Descrição de chapéu Financial Times

China reduz financiamento a outros países

Programa gerou críticas por pontos fracos como falta de transparência e de estudos de impacto social e ambiental sobre os projetos que financiava

Londres e Hong Kong | Financial Times

A China restringiu drasticamente os programas de empréstimos internacionais de seus dois maiores bancos de desenvolvimento, depois de quase uma década de crescimento ambicioso que, em seu pico, os levou a rivalizar com o Banco Mundial, apontam novas pesquisas.

Os empréstimos do Banco de Desenvolvimento da China e do Banco de Exportação-Importação da China despencaram de um pico de US$ 75 bilhões (R$ 381,5 bilhões) em 2016 para apenas US$ 4 bilhões (R$ 20,3 bilhões) no ano passado, de acordo com dados compilados por pesquisadores da Universidade de Boston e vistos pelo jornal britânico Financial Times.

O reposicionamento radical surge em um momento no qual Pequim está repensando sua Iniciativa Cinturão e Estrada (BRI, na sigla em inglês), o programa mais importante do líder chinês Xi Jinping, que financia e constrói estradas, ferrovias, portos e outras obras de infraestrutura, principalmente em países em desenvolvimento.

O líder chinês Xi Jinping no Congresso Nacional do Povo em Pequim - Nicolas Asfouri - 28.mai.2020/AFP

O programa BRI despertou críticas crescentes em todo o mundo por pontos fracos que incluíam empréstimos a países de baixa renda e com finanças débeis, e falta de transparência e de estudos de impacto social e ambiental sobre os projetos que financiava.

Kevin Gallagher, diretor do Centro Mundial de Política de Desenvolvimento da Universidade de Boston, que compilou os dados, disse que a guerra comercial entre Pequim e os Estados Unidos também influenciou a dramática virada.

“Em 2018 e 2019, havia muita incerteza por conta da guerra comercial com os Estados Unidos, e eles podem ter preferido manter seus ativos em dólares em casa”, ele disse.

De acordo com um relatório recente do instituto de pesquisa, Pequim agora percebe que essa abordagem quanto a empréstimos é insustentável.

“O velho... modelo, sob o qual os interesses de empresas chinesas e das elites locais tinham precedência sobre o bem do país beneficiário, que arca com proporção desproporcional do risco de fracasso do projeto, vai se tornar ainda mais insustentável diante da capacidade reduzida dos países para fazer dívidas e aceitar riscos”, aponta o relatório.

A China tem três bancos de desenvolvimento que financiam investimentos em infraestrutura no país e no exterior: os dois bancos cobertos pelo levantamento da Universidade de Boston e o Banco de Desenvolvimento Agrícola. Eles estão autorizados a fazer empréstimos internacionais em termos concessivos, mas em geral os realizam a taxas muito mais próximas das taxas comerciais de juros.

Os empréstimos do Banco de Desenvolvimento da China e do Banco de Exportação-Importação da China totalizaram US$ 462 bilhões (R$ 2,3 trilhões) entre 2008 e 2019, de acordo com os dados, que serão publicados na terça-feira (15) —muito pouco abaixo do total de US$ 467 bilhões (R$ 2,3 trilhões) emprestado pelo Banco Mundial a países de renda baixa e média no período.

Mas os padrões de governança deficientes que acostumam ser associados a empréstimos chineses para projetos da BRI contribuíram para uma série de escândalos e de queixas dos países devedores.

Em um exemplo recente, o Paquistão —um dos maiores recipientes de empréstimos BRI— afirmou que companhias chinesas inflaram em bilhões de dólares os custos de projetos de energia. O país busca renegociar o pagamento dos empréstimos. Islamabad acusou empresas de energia chinesas e locais de “práticas indevidas” e de exagerar custos. Diversos projetos de alto custo na Malásia também se afundaram em controvérsias.

Yu Jie, pesquisadora sênior para assuntos chineses no instituto britânico de pesquisa Chatham House, disse que empresas e bancos estatais chineses estavam deslocando recursos para projetos nacionais, e não externos. As políticas econômicas de Pequim mudaram nos últimos anos, da ênfase em crescimento puxado pela exportação para o investimento e consumo internos.

“Haverá critérios muito mais severos quanto à viabilidade comercial dos projetos”, disse Yu. “No passado, o ponto era usar recursos financeiros a fim de expandir a influência política da China. Agora os ganhos comerciais terão prioridade”.

Ela acrescentou que “a China sofreu danos de reputação... enormes” com a BRI. “A natureza expansiva do programa alarmou o restante do mundo e o governo não foi capaz de desenvolver um plano transparente e de explicar sua diplomacia quanto às dívidas”.

A opinião pública da China também se voltou contra os empréstimos externos, ela disse, porque as autoridades e o público perceberam que o país precisa investir mais nos serviços de saúde, que foram colocados em xeque pela pandemia do coronavírus.

Os empréstimos da China se concentraram em um número relativamente pequeno de países, com 10 destinatários recebendo 60% do montante total, de acordo com a pesquisa da Universidade de Boston.

Empréstimos à Venezuela, o maior beneficiário, responderam por 12,5% do total, com Paquistão, Rússia e Angola ocupando as três próximas posições da lista. Os projetos financiados se concentravam predominantemente na área de transportes e outros projetos de infraestrutura, mineração e extração de petróleo, incluindo oleodutos, e geração e transmissão de energia.

Dos 858 empréstimos identificados pelos pesquisadores de Boston,124 eram para projetos em áreas nacionalmente protegidas, 261 para projetos em habitats críticos, e 133 para projetos em territórios de povos indígenas.

Tradução de Paulo Migliacci

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