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Leia trecho do livro 'A Organização' sobre rompimento de Marcelo Odebrecht com sua família

Herdeiro do grupo empresarial se afastou dos pais após delação e teve dinheiro bloqueado

São Paulo

Este é um trecho do livro "A Organização", em que a jornalista Malu Gaspar revê a trajetória da Odebrecht e examina as disputas familiares que aprofundaram a crise em que o grupo empresarial mergulhou após ser atingido pela Operação Lava Jato. Nesta passagem, Gaspar conta como os laços de Marcelo Odebrecht com sua família se esgarçaram no último ano, depois que ele foi demitido e processado pela empresa na Justiça.

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A demissão e a exposição pública de seus bilhetes deixaram Marcelo transtornado. Além de considerar uma traição do pai, que prometera não demiti-lo, o fato de Isabela e as filhas terem sido citadas contribuiu para tirá-lo do prumo. Quem falava com Marcelo naqueles dias logo recebia por mensagem a sequência de denúncias enviadas ao compliance contra Ruy Sampaio. Ele acusava o adversário de quebrar a confidencialidade dos contratos com a Odebrecht para receber os recursos, e pelo que chamava de “atos de rancor e vingança”. Se ele agora estava vulnerável, a culpa era dos familiares que tinham colocado Sampaio no cargo. E encerrava dramático: ele faria o que a família quisesse, desde que os ataques cessassem.

O empresário Marcelo Odebrecht, durante entrevista concedida à Folha, no escritório da casa em que mora em São Paulo. - Eduardo Knapp/Folhapress

O fato de suas filhas estarem na berlinda fez com que Marcelo mudasse de tom e de tática. À mãe, ele enviou diversas mensagens de celular, algumas de áudio, acusando o pai e Ruy Sampaio de querer em destruir a vida das netas. Nelas, dizia que o executivo estava distorcendo os fatos, tirando seus bilhetes do contexto. Afinal, o próprio pai lhe escrevera cartas prometendo garantir o futuro das meninas, tudo havia sido negociado com a empresa. A mãe respondeu com uma carta apelando pela conciliação e pedindo uma trégua. Ela respondeu: “Filho, precisamos sair de cena, nós e toda a família, para que seu pai possa se concentrar em buscar desfazer tudo o que estava programado e logo em seguida, muito breve, ajustar com todos indispensáveis o futuro da organização ODB, da Kieppe e de toda a família. Quanto ao seu, será entre você e seu pai”.

O modo como Regina colocava as coisas deixava Marcelo ainda mais agastado. A pedido de Emílio, ela já havia antecipado ao filho que seria difícil reverter a demissão, por causa do DOJ. Nesse contexto, ele encarava toda conversa sobre conciliação como uma forma de fazê-lo se calar sem levar nada em troca. Marcelo queria garantias concretas —no caso, de que a justa causa seria revista e que poupassem suas filhas de mais exposição e eventuais investigações. No Natal de 2019, enfurnado no escritório com seus papéis e arquivos, ele escreveu uma longa carta aos pais , declarando-se disposto a um acordo : “Quando um filho sublima tudo, e suplica por duas prioridades tão relevantes para ele como fiz hoje, não pode escutar que uma governança, que foi destroçada —e não impediu os graves atropelos e violações de conduta recentes— seja agora usada como desculpa para não remediar os danos causados. Ainda mais sabendo que estes atropelos e violações podem chegar a representar perdas irreparáveis em terceiros, no caso suas netas, decorrentes de uma absurda e vergonhosa quebra de sigilo contratual, fiscal e bancário que violou qualquer governança”.

Mesmo tendo sido ele quem exigi ra que a Odebrecht depositasse o dinheiro nas contas da esposa e das filhas, Marcelo provavelmente imaginava que seu pai fosse engolir os ataques para não expor as netas. Talvez até por isso tivesse ido tão longe. Agora encontrava-se num abatimento que não sentira desde os tempos de cadeia. “Mesmo nas piores guerras existem armas que são proibidas e são consideradas crimes de guerra. Quando se atingiu diretamente, e da forma que foi feita [sic], as minhas filhas, suas netas, foi justamente uma arma destas que foi usada”, ele escreveu para a mãe. “O que assisti nos últimos dias foi um louco, cheio de rancor e ódio, legitimado por vocês, fazer, enfurecido, o maior estrago que já vi na relação entre pais e um filho. Podemos não ter amor e convívio, mas não precisamos ter rancor e discórdia, ainda mais na escala que assisti estes últimos dias.”

Para encerrar, Marcelo informava ter contratado duas advogadas para negociar um acordo em seu nome. E apelava: “Espero que saibamos jogar o jogo em que um ganha, sem que o outro precise perder. E, mais relevante ainda, que saibamos que não faz nenhum sentido um perder, sem que seja, pelo menos, para o outro ganhar. Espero que saibamos evitar a discórdia, mesmo sem conseguir o convívio, e deixar de lado o rancor, mesmo que o amor continue ausente”.

