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Ben Smith

É o fim de uma era para a mídia, não importa quem vença a eleição nos EUA

Trump conseguiu tornar a velha imprensa grande novamente; veículos devem traçar mudanças para os próximos meses, independentemente de quem ganhar

Ben Smith
Nova York | The New York Times

Há um fenômeno da mídia que o blogueiro dos velhos tempos Mickey Kaus chama de "exagerismo": artigos na semana anterior à eleição cuja premissa é que, mesmo antes da contagem dos votos, sabemos quem é o vencedor —neste caso, Joe Biden.

Eu me declaro culpado de escrever uma coluna com essa premissa tácita. Passei a última semana pedindo a figuras importantes da mídia que cedessem à maldita prática de especular sobre as consequências de uma eleição que ainda não acabou. Todos eles leem as mesmas pesquisas que você e acham que o presidente Donald Trump provavelmente perderá.

Mas muitos líderes no jornalismo e na mídia estão prendendo a respiração para a eleição —e planejando de tudo, desde aposentadorias a mudanças estratégicas importantes para os próximos meses, quem quer que saia vencedor.

Donald Trump desembarca do Air Force One em Miami, Estados Unidos - Brendan Smialowski/AFP

Afinal, Trump conseguiu tornar a velha mídia grande novamente, em parte por causa de sua obsessão por ela. Seu programa fascinante permitiu que grande parte do ramo de telejornais, em particular, adiasse a adaptação às mudanças tecnológicas —em direção aos dispositivos móveis e o consumo sob demanda— que modificaram totalmente nossas vidas. Mas agora a mudança está no ar sobre uma paisagem noticiosa que gira em torno do presidente.

E, dado o momento instável de pré-eleição, tentarei manter esses itens curtos para que você possa verificar o feed do Twitter de Nate Silver durante a leitura.

O setor de notícias depois de Trump

Antes da eleição de 2016, Andrew Lack, então chefe da NBC News, avisou os colegas que a receita da MSNBC cairia 30% se —quando— Hillary Clinton fosse eleita, disseram-me duas pessoas familiarizadas com o comentário. (Após a derrocada de 2016, poucos na mídia quiseram ser citados especulando sobre o que aconteceria após a eleição.)

Bem, a TV com certeza se esquivou dessa bala! O chefe da CNN, Jeff Zucker, disse mais tarde a sua redação em Los Angeles que Trump havia dado ao negócio em declínio mais quatro anos, lembrou uma pessoa que estava lá. (Um porta-voz da CNN disse que Zucker não teria especulado sobre futuras audiências). E tem sido uma época lucrativa para os noticiários a cabo, um ano recorde para livros políticos e, geralmente, uma bonança para a mídia antiga que vive sem pagar aluguel na cabeça do presidente.

Isso pode estar acabando. A MSNBC e outros veículos que prosperaram na resistência a Trump podem ver seu público diminuir, disse Ken Lerer, um investidor veterano e consultor de mídias antigas e novas, que também previu que o The New York Times "esfriaria" quando você, caro leitor, encontrasse outras coisas para fazer.

E as pessoas que continuam prestando atenção às notícias ficarem online.

"A pandemia avançou o digital em quatro ou cinco anos e não voltará a ser o que era", disse Lerer.

Na mídia corporativa, isso significa o que Cesar Conde, novo presidente do NBCUniversal News Group, tem chamado de estratégia "omnicanal", já que marcas como a MSNBC não mais se consideram principalmente como televisão. Para novos canais, é uma oportunidade de aproveitar a vantagem de ser nativos neste novo mundo.

"Muitas organizações de mídia passaram os últimos quatro anos geralmente sem conseguir se adaptar a uma campanha, um presidente, uma Casa Branca e um governo extremamente online", disse Stacy-Marie Ishmael, diretora editorial da organização sem fins lucrativos Texas Tribune. "Estamos apenas, quatro anos depois, aprendendo a lidar com técnicas de retórica, mensagens e comunicações impregnadas de desinformação e propaganda."

Outros previram uma mudança cultural mais profunda —da sátira mordaz de Stephen Colbert ao mais tolo Jimmy Fallon, da política ao entretenimento, quando os estúdios puderem colocar a produção em ação novamente. Mas alguns veteranos do negócio da política duvidam que a cobertura das notícias possa realmente se acalmar —ou que os consumidores possam desviar o olhar.

