Descrição de chapéu Financial Times

Banqueiro mais rico do mundo, Safra construiu conglomerado que inclui de imóveis a bananas

Seus rivais costumavam brincar que ele só emprestava para pessoas que não precisavam do dinheiro

Financial Times

Joseph Safra, um financista nascido no Líbano que se tornou o banqueiro mais rico do mundo depois de construir um império internacional a partir de seu país adotivo, o Brasil, morreu aos 82 anos. Descendente de uma dinastia de banqueiros que começou financiando caravanas de camelos no tempo do império Otomano, na Síria, Safra acompanhou seu pai Jacob ao Brasil como migrante em 1962 e ajudou a construir a empresa da família, hoje uma das maiores instituições financeiras da América Latina.

Famoso por sua discrição e seu conservadorismo, Safra presidiu até sua morte o Grupo Safra, conglomerado que inclui bancos, imóveis, celulose e bananas. A revista Forbes avaliou sua riqueza neste mês em US$ 23,2 bilhões, o que faz dele a 63ª pessoa mais rica do mundo e o banqueiro mais abastado.

Um comunicado do Grupo Safra anunciando sua morte por causas naturais descreveu "Seu José", como seus amigos costumavam chamá-lo, como um "homem afável e perspicaz, que dedicou sua vida à sua família, a amigos, empresas e causas sociais".

No escritório, Safra era conhecido pela atenção aos detalhes, uma rigorosa ética profissional e análise cuidadosa do risco empresarial. "Mesmo lá em cima você certamente estará observando toda a empresa atentamente", disse Luiz Fernando Loureiro, um ex-funcionário do banco, numa rede social.

O extenso portfólio de propriedades globais dos Safra inclui o edifício Gherkin em Londres, um dos mais famosos marcos da cidade, comprado por 726 milhões de libras em 2014. Em Nova York, o patrimônio da família inclui o prédio nº 660 da Madison Avenue, que abrigou a loja de departamentos Barney's até sua falência no ano passado.

Vista da torre The Gherkin, em Londres (Inglaterra). O edifício foi comprado pelo "Safra Group", grupo controlado pela família do banqueiro brasileiro Joseph Safra. - Leon Neal - 10.nov.14/France Presse- AFP

Apesar de sua imensa riqueza e do sucesso nos negócios, Safra recusava publicidade. Raramente dava entrevistas, evitava as colunas sociais, esteve casado com a mesma mulher durante toda a vida e rejeitava o estilo de vida extravagante de alguns outros bilionários.

"Seu legado no desenvolvimento da economia nacional ficará marcado para sempre na história do Brasil, país que ele adotou há 58 anos", disse Isaac Sidney, presidente da associação nacional de bancos, Febraban. "Joseph Safra também foi um exemplo como empresário e filantropo."

Descendente de uma família judia sefardita, Safra nasceu em Beirute em 1938 e foi conduzido por seu pai, Jacob, que deixou o Oriente Médio no período turbulento depois da criação do Estado de Israel, temendo uma terceira guerra mundial. Jacob escolheu o Brasil como um porto seguro e prosperou em sua capital empresarial, São Paulo, de onde a família exerceu um papel chave na formação do sistema global de bancos privados.

O conselho de Jacob foi consagrado como o lema do Grupo Safra: "Se você decidir navegar nos mares do sistema bancário, construa seu banco como faria um barco, com força para navegar em segurança por qualquer tempestade".

Safra era famoso pelas decisões empresariais conservadoras, e seus rivais no Brasil costumavam brincar que ele só emprestava para pessoas que não precisavam do dinheiro. Sua prudência fez que o império empresarial da família evitasse a necessidade de ajuda nas diversas crises financeiras que pontuaram a história recente do Brasil, embora os críticos se queixassem de que às vezes demorava para inovar.

A tragédia atingiu a família quando o irmão mais velho de Safra, Edmond, morreu em um ataque incendiário em seu apartamento em Monte Carlo em 1999. O enfermeiro americano de Edmond, Ted Maher, um ex-boina verde, foi mais tarde condenado e preso por causar o incêndio. A morte do financista levou a família a uma batalha pelos ativos bancários de Edmond, segundo o jornal "O Estado".

Depois que seu irmão Moise se recusou a vender sua parte no negócio da família, Joseph iniciou um banco rival em São Paulo, do outro lado da rua, chamado J Safra, que competia com o banco principal da família pelos mesmos clientes. A dupla só chegou a um acordo para resolver suas diferenças quando Moise vendeu para Joseph em 2006, após dois anos de negociações.

"Tratava-se simplesmente de ideias diferentes --irmãos que brigam porque querem coisas diferentes", disse Rodrigo Marcatti, executivo-chefe da Veedha Investimentos, que trabalhava com Safra na época. "Cada um queria ir numa direção diferente. O orgulho acaba falando mais alto. Se fossem dois profissionais dirigindo a companhia, eles teriam chegado a um consenso."

A família esteve no noticiário novamente em 2016, quando promotores brasileiros acusaram Safra de corrupção. Afirmou-se que ele sabia dos planos de subornar autoridades fiscais para que cancelassem a cobrança de grandes dívidas fiscais de suas companhias. Safra negou as acusações, que foram canceladas no mesmo ano.

Na Suíça, os interesses da família incluem J Safra Sarasin, um banco privado criado com a aquisição do Sarasin em 2011. Seus interesses internacionais incluem o Safra National Bank of New York e uma porcentagem de 50% da plantação de bananas Chiquita, adquirida em 2014.

Conhecido por sua filantropia e o amor às artes, o banqueiro tinha uma espaçosa mansão cercada por muros altos no bairro do Morumbi, em São Paulo, onde condomínios fechados se encostam a uma das maiores favelas da cidade.

"Se eu pudesse voltar no tempo, não teria construído uma casa tão grande", disse ele certa vez, acrescentando que se sentia culpado por viver em um palácio enquanto tantas famílias sofriam na pobreza.

Safra doou esculturas de Rodin a um museu de São Paulo, dinheiro para dois hospitais e para a construção de uma elegante sinagoga. A doação mais conhecida da família foi feita através da Fundação Jacob Safra, que deu o manuscrito original de Albert Einstein sobre a teoria da relatividade ao Museu de Israel em Jerusalém.

O banqueiro bilionário passou os últimos anos de sua vida na Suíça. A imprensa brasileira relatou que ele sofria de doença de Parkinson. Um de nove irmãos, Safra deixa sua mulher, Vicky, quatro filhos e 14 netos.

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