Nos meses seguintes, não faltou quem tentasse intermediar uma trégua entre pai e filho, sem sucesso. Ao mesmo tempo em que entrara com um processo trabalhista contra a Odebrecht e uma ação de calúnia e difamação contra Ruy Sampaio, Marcelo enviava recados ao pai nos bastidores, reivindicando que revertesse a demissão no conselho. Sabia que, com compliance e tudo, Emílio ainda manobrava as decisões na empresa, e achava que ele lhe devia aquilo. O pai refutava as afirmações. Dizia estar disposto a uma conciliação, mas sustentava que qualquer acordo tinha que se dar no âmbito da família, e não da empresa. Dessa forma, nenhuma tentativa de diálogo avançava. Com os documentos que tinha, Marcelo acreditava que não seria difícil vencer a Odebrecht na Justiça e reverter a demissão por justa causa. Logo descobriria ter dado um passo decisivo em direção à derrota.

No dia 4 de março de 2020, uma das filhas de Marcelo foi tentar pagar uma despesa com o cartão de débito e não conseguiu. Havia algo estranho. A conta deveria ter saldo. Ao pesquisa em o que havia acontecido, a surpresa. Naquela manhã, o juiz Eduardo Pellegrinelli, da 2ª Vara Empresarial de São Paulo, atendera a um pedido da Odebrecht S.A. e ordenara o bloqueio em caráter liminar de 143,5 milhões de reais das contas de Isabela, Rafaella, Gabriella e Marianna Odebrecht. O valor era a soma dos recursos depositados pela organização nas contas delas para Marcelo fechar o acordo de delação. Em sua decisão, o juiz acatou o argumento da Odebrecht de que os pagamentos eram irregulares e tinham sido feitos à base de chantagem. A empresa dizia ainda que tentaria anular os contratos e bloquear os outros bens da família —incluindo a casa onde moravam em São Paulo e um apartamento em Salvador, que também já haviam sido transferidos para as filhas.

Diante do choro e da revolta da mulher e das filhas, o Sniper se viu derrubado. Indignado, telefonou para a mãe, exigindo que o pai desse um jeito de desfazer o bloqueio o quanto antes. Segundo o que Marcelo mesmo relatou à Justiça, meses depois, Regina respondeu: “Você agora concorda em conversar com seu pai?”. Marcelo explodiu de raiva. Dali em diante, passou a falar com a mãe apenas por mensagens, em que exigia uma solução. Numa delas, enviada no início de janeiro, escreveu um longo desabafo:

"Meu pai fez um acordo comigo, minha mãe foi a fiadora, minha irmã assinou, duas gestões da empresa aprovaram e acompanharam os pagamentos, os monitores externos do MPF e autoridades americanas acompanharam por mais de três anos tudo. Compliance idem. Neste ínterim se descobre que seu genro roubou [a] empresa em 200 milhões, dinheiro que passou pela conta de sua filha. Nada ocorre e vocês ainda o recebem em sua casa de braços abertos. Fica comprovado que seu genro e outros mentiram e manipularam as informações que prejudicaram tanto a mim e a empresa. E que continuaram a obstruir as investigações para prejudicar meu acordo.

"Tudo isto provado.

"Vocês vão descumprindo todas as promessas não assinadas que fizeram comigo: ou se esquece[m] que inclusive em carta meu pai dizia que eu voltaria para a empresa? Vocês acompanham o sacrifício que fiz pela empresa, sendo bode espiatorio [sic] de algo que você sabe [que] começou muito antes de mim e sempre foi liderado por meu pai. Todos os que se beneficiaram com bilhões ficam livres por eu ter pago o pato por todos. Eu e minha família.

"Neste ínterim quase nenhum apoio de vocês.

"E de repente vocês não apenas me atacam, como vão atrás de suas netas bloqueando não apenas as contas e poupanças delas, como até a casa?

"Sabendo que tudo que estão alegando é mentira até porque foi tudo acompanhado
e aprovado por vocês.

"Você ainda consegue se olhar no espelho?

"Você ainda consegue se justificar?

"Dito tudo isto, por escrito, pois não tenho condições emocionais para falar, insisto que precisamos colocar de lado qualquer emoção e focar em Bela e meninas, inocentes de tudo e que estão tendo sua vida destruída publicamente como já o foi a minha. E temos que fazer isto hoje, ou melhor ontem."

