Pix vai favorecer indústria de fintechs, diz presidente do Mercado Livre

Empresa recebeu licença do Banco Central e busca se firmar como instituição financeira no Brasil

São Paulo

Pioneiro e líder do comércio eletrônico na América Latina, o Mercado Livre busca agora se firmar como fintech, empresa voltada à inovação tecnológica em finanças.

Em entrevista, seu cofundador e presidente, o argentino Marcos Galperin, 49, comemora a licença que acaba de receber do Banco Central para atuar como instituição financeira também no Brasil. Demorou quatro anos, mas saiu.

"Metade da população na América Latina não tem acesso a serviços financeiros", diz. "A oportunidade aí é muito grande."

Marcos Galperin, cofundador e presidente do Mercado Livre no Brasil - Diego Battiste/Divulgação

Marcos Galperin nasceu em 1971, em Buenos Aires, onde estudou no Colegio San Andrés. Graduou-se em 1994 na escola de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia (EUA). Trabalhou por três anos na petroleira argentina YPF, dirigindo a área de mercado de capitais. Após fazer MBA em Stanford (EUA), criou em agosto de 1999 a plataforma de comércio eletrônico Mercado Libre, que chegou ao Brasil dois meses depois, como Mercado Livre.


Ele não prevê investir fora da região tão cedo, porque a penetração do varejo online segue baixa e com potencial para se aproximar das taxas de EUA ou China. Espera aumento da concorrência nos próximos anos, "sem dúvida", com presença crescente de gigantes como Amazon.

Questionado sobre como a maior empresa latino-americana, em valor de mercado, nasceu e se firmou na Argentina, respondeu: "Caos não é uma coisa difícil de entender, para nós. Estamos acostumados à instabilidade. E, quando você está fazendo uma startup, é muito caótico".

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O Mercado Livre acabou de anunciar números recordes para o terceiro trimestre, em volume de vendas, em usuários e também em volume de financiamento pelo Mercado Pago. A pandemia acelerou uma mudança já esperada? Sim. A pandemia adiantou no tempo, acho que em três ou cinco anos, dependendo do país, mas o varejo online já vinha crescendo forte por 20 anos. Nós lançamos [o Mercado Livre] em 1999 e, historicamente, nossas taxas de crescimento eram de 30% a 40%.

No princípio deste ano, a penetração do varejo online estava perto de 5% na América Latina, e acho que vamos finalizar o ano perto de 10%. Seria a porcentagem que alcançaríamos talvez em cinco anos. O mesmo aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, onde a porcentagem de varejo online era de aproximadamente 15% e agora está em 30%. A América Latina, mesmo após a pandemia, terá uma penetração de varejo online menor que China, EUA ou Europa.

Foram dois impactos. Um, o volume muito maior de pessoas que fazem compras online. Por outro lado, infelizmente, a queda no varejo tradicional. Essa queda está mudando agora, o varejo tradicional está voltando a se abrir e voltando, acho, a níveis similares aos que tinha no ano passado. Mas o varejo online deve continuar com níveis de vendas similare aos que teve durante a pandemia.

Quem são os novos usuários? Muitas pessoas que não tinham histórico comprando online, tipicamente com mais de 50, 60 anos. Elas gostaram da independência que o varejo online dá. Não ter que enfrentar riscos de saúde e poder comprar o que quiser sem depender de ninguém. Também aquelas pessoas que já tinham feito compras online conosco, mas passaram a fazer muito mais. Compraram em categorias que no passado não compravam, porque tiveram que passar para home office ou home school.

Tínhamos feito grandes investimentos em construir uma rede logística, em toda a América Latina, e, mesmo com a greve dos Correios no Brasil, pudemos dar uma resposta a esse crescimento na demanda.

As ações do Mercado Livre e de outras empresas de tecnologia caíram na última semana, por causa de um anúncio da vacina. O fim da pandemia ainda pode derrubar o crescimento do setor? O Mercado Livre tem um plano para quando acabar a pandemia? Sim, sem dúvida temos. O plano é similar ao que tínhamos antes da pandemia. Nós achamos que o varejo online ainda é pequeno na América Latina. Vai ter muitas décadas de crescimento acima de 20%, 30%.

