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Netflix fitness, live da sarada e aulão na laje viram academia na pandemia

Meses sem os tradicionais espaços levam aulas alternativas e onlines

São Paulo, SP, Brasil, 24-09-2020: Reportagem sobre mudanças de hábito na pandemia. Ivan Nascimento, educador físico, grava seus treinos na laje na Brasilândia Gabriel Cabral/Folhapress

São Paulo

Foi-se o tempo em que passar na academia antes ou depois do trabalho, ou até durante o expediente, era regra universal para quem gosta de manter a forma.

Reclusos desde o início da pandemia, o novo normal para muita gente que busca manter a forma é ter seu próprio tapete de exercícios e acompanhar lives em redes sociais e videoaulas. Até academias tradicionais correram para se adaptar.

Logo no início da quarentena no Brasil, entre os dias 31 de março e 2 abril, uma pesquisa da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) ouviu 592 pessoas para avaliar os efeitos da atividade física durante o isolamento.

O resultado mostrou que, antes da pandemia, só 4% usavam algum recurso online para se exercitar. Com o distanciamento social, 60% passaram a recorrer à internet.

Segundo dados do YouTube e do Google, o interesse dos internautas sobre o tema cresceu 230% desde a segunda semana de março até o último dia de outubro.

Em comparação com o mesmo período de 2019, a busca por “exercícios para fazer em casa” cresceu mais de 5.000%. Entre os termos relacionados, os que mais aumentaram foram bicicleta ergométrica (134%), tapete fitness (104%) e artigos de treino em casa (95%).

A estudante de rádio e TV Natasha Rodrigues, 21, foi uma das que aderiram às aulas online para se exercitar. Natasha, que pratica handebol na faculdade, conta que, mesmo isolada, a equipe passou a fazer desafios caseiros para manter a forma.

Com poucos equipamentos e muito improviso, a estudante costuma acompanhar diversos perfis no Instagram. “Sempre gostei de esportes de contato. Quando tudo parou, não sabia o que fazer”, diz.
Acabado os desafios do grupo da faculdade, buscou nas redes sociais canais para continuar se exercitando. “Prefiro acompanhar lives, é mais dinâmico e tem outra energia”, afirma.

A estudante de rádio e TV Natasha Rodrigues, se exercita acompanhando lives no Instagram - Gabriel Cabral/Folhapress

Na Brasilândia, bairro na zona norte de São Paulo, o estudante do último ano de educação física Ivan Nascimento, 39, fez da laje de casa uma academia para os vizinhos. Com uma caixa de som e um microfone, Ivan começou a atrair a vizinhança para fazer exercícios com o que tinham em casa.

Foi então que levou o “Aulão na laje” para as redes sociais, postando treinos funcionais, fazendo lives no Instagram e postando vídeos no Facebook e WhatsApp.

“O retorno é bom, as pessoas costumam comentar lamentando que não posso ir até o bairro delas”, diz.
O sucesso do projeto rendeu um convite para trabalhar com a SmartFit. “Hoje eu concilio entre o Smart Truck [espécie de ‘academia ambulante’ da SmartFit] e subir na laje. Quero levar esse projeto adiante, mesmo com o fim da pandemia”, diz.

Ivan Nascimento, que está no último ano de educação física, grava o 'Aulão na laje' em sua casa na Brasilândia - Gabriel Cabral/Folhapress

A plataforma vem registrando o crescimento da popularidade de canais fitness desde o último ano. As visualizações de conteúdos sobre o tema aumentaram em 27% em 2019, de acordo com o levantamento do YouTube encomendado pela Folha.

No Brasil, entre 15 de março e 31 de agosto de 2020, as visualizações de vídeos de exercícios com “casa” ou “sem equipamento” no título atingiram o pico em 2020.

Segundo o levantamento, as visualizações aumentaram em mais de 230% em comparação com a média diária anterior para o ano.

Danilla Buscariol, 35, empresária e criadora do canal Exercício em Casa, terceiro maior do segmento no país, viu as buscas saltarem na pandemia. Com plataforma própria, Daniella vê o YouTube como porta de entrada para novos alunos.

Ela oferece pacotes mensais a partir de R$ 29,90 com programas de treino, nutricionistas e psicólogos.

Quando começou o isolamento social, diz a empresária, houve um crescimento exponencial em visualizações do canal. A média, que costumava ser de 30 mil novos seguidores por mês, passou para 200 mil.

“Ninguém acreditava quando começamos, havia um certo preconceito de que exercício só se faz na academia. Mas estudamos para ter uma boa didática e fomos bem-aceitos”, diz.

Entre os brasileiros que mais cresceram em seguidores em 2019 está Carol Borba, 34. Criadora de conteúdo, formada em educação física, é também uma das que obtiveram um crescimento significativo de assinantes não só em território nacional mas no mundo todo no último ano. Hoje, ocupa o segundo lugar entre canais fitness.

“Costumo dar aulas em academias e trabalhava muito. Procurei um coach de carreira que falou: ‘Você dá aula para 30 pessoas, por que não dar para 30 mil?’”, afirma.

Plataforma PowerHiit, uma espécie de Netflix fitness com videoaulas como “Mamãe sarada” e “Barriga chapada”
Plataforma PowerHiit, uma espécie de Netflix fitness - Reprodução

Com o crescimento do canal, expandiu o negócio e criou o aplicativo Queima Diária e a plataforma Power Hiit, uma espécie de Netflix fitness com videoaulas como “Mamãe sarada” e “Barriga chapada”.

A youtuber também passou a produzir conteúdos para Instagram. “O público de lá é diferente. Gosto de fazer lives, é mais dinâmico”, diz.

“Parece que a gente sente a energia dos alunos, é outro tipo de interação. As pessoas costumam me marcar antes das lives, mostrando que estão se preparando para a aula, arrastando os móveis para começar a aula.”

Com o online ganhando espaço e com o receio das pessoas para fazer atividades fora de casa, as academias tiveram que se adaptar para enfrentar o novo normal e não perder clientes no meio do caminho.

O segmento retomou atividades em julho, com restrições como operar com no máximo 30% da capacidade, limite de funcionamento de seis horas diárias e agendamento prévio pelos clientes, que devem manter distância mínima de dois metros entre si e usar máscaras todo o tempo.

Nos períodos mais rígidos do distanciamento social, empresas como SmartFit, BioRitimo e Blue Fit colocaram no cronograma pacotes de aulas online e lives nas redes sociais para tentar segurar os clientes.

“Queremos oferecer qualidade não só em nossas academias mas onde o cliente estiver. Se ele pode ir até uma unidade, terá a orientação dos professores, higiene e segurança. Se optar por não ir até a academia, terá a conveniência e a comodidade dos nossos serviços online”, afirma Leonardo Cirino, vice-presidente de marketing do grupo Bio Ritmo.

A tendência para o setor sobreviver à crise, diz Stefano Arpassy, consultor Sênior de WGSN Mindset, é criar pacotes híbridos para clientes de academia, alternando entre aulas presenciais e online. Para o consultor, quem estiver com planejamento digital pode largar na frente.​

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