Soluções propostas em 'O Capital no Século 21' são utópicas, mas tecnicamente corretas, diz economista

Documentário inédito exibido pelo Festival Varilux de Cinema Francês 2020 foi debatido nesta quarta-feira (25)

São Paulo

Quando foi lançado em 2013, “O Capital no Século 21”, de Thomas Piketty, reacendeu o debate sobre o campo da desigualdade interpessoal de renda e contribuiu para abordar a necessidade de fortalecer um Estado redistributivo. No caso do documentário baseado na obra, em cartaz durante este mês pelo Festival Varilux de Cinema Francês 2020, apesar de não abordar a crise da Covid-19, traz um ponto de reflexão sobre o processo de desigualdade explicitado pela pandemia.

Para Débora Freire, professora de economia da Universidade Federal de Minas Gerais que participou do debate realizado pela Folha nesta quarta-feira (25), o documentário apresenta o papel que as guerras tiveram em reverter o curso da desigualdade. Ela indica que o momento que o documentário está sendo lançado é muito oportuno, exatamente pelo contexto mundial em que “uma catástrofe sanitária que paralisou as economias tem trazido a discussão a respeito do papel do Estado e do quanto vai ser necessário que ele seja redistributivo”.

O documentário “O Capital no Século 21”, dirigido por Justin Pemberton, retoma cerca de 400 anos em acontecimentos mundiais com imagens de arquivos e cenas de filmes e aponta as influências do capitalismo para o aumento na desigualdade de renda, com opiniões de economistas. O autor do best-seller defende, em sua fala no filme, que o crescimento da desigualdade influencia no aumento do nacionalismo e da xenofobia e estabelece cenário conflituoso semelhante ao vivido antes da Primeira Guerra Mundial.

Piketty propõe algumas medidas para atenuar os conflitos que o capitalismo traz, como as tributações sobre heranças, o fim dos paraísos fiscais e o controle de capital.

"Em relação às soluções propostas por ele, eu acho que são um pouco utópicas, mas são tecnicamente corretas e a gente tem que começar de algum lugar”, diz Samuel Pessôa, colunista de Mercado e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV). Segundo ele, uma grande limitação do livro é não abordar uma agenda paralela a essa discussão, que é a defesa da concorrência em relação à construção de grandes monopólios de empresas com o progresso tecnológico, um fator agravante para a desigualdade.

Na visão de Pedro Souza, pesquisador do Ipea e autor de "Uma História da Desigualdade: a Concentração de Renda entre os Ricos no Brasil – 1926-2013", o economista francês não aborda de maneira aprofundada o processo de agitação e mobilização política que, ao longo da história, foi responsável pela organização de grandes debates e solidificação de compromissos. “Tudo que há de verdadeiramente político por trás da construção dos estados de bem-estar europeus some um pouco. Isso faz com que as propostas de Piketty acabem sendo um pouco um delírio tecnocrático. Qual é a força social que é capaz de tentar promover essas reformas?"

A mediação do debate foi feita por Fernando Canzian, repórter especial da Folha que realizou a série de reportagens Desigualdade global. O jornalista também indagou os economistas sobre a desigualdade no mundo pós-coronavírus.

Pessôa argumentou que a situação atual é a antítese dos anos 2000, em que a demanda pelo setor de serviços cresceu e, dessa forma, a busca por trabalho informal também. Com a pandemia, o setor foi o mais atingido e, consequentemente, deixou muitas pessoas desempregadas. “Isso tem um impacto imenso, por isso que veio essa demanda para construir uma Renda Cidadã e turbinar o Bolsa Família. Essa dificuldade não é só do Brasil, é universal e tem sim uma dinâmica com a desigualdade.”

Para Souza, o cenário é ainda mais pessimista. Apesar da resposta para a crise da Covid-19 ter sido boa, considerando o tempo para inventar e operacionalizar o auxílio emergencial, ele não vê continuidade para as medidas. “Na melhor das hipóteses, vamos conseguir mais alguns ​meses de respiro e depois? A gente não consegue achar espaço no orçamento nem para recompor o Bolsa Família que existia, sendo que ele está defasado desde 2012."

Freire vê com otimismo o modo como a discussão sobre desigualdade ganhou espaço no Congresso, na sociedade civil e na academia, justamente pelas necessidades expostas pela pandemia, mas concorda com o pesquisador do Ipea em relação ao impasse orçamentário. “Acredito que se a gente continuar nessa resistência muito grande de fazer política tributária progressiva para financiar a transferência de renda, vamos ter um caos social”, conclui.

O evento foi realizado em parceria com o Festival Varilux de Cinema Francês 2020. O filme "O Capital no Século 21" e mais 17 outros filmes inéditos estão em cartaz em todo o Brasil na programação do festival que pode ser consultada pelo site.

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