Descrição de chapéu Economia em debate

Laura Carvalho e Samuel Pessôa divergem sobre fim do auxílio e retomada em V

Economistas participaram de debate promovido pelo FGV Ibre e pela Folha nesta quinta (26)

São Paulo

Os economistas Laura Carvalho, professora livre-docente da FEA-USP, e Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV Ibre e colunista da Folha, discordam sobre o caminho que o governo Jair Bolsonaro (sem partido) deve seguir em 2021 para que seja possível gerar uma retomada da economia.

Carvalho e Pessôa participaram nesta quinta-feira (26) do Webinar "Como gerar um novo ciclo de crescimento", realizado pelo FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas) e pela Folha. O debate foi mediado pelo repórter especial Fernando Canzian.

Para Carvalho, o cenário de retirada total do auxílio emergencial não é promissor e vai elevar a pobreza e a desigualdade em um momento em que a crise sanitária não estará resolvida.

Pessôa, por outro lado, avalia que a epidemia "está passando" e que a economia caminha para uma recuperação em V. Para ele, a retomada depende mais de um Orçamento que caiba no bolso do Estado brasileiro do que da renovação de um auxílio insustentável do ponto de vista fiscal, em sua visão.

Veja abaixo os principais pontos discutidos pelos economistas.

Fim do auxílio emergencial

Pessôa afirmou que é necessário reconstruir as condições para que tenhamos um Orçamento no ano que vem compatível com o que foi em 2019. Para ele, é possível discutir na Comissão de Orçamento do Congresso mecanismos para aumentar o gasto social, mas de uma forma que seja fiscalmente responsável e sustentável no longo prazo.

“Acho que a epidemia está passando, não está clara a extensão dessa segunda onda, vamos ter de esperar umas três semanas, mas a gente está fazendo uma saída do auxílio emergencial. Eram R$ 600, caiu para R$ 300, zera em janeiro, e a economia volta”, afirmou Pessôa.

“As condições para ela voltar dependem mais de a gente conseguir reconstruir um Orçamento que caiba no bolso do Estado brasileiro do que a gente renovar um auxílio que é insustentável do ponto de vista fiscal e que vai gerar uma sensação de insolvência, coloca o câmbio em uma trajetória de maior desvalorização, reforça esse processo inflacionário que já se iniciou e atrapalha ainda mais a economia.”

Já Carvalho disse que o auxílio reutralizou o impacto na queda de renda neste ano e que a possível extensão da crise inviabiliza o fim brusco desse benefício.

“Vamos ter uma situação social e econômica difícil. A desigualdade caiu durante a pandemia. Não só a pobreza, que atingiu patamares historicamente muito baixos. Aquilo que foi neutralizado com o auxílio já começa a vir com a redução do valor [de R$ 600 para R$ 300]. É difícil imaginar uma retomada rápida em um contexto assim, de retirada de um estímulo fiscal que foi tão substantivo e certamente atenuou a crise”, afirmou.

Retomada da economia

A economista da FEA-USP se disse mais pessimista que Pessôa sobre as perspectivas para o crescimento em 2021.

“A vacina é o que pode encerrar essa fase de insegurança, mas não acho que no primeiro semestre vamos estar com a população brasileira vacinada. Não parece que as atividades dos setores mais afetados serão retomadas. E os outros setores vão sofrer com a retirada do auxílio. Não acho que a gente tenha elementos para recuperar em V no ano que vem.”

Para Pessôa, o país está próximo de uma situação de dominância fiscal, quando os instrumentos utilizados pelo BC para manter a inflação sob controle (principalmente a taxa básica de juros) perdem eficácia ou até mesmo geram o efeito contrário em razão do impacto sobre o endividamento da União.

Com a acumulação de poupança do setor privado e os juros baixos, Pessôa avalia que há como retomar o crescimento. Ele prevê expansão de 4,5% a 5% do PIB no ano que vem, após queda semelhante neste ano.

“Nesse aspecto eu sou mais otimista que a Laura. A gente já voltou muita coisa. Quando você pega na previsão do Ibre o quarto trimestre deste ano contra o quarto trimestre do ano passado, todos os setores voltaram a níveis superiores, com exceção de dois: outros serviços, que é onde se concentra a crise [alimentação, turismo e entretenimento], e serviços de administração pública, mas quando abrir as escolas, volta ao normal”, afirmou.

“Passando a epidemia, as pessoas vão voltar a consumir esses outros serviços. A gente sabe que o setor privado está muito líquido. Acumulamos uma poupança de quase R$ 450 bilhões em excesso do que no primeiro semestre do ano passado, metade empresas, metade famílias. Os pequenos negócios quebraram, mas a reconstrução desses pequenos negócios vai ser muito mais rápida do que em crises normais. A economia se reconstrói.”