"Se Biden for eleito, os conservadores terão energia, não recuarão", disse Eric Nelson, diretor editorial da Broadside Books, marca conservadora da HarperCollins. "Trump continuará tuitando, e novos escândalos de sua Presidência continuarão se desdobrando até 2022. Quando todo esse caos e absurdo se esgotarem, Trump poderá concorrer novamente em 2024."

Uma onda de aposentadorias

Você não é o único que mal aguenta esperar o dia da eleição. A maioria dos principais líderes de muitas instituições noticiosas americanas de renome provavelmente também partirá em breve.

O editor-executivo de The Los Angeles Times, Norm Pearlstine, está procurando recrutar um sucessor até o final do ano, segundo me disse. Martin Baron, editor-executivo de The Washington Post, acaba de comprar uma casa fora da cidade e dois funcionários do Post disseram que esperavam sua saída no próximo ano. Ele não deu o aviso, disse a porta-voz do Post, Kristine Coratti Kelly.

O editor-executivo de The New York Times, Dean Baquet, está prestes a se aposentar quando fizer 66 anos em 2022, disseram-me dois executivos do Times, abafando as especulações de que ele poderia ficar mais tempo.

Na grande TV, Zucker, da CNN, sinalizou que está frustrado com a WarnerMedia, e a televisão aberta está transbordando com especulações sobre quanto tempo os chefes de notícias da rede permanecerão, embora nenhum executivo tenha sugerido partidas iminentes. "Todos estão presumindo que haverá rotatividade em todos os lugares, e todos estão absolutamente apavorados sobre quem vai entrar", disse uma fonte da indústria de televisão.

Esta não é apenas a porta giratória habitual.

Os líderes das redações enfrentam fortes puxões em direções conflitantes. Os meios de comunicação em todo o espectro, da sóbria BBC ao radical Intercept, têm agido para reafirmar o controle editorial final sobre seus jornalistas. Mas os funcionários da redação —como uma geração de trabalhadores em muitos setores— estão fazendo demandas cada vez maiores para ter mais voz ativa na administração de suas empresas do que no passado.

Os novos líderes poderão encontrar oportunidades para resolver algumas das batalhas acaloradas da redação no ano passado, ou poderão entrar em tempestades de fogo.

Pearlstine, o único que falou abertamente sobre sua saída, disse-me que as novas "métricas de sucesso também podem ser diferentes —questões como inclusão, como ser antirracista, como realmente comandar alguma nova plataforma, sejam podcasts ou vídeo ou newsletters, além de ter credenciais jornalísticas".

E, disse ele, a velha gestão de cima para baixo na redação é coisa do passado. "O consentimento dos governados é algo que você deve levar muito a sério", disse ele.

Wesley Lowery, correspondente da CBS News que tem sido uma voz a favor de um jornalismo mais diversificado e politicamente engajado, disse que já tinha visto sinais de mudança.

"Essas grandes instituições muito raramente aparecem e anunciam alguma grande mudança radical. Elas dizem: 'Não estamos mudando', e mudam", disse ele. "Mesmo as pessoas que fizeram alarde sobre como os rebeldes estavam errados, agora estão cedendo às coisas que todos queríamos."

Fox News no piloto automático

O canal a cabo de direita está em alta como rede quase oficial da Casa Branca, embora sempre tenha sido mais forte quando ataca os democratas —que parecem prestes a assumir o poder.

Mas a eleição que se aproxima tem executivos em torno de Lachlan Murdoch, o executivo-chefe da Fox, preparando-se para a batalha em várias frentes: com os críticos de esquerda, com o que os executivos temem que possa ser uma retribuição regulatória dos democratas e, talvez acima de tudo, de James Murdoch, o irmão e crítico mais liberal de Lachlan, segundo uma pessoa a par dos planos da empresa.

E Lachlan Murdoch encerra o ciclo eleitoral como o iniciou: sem nenhum controle real dos talentos de alto nível da rede e um perfil anormalmente baixo para uma figura de seu poder político. Um dado: um cliente surpreso do Estiatorio Milos, local de almoços poderosos no centro da cidade, relatou no final de outubro ter ouvido Murdoch soletrar educadamente seu nome para uma anfitriã que não o reconheceu.

