente à letalidade durante a pandemia, há diversas hipóteses que ajudam a explicar o elevado número de mortes entre os negros. Entre essas, a vulnerabilidade social e as diferenças nas condições de saúde costumam aparecer no centro da discussão.

Todavia, o viés racial cristalizado em uma possível discriminação durante o atendimento nos estabelecimentos de saúde também tem ganhado progressivamente o seu espaço.

A fisionomia pode afetar, de maneira inconsciente ou não, a forma com que os indivíduos são percebidos e tratados. Em um cenário de sobrecarga do serviço de saúde, é razoável conjecturar a possibilidade de haver atendimento diferenciado para aqueles indivíduos que, por possuírem pele mais clara, tendem a serem percebidos socialmente como dotados de maior valor intrínseco.

Entretanto, parece que não foi isso que ocorreu no Brasil. Ao menos considerando o caso do SUS. Em uma pesquisa que realizei recentemente, juntamente com os pesquisadores Sergio Firpo, Luis Meloni e Raphael Bruce, não encontramos evidências de desigualdade racial no acesso à UTI no Sistema Único de Saúde (“Racial Inequality in Health Care During a Pandemic”, 2020).

Adicionalmente, considerando a metodologia proposta, verificamos que existe uma desigualdade no acesso à UTI no sistema privado. A hipótese levantada no trabalho é que os brancos, devido ao fato de possuírem melhores condições no mercado de trabalho, também têm acesso a melhores planos de saúde.

No entanto, não é possível afirmar que houve ausência de discriminação tanto no sistema público quanto no privado. Isso ocorre porque verificamos o efeito médio em nível nacional e, portanto, determinados hospitais poderiam apresentar práticas discriminatórias.

Apesar disso, a evidência sugerindo que não existiu, ao menos de forma generalizada, discriminação no SUS é uma excelente notícia e traz esperança em relação ao futuro. Além disso, representa uma mensagem interessante para aqueles que advogam contra o SUS. Embora, para muitos desses, é possível que discriminação não seja uma questão.

Entretanto, não se deve ignorar o lado sombrio da pandemia. Ela impactou e continuará afetando severamente os pobres e os negros. A Covid-19 abriu uma ferida no tecido social que não deve ser subestimada. O processo de cicatrização será demorado e poderá continuar promovendo profundas mudanças na sociedade e nas relações de poder.

O título, além de ser tão sensacionalista quanto o Datena e o Sikêra Jr, também representa uma homenagem à música “De Frente pro Crime”, de Aldir Blanc e João Bosco. A letra parece ser um bom retrato da sociedade brasileira.

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