A economista Laura Carvalho durante debate realizado em 2019 sobre o teto de gastos
A economista Laura Carvalho durante debate realizado em 2019 sobre o teto de gastos (2019-10-22) - KEINY ANDRADE/FOLHAPRESS

Inflação

Pessôa afirmou que a inflação está acelerando por causa de vários choques. “Em maio do ano que vem vamos ter uma inflação rodando a 5,5% [em 12 meses]. Se a gente não passar por um processo de consolidação fiscal, a gente vai entrar em uma espiral inflacionária. E quando a inflação se instaura, quem perde são os mais pobres e é muito difícil eliminá-la.”

“Estamos diante de um quadro de dominância fiscal e inflação fora de controle? Acho que isso a gente tem de questionar”, disse Carvalho. “Não acho que se trate de um fenômeno inflacionário fora de controle, e a desvalorização do câmbio não é uma coisa nova", rebateu.

“Se usa a desvalorização do real acima de outras moedas para mostrar que é o risco fiscal que está trazendo isso. Isso eu quero questionar. O real, se a gente pega desde 2001 a 2019, é consistentemente a moeda que é mais volátil. Não é uma coisa deste ano. E teve muitos momentos em que a dívida estava caindo. A desvalorização começou antes da pandemia", afirmou Carvalho.

Desemprego

A professora da FEA disse que a quebra das micro e pequenas empresas durante a pandemia não necessariamente vai ser revertida e que os empregos nesse segmento não serão recuperados de maneira rápida.

“Pode ter um aumento do desemprego nesse início do ano, pela retirada do auxílio, com essa crise ainda não resolvida, a questão dos contratos suspensos que garantiam uma estabilidade para os empregados saindo de cena, a questão das empresas que fecharam e que ainda não vão reabrir, somada ao efeito que a gente já vinha de uma anemia no mercado de trabalho”, afirmou.

“No entanto, acho que para o segundo semestre esse desemprego deve cair", avalia.

Para Pessôa, a recuperação do emprego vai depender da velocidade da recuperação da economia no ano que vem. “Se a gente for pelo caminho que eu estou sugerindo, o crescimento em V vem, a economia volta forte e vai gerar emprego. A taxa de desemprego deve cair no ano que vem", prevê.

Teto de gastos

Pessôa afirmou que, a partir de 2022, será possível discutir mudanças no teto de gastos, mas que 2021 não é um bom momento para isso.

“Em um segundo momento, podemos derrubar o teto. O Congresso vota três emendas constitucionais por ano. Não é uma coisa muito difícil. Vamos primeiro virar a página da epidemia, vamos reconstruir uma normalidade, o câmbio vai voltar um pouquinho, essas pressões inflacionárias talvez se dissipem e a gente tem condição de recuperar no ano que vem as perdas de crescimento. No ano seguinte vamos repensar todo o contrato social.”

Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV Ibre e colunista da Folha (2019-10-22)
Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV Ibre e colunista da Folha (2019-10-22) - KEINY ANDRADE/FOLHAPRESS

Para Pessôa, o gasto público brasileiro durante a pandemia foi muito alto para uma economia emergente e não teve a efetividade esperada.

“Tem de separar o que é estrutural do que é transitório. Se eu fizer um programa de renda mínima de R$ 400 por pessoa, o Brasil passaria a ter uma desigualdade equivalente à australiana. O problema é que o auxílio custa 18 Bolsas Famílias. A gente não consegue financiar isso. O nosso gasto reduziu a queda do PIB, mas para cada um ponto percentual de gasto a gente reduziu a queda do PIB em 0,25 ponto percentual, e isso vai legar uma dívida grande.”

Carvalho, por outro lado, afirma que o teto já está colapsando e que não é possível esperar por um ambiente de calmaria para rever uma regra que impede o governo de financiar um novo programa social. Segundo a economista, com esse mecanismo, não é possível solucionar, mesmo que temporariamente, a necessidade de expansão de gastos sociais e transferência de renda no próximo ano.

“O ambiente de crise é ruim para todo tipo de discussão de longo prazo, mas estamos nesse impasse. O que é mais urgente? O colapso social se coloca no topo das prioridades. Sou contra fazer do jeito que o governo pode acabar fazendo, que é usar fundos extrateto para pagar a prorrogação do auxílio ou o Renda Cidadã ou ficar prorrogando o decreto de calamidade”, afirmou.

“Não defendo que o auxílio emergencial seja o modelo para a gente perpetuar. Não é o programa que seria ideal de renda básica. Mas a gente não teria como fazer nem metade disso se não tiver uma rediscussão. O teto está colapsando, a gente já está vendo manobras para furar o teto. Eu preferia uma saída transparente no Congresso, que estabeleça um limite de gastos em linha com a experiência internacional.”

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