Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Esqueça as guerras do streaming: a pandemia de 2020 beneficiou tanto a Netflix quanto suas rivais

Do Hulu à Disney+, os grandes serviços de streaming devem fechar o ano com um avanço de 50% em seu número de assinantes nos Estados Unidos

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The Wall Street Journal

Os 12 meses que se encerram em dezembro haviam sido descritos como o ano em que um dilúvio de novos concorrentes forçaria os serviços de streaming a travar uma guerra irrefreável por novos assinantes. Em lugar disso, tanto as empresas estabelecidas do setor quanto as novatas puderam desfrutar de uma base de clientes presos em casa por conta da pandemia e ávidos por mais coisas para assistir.

Os maiores serviços de streaming devem fechar o ano de 2020 com um número combinado de assinantes nos Estados Unidos mais de 50% superior ao registrado um ano atrás, de acordo com uma análise conduzida pelo The Wall Street Journal sobre dados das empresas de pesquisa de mercado MoffettNathanson e HarrisX.

Eles desfrutaram de uma audiência cativa. A pandemia do coronavírus resultou em lockdowns que mantiveram dezenas de milhões de americanos em casa, dando a muita gente mais tempo para assistir a filmes e programas de TV, de seus sofás. O vírus também conduziu a um fechamento das salas de cinema e forçou as ligas de esportes profissionais a paralisar suas atividades por meses, o que amplificou ainda mais os atrativos dos serviços de streaming.

“Em lugar de uma guerra no streaming, o que encontramos foi uma coexistência no streaming, e crescimento paralelo”, disse Dritan Nesho, presidente-executivo da HarrisX. Serviços novos de streaming como o Disney+, da Walt Disney Co., cresceram rapidamente sem que isso significasse necessariamente uma perda de clientes para concorrentes estabelecidos como a Netflix e o Hulu, ele afirmou.

“O Disney+ não deslocou os serviços já estabelecidos”, disse Nesho. “E sim os complementou”.

Pandemia de 2020 beneficiou tanto a Netflix quanto suas rivais - Mike Blake- 18.jan.17/Reuters

O Disney+ é apenas uma das muitas plataformas de streaming que não existiam pouco mais de um ano atrás. O serviço foi lançado em novembro de 2019, alguns dias depois de a Apple lançar o Apple TV+. Dois outros grandes ingressantes nesse segmento, a HBO Max, da AT&T, e o Peacock, da Comcast, entraram em operação nos últimos meses.

Cerca de um ano atrás, os americanos entrevistados para uma pesquisa do The Wall Street Journal e do Harris Poll afirmaram que estavam dispostos a assinar em média 3,6 serviços de streaming – e cerca de 30% das pessoas que já eram assinantes da Netflix afirmaram que era provável que cancelassem suas assinaturas da companhia a fim de abrir espaço para novos serviços de streaming.

Na verdade, as novas plataformas de streaming não impediram que a Netflix e outras empresas do segmento continuassem a conquistar novos assinantes em ritmo bastante saudável. O crescimento delas surgiu em um momento no qual os provedores tradicionais de serviços de TV paga continuam a perder assinantes. As operadoras de TV a cabo e de TV via satélite perderam mais de um milhão de clientes de TV paga por trimestre, da metade de 2018 para cá, uma tendência que os analistas antecipam que se manterá.

Os domicílios dos Estados Unidos agora assinam em média 3,1 serviços de streaming, em média – ante uma média de 2,7 no ano passado, de acordo com o grupo de pesquisa de mídia Kagan, parte da S&P Global Market Intelligence. Cerca de três quartos dos domicílios dos Estados Unidos assinam pelo menos um serviço de streaming de televisão, de acordo com dados da MoffettNathanson.

“No momento, a maré alta está beneficiando a todos”, disse Michael Nathanson, um analista da empresa de pesquisa.

O único serviço novo de streaming a tropeçar logo na largada foi o Quibi, fechado em outubro depois de apenas seis meses de operações. O serviço foi concebido para pessoas que consomem entretenimento em porções pequenas, em seus smartphones, mas a pandemia limitou o tipo de situação de consumo móvel de mídia que o Quibi antecipava para seus usuários potenciais.

Nathanson disse que muitos serviços menos conhecidos podem enfrentar dificuldades para continuar conquistando assinantes novos em ritmo semelhante, depois que a pandemia acabar, e quando os consumidores americanos começarem a gastar mais dinheiro em restaurantes, viagens e outras despesas fora de casa. Ele disse que uma volta ao normal dificilmente afetaria a Netflix, que, segundo ele, “vive em sua própria estratosfera”.

Uma análise do tráfego de web nos Estados Unidos mostra que o uso da Netflix disparou nos dias iniciais da pandemia, em escala muito maior do que a registrada pelos rivais da companhia, e continua significativamente superior ao patamar que ocupava antes da pandemia.