O que Marcelo queria, porém, já não era mais possível. Ao aprovar a ação contra ele, o conselho da Odebrecht autorizara a empresa a se colocar como vítima de um crime e buscar a reparação dos valores. Desistir da causa não era impossível —Emílio controlava duas cadeiras de um conselho que agora tinha cinco membros, portanto bastava convencer um dos conselheiros a desistir. Mas era mais complicado. Algum credor poderia querer questionar os administradores na Justiça, por ter abandonado o processo depois de se declarar vítima de roubo. Além do mais, ao autorizar a ação contra o filho, o pai já havia decidido que não teria volta. Nas mensagens que enviava a Marcelo, deixava claro que daria o dinheiro de que ele precisasse. “Vocês não deixarão de ter o suporte financeiro de seus pais e ajuda para construirmos um futuro”, dizia uma delas. Na decisão da empresa, porém, Emílio afirmava que não se meteria. Era seu jeito de mostrar ao filho que ele tinha sido definitivamente derrotado. Com o dinheiro bloqueado e o tempo tomado por depoimentos, petições e liminares, Marcelo já não tinha mais condições emocionais e práticas de planejar uma reação.

Nos primeiros dias, Isabela e as filhas enviaram as contas da casa para Regina e Emílio, o que para Marcelo era o extremo da humilhação. Para não ter de se dobrar ao pai, ele pediu dinheiro a amigos da família. Ao saber disso, em 19 de março Emílio escreveu uma carta, fotografada e enviada por mensagem de celular: “Desça do pedestal e peça a seus pais as necessidades de sobrevivência da família, enquanto persistir as ações entre a Organização e você, e sobre as quais, já disse várias vezes, não interferiremos”.

Naquele final de março, já fazia semanas que tentavam escolher os mediadores para negociar um acordo. Mas nem sobre isso conseguiam concordar. O único que tinham conseguido nomear —um antigo executivo do grupo chamado Kevin Altit—, desistiu em pouco tempo, dizendo que a missão era impossível. Sentindo-se asfixiado, Marcelo tinha até mandado dizer que aceitaria qualquer condição para que a ação de bloqueio de bens fosse retirada. Só queria as filhas fora do processo. Contudo, rejeitou a única solução que lhe propuseram —elas sairiam do imbróglio judicial se transferissem todo o dinheiro para o nome dele, mantendo os recursos bloqueados até a decisão da Justiça. A solução atendia o pedido de exclusão de sua família da ação, mas deixaria a esposa e as filhas sem nada —o que ele nunca admitiria. Marcelo respondeu que um acordo só era bom quando os dois lados cediam um pouco. Em sua visão, por aquela proposta, ele entregava tudo e a empresa não perdia nada.

Depois de anos de batalha, o herdeiro da Odebrecht estava exaurido financeira e emocionalmente. Nas mensagens aos “bombeiros” —como ele chamava os poucos amigos que ainda tentavam ajudar— frequentemente chorava, implorando por uma saída. Chamava o pai de mentiroso e repetia só querer o que Emílio havia lhe prometido em Curitiba. Pedia que o pai se apresentasse ao juiz e dissesse que ele não havia chantageado ninguém , e que o dinheiro depositado nas contas bloqueadas pertencia a suas filhas. “Falar a verdade perante o juiz! É só isso que estou pedindo, um pai ir pra frente do juiz pra falar a verdade!”, apelou, aos prantos, a um amigo.

Do outro lado, Emílio respondia por mensagens enviadas do celular de Regina, em que se mostrava igualmente inflexível. “Você está colhendo o que você plantou”, escreveu ele, no final de março. Aquela guerra se tornara um cipoal desprovido de razão, uma espécie de entropia da qual, aos poucos, amigos e parentes foram se afastando, para evitar serem consumidos.

Cada vez mais solitário e sem recursos, Marcelo voltou toda a sua energia para o litígio contra o pai e a Odebrecht. A exceção eram as horas passadas avaliando as planilhas de custo da repartição em que prestava serviços, uma vez por semana, e os depoimentos aos processos da Lava Jato. A memória prodigiosa, a disciplina e a disposição para escrever longas mensagens continuavam as mesmas. Ajudavam-no a engordar os arquivos dos processos contra a Odebrecht com a mesma velocidade com que, em outros tempos, ele rodava o mundo e os gabinetes de Brasília, impondo seu poder e sua vontade. Aquele que um dia havia sido um dos empresários mais poderosos do continente, tratado com mesuras por políticos e mandatários de toda a América Latina, agora se consumia em processos e dívidas.

Marcelo Odebrecht tornara-se um personagem deslocado no tempo e no espaço. Não era mais poderoso, nem tampouco o criminoso número um do Brasil. Perdera os elos com a empresa pela qual vivera e o lugar de honra na família de que, no passado, havia tido tanto orgulho. Ainda assim, continuava se comportando como o vencedor de outros tempos. Estoico e orgulhoso, certo de que estava com a razão, encarava tudo como uma jornada heroica que, não importava quanto demorasse, ainda o levaria à vitória. Vira e mexe revisitava no celular, por razões práticas ou nem tanto, as mensagens recebidas da mãe. Uma delas saltava aos olhos, dolorida:

“Filho, o tempo sem uma equação é contra todos nós”.

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