Descrição de chapéu open banking

Apps de finanças pessoais se sofisticam e oferecem até assistente virtual

Ferramentas são aliadas na organização, mas exigem disciplina do usuário

Brasília e São Paulo

Mudanças regulatórias recentes feitas pelo Banco Central têm impulsionado o mercado de aplicativos de organização financeira, que buscam se sofisticar para aproveitar as novas oportunidades.

Para além do controle simples de receitas e despesas, característico das primeiras versões, as opções disponíveis hoje vão de análises de evolução salarial a assistentes com inteligência artificial.

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Ariel Alexandre e Vanessa Caldas criaram o aplicativo O Meu Banco para ajudar a filha Sofia a gerenciar a mesada - Amanda Alexandre/Divulgação O Meu Banco

Contribui para esse cenário o advento do open banking —processo de compartilhamento de dados financeiros entre instituições—, previsto para entrar em operação no Brasil em 2021, além de outras mudanças regulatórias implementadas pelo BC neste ano.

Segundo Thiago Alvarez, presidente do Guiabolso, um dos apps mais populares da categoria, a expectativa é que com maior acesso e transparência de dados, novos participantes entrem no sistema financeiro com produtos e serviços personalizados segundo o perfil do consumidor.

“Além da maior margem para que mais empresas entrem nesse segmento com o open banking, o atual momento macroeconômico também pode impulsionar o uso desses aplicativos de gestão financeira por parte dos consumidores. Já existe uma demanda por esses serviços e a tendência é que essa procura aumente ao longo dos próximos meses”, afirma.​

Além da plataforma de gestão financeira, o Guiabolso oferece um marketplace, espaço em que o consumidor pode avaliar diferentes propostas de empréstimos, seguros e cartões.

O app possui também uma ferramenta de movimentação bancária, pela qual o usuário consegue fazer transações usando o aplicativo como um iniciador de pagamentos, modalidade regulamentada pelo BC em outubro.

Outro app que ilustra a evolução do setor é o Mobills. Quando o desenvolvedor Carlos Terceiro teve a ideia de criar uma ferramenta de organização financeira, em 2014, lançou inicialmente um serviço simples de controle de gastos pessoais.

Ao notar o crescimento do número de downloads, ele percebeu uma oportunidade de negócio e desenvolveu em seguida o Mobills, com uma proposta mais sofisticada. O aplicativo conta hoje com mais de 8 milhões de usuários cadastrados.

A ferramenta oferece modelos de orçamentos mensais e permite controlar gastos no cartão de crédito, anotar despesas, objetivos financeiros, investimentos e analisar a evolução salarial.

“O Mobills faz uma cobertura 360º da vida financeira da pessoa. Com ele, você consegue ver no meio do ano se vai ter dinheiro para comprar presente de Natal, por exemplo”, afirma Terceiro.

Além de faturar com assinaturas dos usuários, o aplicativo tem parceiros que oferecem de empréstimos a cartões de crédito.

“Trabalhamos com educação financeira, estamos ligados na questão do open banking e vamos fazer as primeiras integrações bancárias em 2021”, diz.

A expansão do mercado no Brasil também tem atraído apps estrangeiros. Em janeiro deste ano, chegou nas lojas de apps nacionais o americano Olívia, espécie de assistente virtual que, por meio de inteligência artificial, dá dicas personalizadas de finanças com base em dados.

A Olívia avisa se o salário caiu na conta e desafia o usuário a economizar em algumas categorias. O app também categoriza transações financeiras e permite integração com conta bancária.

“O grande diferencial está no comportamento que ela traz. O objetivo é se tornar cada vez mais relevante em dados e inteligência financeira. Não queremos ser bancão”, afirma Lucas Moraes, cofundador do aplicativo.

Há oportunidades para apps financeiros que inclusive não lidam com dinheiro —caso do O Meu Banco, ferramenta cuja proposta é ensinar educação financeira para crianças.

A ferramenta foi criada por Ariel Alexandre para ajudar a filha a organizar a mesada. Hoje, ele é um dos apps listados pelo Google entre os melhores aplicativos de 2020.

O Meu Banco simula uma conta bancária para crianças, que gerenciam por meio dele recursos fictícios. A ideia é estimular o aprendizado de educação financeira em atividades do dia a dia.

Ariel conta que no futuro não descarta permitir o gerenciamento de dinheiro de verdade por meio do aplicativo.

“O futuro desse negócio é muito extenso. Queremos explorar a parte de investimentos com mais opções, de maneira lúdica, sempre com a participação dos pais, e estimular o empreendedorismo nas escolas”, afirma.

A expansão dos apps, no entanto, ainda precisa superar algumas barreiras, como a necessidade de disciplina por parte dos usuários e a desconfiança de compartilhar informações bancárias.

Ao buscar o app Guiabolso no Google, por exemplo, o primeiro complemento automático que surge no buscador é: “é confiável?”

Esse é o caso da empresária Roberta Figueiredo. “Baixei um [aplicativo] e na época fiquei meio receosa de dar acesso aos meus bancos, então desisti de usá-lo”, afirma.

O planejador financeiro da Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros) Carlos Castro afirma que a aprovação da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) pode ser uma aliada de quem quer se planejar financeiramente por meios tecnológicos com segurança.

“Ela foi instituída para proteger as pessoas nos meios digitais. Com a lei você pode revogar o uso dos seus dados ou ainda fazer portabilidade. A gente tem uma regulação para isso”, afirma.

Mesmo diante da comodidade dos aplicativos de gestão financeira, Castro afirma que para economizar de fato é preciso ter disciplina. Ele vê os apps como aliados, que não resolvem o problema sozinhos.
Alvarez, do Guiabolso, também defende que além do suporte da plataforma para organizar as finanças é preciso definir uma meta e ter um plano de ação.

“É preciso ter em mente que nenhum hábito muda da noite para o dia. A pessoa precisa estar disposta a se organizar, porque pode ser doloroso, em alguns casos, encarar algumas realidades de orçamento, dívidas ou gastos excessivos. Mas gestão financeira não é emocional, é racional”, afirma.

Uma realidade que os apps mostram, segundo Alvarez, é quanto realmente o usuário ganha por mês.

Segundo ele, a experiência do Guiabolso mostrou que as pessoas superestimam a renda em 10% e dizem querer economizar 10% ao final do mês. “Isso mostra um desequilíbrio”, diz Alvarez.

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