Vacinas e vírus geram efeito gangorra nas Bolsas e no dólar

Avanços no desenvolvimento de um imunizante animam os mercados; aumento de casos da doença tem efeito inverso

São Paulo

Os sinais de eficácia das vacinas em teste contra a Covid-19 e as restrições para conter a pandemia têm forte impacto no mercado financeiro. Enquanto a alta resposta imune de voluntários nos estudos dos imunizantes faz Bolsas dispararem e o dólar cair, o avanço da pandemia tem o efeito inverso, provocando gangorras no mercado.

Há duas semanas, a Bolsa brasileira saltou quase 3% com o anúncio de eficácia de mais de 90% da vacina da Pfizer em parceria com a BioNTech e a vitória do democrata Joe Biden na corrida presidencial dos Estados Unidos.

Antes, no fim de outubro, o Ibovespa havia tombado 4,25% (maior queda diária desde abril) com o temor de uma segunda onda da pandemia na Europa, recorde de casos nos EUA e incertezas nas eleições americanas.

Naquela semana, encerrada em 30 de outubro, o Ibovespa acumulou queda de 7,22%, o maior recuo desde março, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a pandemia de coronavírus.

“O mercado extrapola para ambos os lados [sobe e desce] qualquer que seja a novidade, pois o mercado vive de expectativa”, diz Rodrigo Moliterno, sócio e head de renda variável da Veedha Investimentos.

Segundo Moliterno, o rápido avanço das vacinas contra a Covid-19 melhora a expectativa do mercado para a economia, por isso a corrida para comprar ações em dias de anúncios positivos sobre o desenvolvimento dos imunizantes. “O mercado antecipa o movimento ‘de volta para o normal’ das economias e sai se ajustando.”

“A Bolsa reage a expectativas futuras, mesmo com lockdown e internações aumentando no momento”, diz Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora. Ou seja, a aposta do mercado é que elas “curem” a economia. “O mercado financeiro aposta que, com a vacinação, as economias vão voltar ao normal. Se a gente não tivesse as informações das eficiências das vacinas estaríamos muito mais preocupados com o aumento [de casos] e uma segunda onda”, diz Moliterno.​

Não é, porém, qualquer um a das mais de 200 imunizantes que mexem com os investidores. As vacinas desenvolvidas pelos grandes e tradicionais laboratórios ocidentais (Pfizer, Moderna Therapeutics, AstraZeneca e Johnson & Johnson) são as que mais pesam no bolso.

“O mercado é impactado pela empresa mais confiável. A Pfizer é uma empresa super conceituada e o seu estudo foi o primeiro sinal de que as vacinas vão funcionar”, diz Moliterno, em referência ao anúncio de eficácia de 95% da vacina da farmacêutica americana em parceria com a empresa alemã BioNTech.

Além da preferência do mercado pelas empresas americanas, seus imunizantes estarão disponíveis com maior rapidez e facilidade aos EUA, maior economia do mundo e que tem, por isso, forte impacto sobre a recuperação global. Hoje, o país sofre com recordes de novos casos de coronavírus, sinal de alerta pra o mercado na ausência de vacina.

Na quinta (19), Nova York suspendeu as aulas presenciais nas escolas depois que, em menos de um mês, as contaminações mais que quintuplicaram na cidade. Em 19 de outubro, eram 999 novos casos por dia e em 17 de novembro, foram 5.094.

Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), o PIB (Produto Interno Bruto) global vai encolher 4,4% em 2020. Em junho, essa projeção era de queda de 4,9% e em abril, recuo de 3%. Para os EUA, a projeção atual é queda de 4,3% do PIB. Em junho, era de 8% e em abril, de 5,9%. A previsão para o Brasil é de queda de 5,8%, ante 9,1% projetado em junho e 5,3% em abril.

Considerando as revisões, a perspectiva ainda é negativa, mas melhor do que se temia. Segundo analistas, um dos motivos para o otimismo é o ganho de confiança com o rápido desenvolvimento de vacinas. Além disso, o consumo online e a reabertura do comércio durante a pandemia deram um fôlego à atividade econômica.

“A economia voltou a respirar. Achou caminhos para que o consumo continuasse. A venda de imóveis está batendo recordes e o varejo online está em níveis superiores ao pré-pandemia, mas a questão de serviços ainda é bastante comprometida” diz Indech, da Clear.

Ele aponta, porém, que existem grandes obstáculos até uma vacinação bem-sucedida, como fábricas com ampla capacidade de produção e redes de distribuição. O Brasil, por exemplo, pode enfrentar dificuldades nessa frente na ausência de ultracongeladores capazes de armazenar a vacina da Pfizer a -70°C no Programa Nacional de Imunização brasileiro.

“Não adianta ter eficácia e não ter escala global e logística”, diz Indech. Mesmo com o anúncio da vacina, uma cura efetiva da economia, na visão do mercado, ainda vai depender de uma vacinação em massa da população global, o que gera novas incertezas. Outro obstáculo debatido é uma eventual necessidade de aplicação de mais de uma dose.

Executivos lucram com disparada de preços de ações

A Joh nson & Johnson, por exemplo, teve uma alta de 14,4% em abril, depois de anunciar que a empresa e o governo americano pretendiam investir mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,39 bilhões) para produzir mais de um bilhão de doses da vacina e de divulgar uma alta de 55% no seu lucro líquido dos três primeiros meses de 2020, em comparação ao primeiro trimestre de 2019, para US$ 5,80 bilhões (R$ 31,3 bilhões).

Em julho, quando a vacina da Pfizer teve seus primeiros resultados positivos em humanos, as ações da empresa saltaram 17,7%. Com a forte alta das ações da companhia, executivos da farmacêutica aproveitaram para vender fatias de suas participações.

No dia 9, quando a análise preliminar dos testes de fase 3 foi divulgada, os papéis da Pfizer fecharam em alta de 7,7%. Naquele pregão, o presidente da companhia, Albert Bourla, se desfez de 62% das ações que tinha na empresa a US$ 41,94 cada, embolsando cerca de US$ 5,6 milhões (R$ 30 milhões).

Em 2019, quando Bourla assumiu a chefia da farmacêutica, ele recebeu uma remuneração de US$ 13,3 milhões (R$ 72 milhões), sendo apenas 39% em dinheiro. Nos EUA, é comum que a maior parte do salário de executivos de grandes companhias seja via ações.

Ele continua com 81,8 mil ações, segundo informações prestadas à SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA, que regula o mercado de capitais). A vice-presidente da empresa, Sally Susman, vendeu US$ 1,83 milhões (R$ 9,9 milhões) em ações da Pfizer, correspondente a 29% de sua participação na empresa.

Ambos os negócios foram programados previamente para quando as ações atingissem determinados preços, o que os exime do crime de “insider trading” (uso de informações privilegiadas para a obtenção de ganhos no mercado financeiro).

Do contrário, a possibilidade poderia ser aventada dado que ambos sabiam a data do anúncio de eficiência da vacina. Bourla aderiu a um plano de carreira da Pfizer, autorizando a venda das ações em agosto deste ano. Sally fez o mesmo, com a autorização em novembro de 2019.

Com a alta de 245% dos papéi s da Moderna no ano, o presidente da farmacêutica, Stephane Bancel, vendeu mais de meio milhão de ações da companhia, diminuindo sua participação na farmacêutica para 1,75%, o que equivale a cerca de US$ 565 milhões (R$ 3 bilhões).

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