Abertura de shoppings por 24 h no Rio gera polêmica entre lojistas e protesto de trabalhadores

Proposta foi apresentada pelo prefeito Marcelo Crivella como medida para combater aumento de contaminações

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Rio de Janeiro

A proposta do prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) para ampliar o horário de funcionamento dos shoppings do Rio de Janeiro gerou polêmica entre lojistas e protesto do sindicato de trabalhadores do setor, que veem riscos à segurança de empregados e consumidores.

A ideia foi anunciada nesta sexta (4), com a justificativa de evitar aglomerações no transporte e nas lojas durante as compras de Natal. É contrária a recomendação de especialistas, que já veem necessidade de restringir os horários de funcionamento do comércio.

Entre os lojistas e trabalhadores, a proposta foi recebida com surpresa e alguma polêmica. Ao mesmo tempo em que veem na ideia uma alternativa a um eventual recuo na flexibilização do isolamento, alguns empresários consideram inviável manter os centros comerciais abertos por 24 horas.

Aldo Gonçalves, presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio do Rio de Janeiro, disse que avalia quais medidas seriam necessárias para estender a operação, mas lembrou que aumento dos custos operacionais e as regras específicas para trabalho devem ser consideradas na decisão de shoppings e lojistas.

A presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, Angela Costa, defendeu a medida dizendo que "não adianta sacrificar mais as empresas", com eventual recuo. "Não é obrigatório [o funcionamento por 24 horas]. Vai haver uma adequação às necessidades de cada um", argumentou.

Já o presidente do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro, Márcio Ayer, classificou a ideia como "uma maluquice". "Não há transporte público que funcione durante 24 horas. Não há segurança nas ruas. Os trabalhadores não têm sequer como se deslocar", afirmou.

Normalmente, os shoppings da cidade já funcionam em horário estendido nas semanas que antecedem o Natal, fechando entre 23h e meia-noite. Embora defendam que o prazo pode ser ampliado, lojistas não veem sentido em funcionar por toda a madrugada.

"Não sei se de madrugada vai ter gente circulando, a gente sabe que o Rio é uma cidade insegura", disse Marcelo Novaes, assessor da presidência da Fecomércio-RJ. "Mas não acredito que vão ficar 24 horas aberto, a gente não tem nem economia para isso."

Além disso, qualquer extensão do horário de funcionamento dependeria de acordo com os trabalhadores e da disposição por assumir todos os custos envolvidos, como o pagamento de horas extras e o aumento de gastos com iluminação e ar condicionado, por exemplo.

A Abrasce (Associação Brasileira dos Shopping Centers) afirmou que o setor trabalha em cumprimento aos decretos municipais e estaduais e que os shoppings do Rio de Janeiro "seguirão em diálogo com as lojas para a melhor forma de atender a população, colaboradores e lojistas".

Em geral, os segmentos envolvidos temem serem impactados por eventuais restrições para conter o aumento no número de casos e são críticos em relação a outros segmentos que também provocam aglomerações.

A Fecomércio, por exemplo, destacou não ver relação entre a abertura das lojas e os maiores índices de contaminação. "O comércio voltou a funcionar em meados de julho e estamos chegando em meados de dezembro. Funcionou esses meses todos e só agora temos aumento nos níveis de contaminção", argumenta Novaes.

Na nota enviada à Folha, a Abrasce disse que o setor vem cumprindo protocolos sanitários desenvolvidos e aplicados em parceria com o Hosptal Sírio-Libanês.

"A alta no número de internações por Covid-19 foi impulsionada nas últimas semanas por outros setores que não investiram na criação e manutenção de protocolos de segurança, prejudicando todo o mercado e com impacto na manutenção de empregos e alavancagem da economia", afirmou.

As entidades consultadas defenderam um reforço em campanhas de conscientização da população para evitar novas retrições à abertura de comércio e serviços. "A população cansou do isolamento e relaxou", diz Novaes. "Tem que ter campanha e não fechar o comércio."

Na entrevista desta sexta, o governador e o prefeito do Rio fizeram vários apelos à população. Comércios, bares e restaurantes estão funcionando normalmente no Rio, e praias e transportes têm ficado lotados, com pessoas muitas vezes sem máscara.

"Apelo para que pessoas não façam aglomeração em local onde não se usa máscara. Bares e praias devemos evitar. Vimos um processo eleitoral em que subiu a curva de infecção. O processo eleitoral acabou, mas vamos colher os frutos nos próximos dias, somado com as praias lotadas no fim de semana", declarou Crivella.

A fila da UTI já chega a 117 pessoas no Rio e na região da Baixada Fluminense, de onde muitos saem em busca de leitos na capital. É mais que o triplo do registrado três semanas antes (32 pessoas), quando a ocupação das unidades de terapia intensiva ainda estava em 77%.

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