E as demandas dos compradores novos são cada vez maiores. Entregas rápidas, entregas gratuitas, melhores preços, melhores parcelamentos, financiamento, maior diversidade de produtos, maior segurança etc. etc. Temos que continuar investindo muito, em tecnologia e em logística.

Qual é a visão que você tem do mercado brasileiro, para justificar os investimentos recentes em aviões e centros de distribuição? É de longe o mercado mais sofisticado do varejo online da América Latina. É o maior, mas também o mais sofisticado. O que tem mais concorrentes, o que tem mais diversidade de plataformas. Mesmo assim, continua sendo um mercado ainda pequeno, para o que vai ser daqui a dez anos.

Nós achamos que o Brasil será muito similar ao que é hoje o mercado norte-americano. Por isso é importante oferecer envios gratuitos, envios no mesmo dia ou em 24 horas, à maior quantidade de usuários. Hoje 75% das entregas de nossos centros de armazenamento e distribuição ocorrrem em menos de 48 horas. Essa porcentagem é bem mais baixa do que dois anos atrás e um ano atrás.

Está prevista a privatização dos Correios no ano que vem. Existe algum interesse do Mercado Livre em parte, pelo menos, dessa privatização? Nós trabalhamos com os Correios faz muito, muito tempo. Acho que somos, faz dez anos possivelmente, o maior cliente dos Correios. E achamos que é importante que os Correios façam mais investimentos e melhorem os seus tempos de entrega.

Mas nós estamos construindo a nossa própria rede logística. Achamos que vamos continuar trabalhando muito com os Correios, no futuro, por muitos anos mais, mas com uma dependência bem mais baixa da que tivemos no passado.

Como você vê a presença cada vez maior de gigantes de comércio eletrônico como Amazon e Alibaba, no Brasil? Você os vê com maior força, com o tempo? Achamos que a concorrência vai aumentar nos próximos anos, sem dúvida.

Temos muita concorrência, faz tempo. Tivemos todo tipo de concorrente, muda o nome, as estratégias etc. Então, tentamos jogar nosso próprio jogo, sem olhar demais para o que estão fazendo. Temos a maior plataforma, a maior quantidade de vendedores, de compradores, a maior em usuários de aplicativos.

O Magazine Luiza cresceu no comércio eletrônico no Brasil. O que pode explicar estar em segundo lugar agora? Como você vê os atores brasileiros, nesse mercado? No comércio eletrônico, haverá muitos jogadores exitosos, com estratégias legais. Aqueles que têm origem offline estão tentado utilizar seus ativos offline para fazer "pick-up in store", como um fator competitivo de vendagem. O que achamos que é uma estratégia lógica, para eles.

Tanto no Brasil quanto noutros países, como o México, onde temos concorrentes com muita presença offline, vemos que estão usado isso como parte de uma estratégia "omnichannel" [integração de todos os canais com o consumidor, digitais e físicos]. Tem sentido, para eles.

O Mercado Livre tem planos para crescer fora da América Latina? Não. Nos últimos 12 meses, tivemos 55 milhões de compradores e, contabilizando o Mercado Pago, 80 milhões de usuários da nossa plataforma. E a América Latina tem 600 milhões de pessoas, então ainda temos muito para crescer.

Também na quantidade de compras e pagamentos por usuário temos crescido. Estamos perto de 10 compras por comprador. Mas esse número na China está acima de 100. Então, ainda há muito para crescer e nosso foco vai permanecer na América Latina.

Até que ponto o Mercado Pago representou um salto para o Mercado Livre? Ele foi inicialmente pensado para as pessoas que comprassem um produto que não haviam olhado, tocado, de um vendedor que não conheciam. Para que se sentissem cômodas fazendo o pagamento. E funcionou muito bem. Abrimos o Mercado Pago para outros sites, o que também foi bem-sucedido.

Mas não parou aí. Nós começamos a ver que havia muita possibilidade de oferecer serviços financeiros. Metade da população na América Latina não tem acesso a eles. Podemos, por exemplo, oferecer crédito. Notamos que tínhamos a possibilidade de analisar o comportamento de milhões de usuários online e oferecer a eles um crédito mesmo sem que tivessem a documentação formal que comprovasse suas rendas.

Há muita gente que não tem trabalho formal ou que possui uma pequena ou média empresa sem os documentos contábeis para ir a um banco e receber um empréstimo. Nós, com toda a informação digital que temos deles, sim, achamos que é possível outorgar-lhes um empréstimo. Isso foi o que começamos a fazer.