As guerras por atenção

As batalhas sobre discurso e censura, como tuitou recentemente a socióloga Zeynep Tufekci, estão se tornando "guerras por atenção". Ainda na semana passada, senadores convocavam executivos de tecnologia para reclamar de tuítes individuais, mas as discussões estão prestes a se tornar mais consequentes. As plataformas são cada vez mais pressionadas a divulgar como o conteúdo viaja e por quê —não apenas o que eles deixam e o que eles retiram.

"Estamos neste admirável mundo novo de moderação de conteúdo que está fora do falso binário retirar/deixar", disse Evelyn Douek, especialista no assunto e palestrante na Escola de Direito de Harvard.

Na prática, Twitter, Facebook e outras grandes plataformas enfrentam duas fontes de pressão. A primeira vem da Austrália e da União Europeia, onde a Alemanha se tornou a última a pressionar por restrições de direitos autorais.

"Estamos agora em um ponto de inflexão com as plataformas digitais", disse Rod Sims, presidente da Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores, em um e-mail. "A maré mudou em todo o mundo, à medida que governos e agentes antitruste agora veem o tamanho do desafio à frente."

A segunda fonte de pressão são os Estados Unidos, onde Trump pressionou para revogar ou revisar a Seção 230 da Lei de Decência nas Comunicações, que protege as plataformas de serem responsabilizadas pelo que publicam, permitindo que moderem o conteúdo. O senador Ron Wyden, do Oregon, coautor da lei de 1996 e que chefiaria a poderosa Comissão de Finanças se os democratas assumissem o controle do Senado, disse duvidar de que as mudanças na Seção 230 realmente impeçam a desinformação ou o que os conservadores afirmam ser censura.

E ele observou que o chefe-executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, disse que também apoia algumas revisões."Ele ganhou seu dinheiro e agora quer recolher a escada atrás dele", disse Wyden em entrevista no sábado (31). "O fato de o Facebook, entre todas as empresas, estar pedindo mudanças na 230 faz você dizer: 'Espere um segundo'."

Wyden afirmou que sua prioridade quando se trata das Big Tech no novo Congresso seria a legislação sobre privacidade.

Os conflitos internos da mídia, entretanto, se desenrolam no Twitter e, cada vez mais, no Substack, plataforma de boletim informativo onde um grande público está pagando pelo trabalho de conservadores anti-Trump e vozes iconoclastas da esquerda, que se juntaram na semana passada a Glenn Greenwald, o jornalista da segurança nacional e defensor da liberdade de expressão, que ajudou a fundar The Intercept e saiu em uma disputa sobre se o seu trabalho deveria ser editado.

Outra maneira de ver o Substack é como uma espécie de Twitter Premium —um lugar onde você pode pagar por mais conteúdo de seus jornalistas favoritos. E essa sinergia chamou a atenção de alguns no próprio Twitter, onde tem sido discutida a ideia de adquirir a newsletter, disse uma pessoa a par das conversas. (Executivos de ambas as empresas não quiseram comentar sobre a especulação.)

Mas não está claro se o Substack continuará a ser o local preferido de todas as suas estrelas. Greenwald escreveu que está explorando "a viabilidade de obter financiamento para um novo meio de comunicação" que desafiaria o que ele vê como "pensamento de grupo" da esquerda na era Trump. E a raiva turbulenta no Vale do Silício com a dura cobertura pela mídia de empresas e investimentos significa que há grandes reservas de dinheiro para um novo ataque à grande mídia.

"Haverá uma onda de dinheiro após a eleição, especialmente de caras da tecnologia que pensam que podem consertar tudo", disse um dos redatores do Substack que atraiu o interesse de investidores em tecnologia.

Manter a sanidade nas próximas horas

Nada de bom virá da leitura de notícias políticas, muito menos do Twitter, entre agora e as eleições. A semana das eleições costuma ser uma boa hora para se esconder no cinema, mas com os cinemas fechados você terá que encontrar refúgio em outro lugar.

Dois favoritos: o brilhante Election Distractor do Times na web; e, para o seu Kindle, o Centenal Cycle de Malka Older, um pouco de ficção-científica de alto conceito que irá prepará-lo para muitas das próximas batalhas políticas e tecnológicas.

Na noite da eleição, entretanto, vá ao Twitter para as piadas e fique para o que é realmente um dos pontos altos da democracia americana, como tal: a conversa sofisticadamente tranquilizadora, nerd e apartidária sobre contagem de votos que você pode ouvir entre gente como Nate Silver, Nate Cohn, Ariel Edwards-Levy e Brandon Finnigan.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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