A disparidade entre o uso da Netflix nos finais de semana e nos dias de semana também encolheu, porque os consumidores ilhados em casa passaram a ter mais oportunidades de consumir conteúdo nos dias de semana, disse Craig Labovitz, vice-presidente de tecnologia da Nokia Deepfield, a unidade de análise de redes da fabricante finlandesa de equipamentos de telecomunicação.

O domínio bruto exercido pela Netflix durante o período da pandemia pode ser explicado pelo seu grande acervo e pela sua oferta continuada de conteúdo original, enquanto muitos de seus rivais tiveram de enfrentar atrasos de produção causados pela pandemia que os forçaram a adiar o lançamento de programas de prestígio com os quais contavam para atrair novos assinantes.

A Netflix não faz segredo sobre sua estratégia para manter o público usuário do streaming: mais séries e mais filmes originais, em grande quantidade. O dinheiro investindo em novas séries e filmes como “Tiger King” e “O Irlandês” a ajudou manter os assinantes colados aos seus televisores, enquanto outras companhias de mídia começam a recolher para suas redes conteúdo anteriormente licenciado para a Netflix – pense em seriados como “Friends” e “The Office”.

O número mais baixo de séries produzidas originalmente para serviços de streaming como o Disney+ e o HBO Max representa uma fração modesta do imenso acervo de títulos populares que as companhias controladoras dos dois grupos produziram nos últimos anos. Elas estão começando a dar prioridade na exibição aos seus serviços online. A Disney informou aos investidores que exibiria 80% dos 100 títulos que lança a cada ano no Disney+, e a WarnerMedia, que controla o HBO Max, chocou Hollywood ao anunciar no começo de dezembro que, em 2021, planeja lançar todos os seus filmes online na mesma data em que estrearão nas salas de cinema.

De julho para cá, a Netflix dominou a lista de 10 programas mais assistidos nos serviços de streaming compilada pela Nielsen, com uma mistura de conteúdo licenciado como “The Office” e séries originais como “The Queen’s Gambit”. “The Mandalorian”, da Disney+, e “The Boys”, da Amazon, estão entre os raros programas de outras companhias que conseguiram vaga entre os 10 mais assistidos do ranking.

“Não creio que a Netflix tenha sido a única a investir em uma linha de produção decente”, disse Neil Begley, analista da empresa de classificação de crédito Moody’s Investors Service. “Mas quando 2021 chegar, essa linha de produção já não parecerá tão ampla”.

A Netflix terá de se despedir de “The Office” em janeiro; a série passará a ser exibida pelo Peacock, o serviço de streaming desenvolvido pela NBCUniversal, controlada pela Comcast, cujos executivos vêm alardeando o retorno da série de humor ao seu lar desde que o serviço foi lançado, em julho.

Cerca de 60% dos domicílios dos Estados Unidos usam a Netflix, hoje, de acordo com o grupo de pesquisa Parks Associates, e a companhia continua a manter liderança considerável sobre a maioria de seus rivais – ainda que alguns dos novos ingressantes venham ganhando terreno rapidamente.

Alguns desses avanços certamente se provarão temporários. Muitos serviços de streaming viram um salto em suas assinaturas em parte porque ofereceram promoções que proviam acesso grátis por até um ano.

Clientes da Verizon Communications, por exemplo, receberam um ano de assinatura gratuita do Disney+. A AT&T ofereceu a HBO Max gratuitamente para teste a muitos assinantes, e formou pacotes que incluíam o serviço em seus planos de acesso sem fio e de banda larga.

De forma semelhante, os clientes de serviços de banda larga e de TV paga da Comcast, a controladora da NBCUniversal, receberam acesso grátis ao segmento “premium” da Peacock, que veicula publicidade. A empresa não revela que proporção de seus assinantes novos se origina da base de clientes da Comcast.

Enquanto isso, a Apple TV+ está disponível gratuitamente por até um ano para qualquer pessoa que compre um aparelho da Apple.

Uma pesquisa recente da MoffettNathanson mostrou que os assinantes de serviços estabelecidos como a Netflix, Amazon Prime Video e Hulu se dispunham mais a pagar por suas assinaturas do que os dos novos concorrentes no mercado. (Os membros do programa de benefícios Amazon Prime recebem o Prime Video como parte de seu pacote.)

Nesho, o presidente-executivo da HarrisX, disse que sua empresa antecipa que o número de assinantes da Apple TV+ caia no quarto trimestre deste ano quando a primeira leva de assinaturas gratuitas expira – ainda que ele tenha afirmado que muitos desses usuários devem adquirir iPhones e outros produtos da Apple nos próximos 12 meses, o que compensaria parte dessas deserções.

Tradução de Paulo Migliacci

WSJ

Conteúdo licenciado pelo Wall Street Journal para publicação na Folha de S.Paulo, a responsável pela tradução para o português.

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