Temos agora 6 milhões de créditos em carteira. E apesar da pandemia as nossas taxas de falta de pontualidade permanecem bem baixas. 80% das pessoas que têm esses créditos é gente que não possui um índice creditício suficiente para receber um crédito bancário.

Vocês acabam de receber uma licença do Banco Central. O Brasil outorgou a licença de instituição financeira para nós, o que possibilita dar créditos diretamente ao consumidor. Antes tínhamos que fazê-lo através de um banco. Agora podemos fazer diretamente.

Estamos ampliando o mercado financeiro para as pessoas que, no passado, não tinham acesso. Temos 14 milhões com investimento no nosso fundo, que confere uma renda, todos os dias tem um pouquinho, e a pessoa pode usar o dinheiro digitalmente a qualquer momento.

Então, tem o serviço de renda, para 14 milhões; o serviço de oferta de crédito, mais de US$ 850 milhões em carteira; o serviço de aceitar pagamentos digitais, para grandes, pequenas e médias empresas; e depois o serviço de aceitar pagamento no mundo físico, através de POS [ponto de serviço]. Estamos incluindo financeiramente muitas pessoas e achamos que a oportunidade aí é muito grande.

Em vídeo recente com o presidente do PayPal, Daniel Schulman, você diz que uma das missões do Mercado Livre é eliminar o dinheiro físico na América Latina, mas deve demorar décadas. Por que não pode ser como na China, onde o processo já está avançado? Bem, a China é um ecossistema completamente diferente, em que a penetração do cartão de crédito era bem mais baixa, para começar. E depois houve duas plataformas, do Alibaba e do WeChat, muito grandes, permitindo rapidamente os pagamentos digitais. E o governo apoiou fortemente essa iniciativa das empresas.

Mas a situação na América Latina é outra. Dito isso, acho que no Brasil o lançamento do Pix é um acontecimento muito positivo para o crescimento dos pagamentos digitais.

Existe algo parecido em andamento noutros mercados, como Argentina e México? O Brasil está mais avançado. É geral, tanto para pagamentos digitais, fintech, varejo online. O Brasil tem um mercado de capitais local muito desenvolvido, tem investimentos locais grandes, tem empreendedores locais muito exitosos. Acho que também o marco regulatório está mais avançado.

Uma das críticas constantes ao Brasil e a outros países da região é que o ambiente regulatório e fiscal é desfavorável à iniciativa privada. Você vê avanços, especificamente no Brasil? O Brasil tem um marco fiscal complexo, sem dúvida. No nível federal e também estadual. Mas eu vejo iniciativas como a do Pix, que acho moderna, que vai ajudar no crescimento da indústria de fintech. E nós acabamos de ter a aprovação. Sim, foi um processo longo, de quatro anos desde que começamos, mas agora tivemos a aprovação da instituição financeira.

Poderia haver melhoras, mas é uma indústria completamente nova e todo o mundo está tentando entender qual é a melhor maneira de regular, de não regular, de fomentar que haja mais concorrência, de assegurar que os consumidores tenham as melhores soluções etc. E distintos países estão aprovando fórmulas distintas. Ainda não está claro qual é a melhor.

Há resistência. Tem também os jogadores estabelecidos, claro, que preferem que não haja nenhuma mudança, porque estavam muito confortáveis com a situação anterior. E eles têm muito mais poder e muito mais redes de contato que os novos jogadores.

Então, alguns países estão promovendo mais concorrência, mais inovação, outros estão defendendo os jogadores estabelecidos, mas em geral a tecnologia está fazendo grandes avanços, porque todos os governos, no fim do dia, preferem que os consumidores tenham as melhores opções possíveis. E para isso é preciso mais concorrência, mais investimento.

Como é que a maior empresa em valor de mercado da América Latina se estabeleceu na Argentina, país que costuma ser tão criticado? Eu acho que a Argentina é um país que tem uma cultura empreendedora muito forte. Talvez influenciada por aquela instabilidade econômica durante tanto tempo. Tem uma cultura das pessoas. Caos não é uma coisa difícil de entender, para nós [risos]. Estamos bastante acostumados ao caos, à instabilidade. E, quando você está fazendo uma startup, realmente é muito caótico. E tem muito risco todo o tempo.

