Brasil segura queda do PIB na pandemia, mas desemprego e dívida superam emergentes

Pacote anticrise foi o maior da América Latina, e falta de postos de trabalho e agravamento da crise fiscal preocupam

Brasília

O Brasil apresentou retração econômica menos forte do que pares emergentes durante a pandemia do novo coronavírus em 2020, principalmente por criar medidas como o auxílio emergencial para mais de 60 milhões de pessoas.

No entanto, o país aumentou de forma expressiva seu já elevado endividamento e deixou de tomar medidas permanentes como reformas para a revisão do Orçamento público enquanto vê problemas sociais como o desemprego avançarem.

Na comparação entre 14 países (sendo sete emergentes e sete desenvolvidos), o Brasil figura na quinta melhor posição quando o critério é previsão para o PIB (Produto Interno Bruto) em 2020. O Brasil fica atrás apenas de China, Rússia, Estados Unidos e Japão.

Paulo Guedes, à frente do ministério da Economia, executou programas para minimizar os impactos da pandemia
Paulo Guedes, à frente do ministério da Economia, executou programas para minimizar os impactos da pandemia - Pedro Ladeira - 16.dez.20/Folhapress

Os dados são do FMI (Fundo Monetário Internacional) e foram compilados pela FGV (Fundação Getulio Vargas) a pedido da Folha.

A posição no ranking de 2020 foi alcançada após uma emissão significativa de dívida para bancar as medidas anticrise, o que gerou o segundo maior pacote de estímulos fiscais da América Latina (11,1% do PIB), de acordo com o Banco Mundial.

Rafael Muñoz Moreno, economista-sênior do Banco Mundial e colunista da Folha, afirma que as medidas brasileiras foram fortes e abrangentes.

"A resposta contracíclica do Brasil foi bem grande. Foi um pacotão com várias características, incorporando transferências sociais, auxílio a empresas e ajuda para manter empregos", diz à Folha.

Outro ponto considerado positivo foi a real execução das medidas. Cerca de 40 dias após a confirmação do primeiro caso, o auxílio emergencial começou a ser creditado nas contas da população.

"Não são todos os países que conseguiram implementar [as medidas anunciadas], e estamos falando de milhões de brasileiros recebendo dinheiro em suas contas", diz.

Ele considera fundamental para a velocidade da implementação a existência de uma rede prévia de proteção social formada ao longo dos governos anteriores.

"O Brasil já tinha sistemas para isso. O fato de já ter o Cadastro Único [de recebedores de programas sociais], o fato de já ter um Bolsa Família, tudo isso fez com que o Brasil tivesse uma resposta mais rápida", diz.

Por outro lado, as medidas custaram R$ 620 bilhões e farão a dívida bruta do Brasil saltar de 75% para 91% do PIB. Em valores brutos, o valor já passa de R$ 4,7 trilhões.

Nos últimos meses, o Tesouro Nacional tem enfrentado juros mais caros e prazos de vencimento mais curtos diante de fatores como a maior percepção de risco dos investidores no longo prazo.

O significativo aumento da dívida não será exclusividade do Brasil. Países como México, Chile, Colômbia e Peru verão aumentos de mais de 10 pontos percentuais de suas obrigações em relação ao PIB.

A grande diferença entre o Brasil e seus pares na região, diz o Banco Mundial, é que o crescimento da dívida do país parte já de uma base muito alta, apenas com a Argentina tendo um nível parecido.

Por isso, Muñoz diz que o país deve entrar no segundo tempo do jogo e encarar mudanças estruturais para buscar o reequilíbrio das contas e crescer.

"Entramos em um momento em que temos que verbalizar as reformas, porque a urgência delas aumentou. Elas são mais necessárias que nunca", afirma.

Um dos principais objetivos é acelerar o crescimento para gerar postos de trabalho. A previsão dos dados do FMI colhidos pela FGV é que o desemprego no Brasil fique acima de 14% em 2021, o segundo maior entre todas as 15 economias analisadas (só não em situação pior que a África do Sul).

Pela metodologia do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desocupação já chegou a um recorde de 14,2% em novembro.

Marcel Balassiano, pesquisador da área de economia aplicada do FGV/IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), afirma que o país se comportou mal durante a pandemia.

Ele lembra de fatos como as trocas de ministros da Saúde em plena crise e a escalada nas infecções, que acabaram obrigando os gastos orçamentários.

A própria espera pela vacinação enquanto países desenvolvidos já imunizam suas populações arrisca a necessidade de mais medidas extraordinárias e atrasa a retomada do país, diz.

Apesar disso, Balassiano afirma que, mesmo sem a pandemia, a situação do Brasil não seria tão animadora, já que nos últimos dez anos a atividade cresceu 0,2% ao ano em média. "O coronavírus não é a raiz dos nossos problemas, ele os reforçou", afirma.

Para ele, acelerar o crescimento é ainda mais necessário depois da Covid-19 porque o país entrou na pandemia sem ter se recuperado totalmente das crises de 2015 e 2016.

"Precisamos recuperar as perdas dessa década. Por isso as reformas são tão importantes", diz. ​Entre as listadas pelos especialistas, estão as reformas administrativa, tributária e outras que estimulem a competitividade.

A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), por exemplo, defende que o governo melhore a eficiência de gastos, amplie a produtividade e aprimore políticas de capacitação profissional.

A Organização afirmou em relatório neste mês que um programa de reformas ambicioso para melhorar a regulamentação e a concorrência, reduzir as barreiras ao comércio exterior e reforçar as instituições e a governança econômica impulsionaria o crescimento do PIB per capita em 0,9 ponto percentual ao ano durante 15 anos.

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