A outra face, a face que acho menos feliz disso, dos empreededores argentinos, é que na minha opinião há uma tendência de mirar mais a curto prazo. Porque é difícil construir uma grande empresa ao longo de muitas décadas, quando todo o tempo há instabilidade. Acho que é bastante comum encontrar empreendedores argentinos muito bons, mas é muito difícil encontrar empresas argentinas que sejam muito significativas, porque tipicamente são vendidas. É só se estabilizarem um pouco, o empreendedor prefere vender.

O Mercado Livre acaba de fazer uma parceria para o lançamento do Disney+ no Brasil. Há interesse de investir em conteúdo? Temos também parceria com a Disney+ no México e a HBO no México e no Brasil. Estamos falando com muitos provedores de conteúdo, em toda a América Latina. Pensamos que podemos ser ideais para aqueles que têm conteúdo e precisam de um parceiro que faça e-commerce, mas não seja concorrente.

Não temos interesse em criar conteúdo e sim em distribuir conteúdo. Não temos know-how nem DNA de criador de conteúdo e preferimos conteúdo de terceiros, para nossos usuários. Temos uma plataforma com 80 milhões de usuários, uma grande massa que, sim, procura conteúdo, então nossa estratégia é fazer parcerias.

Vários fundadores de empresas de tecnologia investiram em conteúdo jornalístico, como Jeff Bezos no Washington Post e Jack Ma no South China Morning Post. Você tem interesse? Eu tenho muito interesse em jornalismo como leitor. Sou ávido leitor do jornalismo. Mas nós achamos que nossos investimentos vão estar na área de logística, de fintech, de desenvolvimento de software.

Acompanhando seu perfil de Twitter, vê-se que você está atento à discussão sobre o modelo de negócios para o jornalismo. É uma discussão realmente fascinante. Porque no passado havia poucos players tradicionais, que dominavam a agenda e os orçamentos, canalizavam a maioria dos investimentos de publicidade. Isso mudou. Agora algumas empresas de internet têm a maioria dos investimentos de publicidade, mas não têm o poder e a influência que têm os meios tradicionais. Então saiu uma briga, entre eles.

Felizmente, os meios tradicionais encontraram a fórmula para ser bem-sucedidos no mundo da internet. O New York Times tem mais ingressos por assinaturas digitais do que pela venda tradicional. O Wall Street Journal, o Financial Times, todos têm milhões de assinantes digitais e são organizações que já são rentáveis e exitosas. Não vão desaparecer. Isso é muito importante.

Acho também que é possível que não voltarão a ter o poder que tinham no passado. Porque agora a audiência está muito mais fragmentada.

Com relação à mídia social, há um questionamento à desinformação que as plataformas permitem ou estimulam. Você vê uma adequação maior, com o tempo? A desinformação pode acontecer nas redes sociais, mas também na mídia tradicional. Vejo publicarem notícias que não são verídicas, isso do lado esquerdo, do direito, de todos os lados. Na mídia tradicional há uma visão de que os problemas acontecem por causa das redes sociais, mas elas só estão replicando os problemas que há na sociedade.

Sem dúvida, as redes sociais terão que intervir mais, quando acontece desinformação. Vimos isso nas eleições nos EUA. Mas depois vem a discussão: quem decide o que é verídico e o que é falso? Não são temas somente das redes sociais. São temas de toda a sociedade.

Diante do que se assiste nos EUA e na América Latina, você é otimista em relação à estabilidade democrática, daqui para a frente? Eu acho que as democracias terão que incorporar a tecnologia melhor. A gente se acostumou a plataformas tecnológicas que nos permitem opinar e nos informar muito rapidamente. E temos a democracia que tínhamos há 150 anos, quando as notícias tardavam muito, quando gente não podia votar porque era muito difícil.

O que aconteceu agora na Califórnia é interessante, na regulamentação dos trabalhadores das plataformas de Uber, Instacart etc. A estrutura política e judicial fez toda uma regulamentação, depois se fez um plebiscito e 60% das pessoas preferiram uma regulamentação completamente diferente.

Muitas vezes a estrutura política e judicial do passado não está representando o que as pessoas estão querendo. Tem que dar mais participação às pessoas, para se expressarem de forma direta e não através de representantes, que muitas vezes estão influenciados por organizações burocráticas que têm interesses próprios, não o interesse de toda a população.

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