Descrição de chapéu The Wall Street Journal

EUA discutem acordo com filha do fundador da Huawei, presa há dois anos no Canadá

Departamento da Justiça tenta arranjo que permitiria que vice-presidente financeira da empresa retornasse à China em troca admitir delitos

Nova York | The Wall Street Journal

O Departamento da Justiça dos Estados Unidos está discutindo um acordo com Meng Wanzhou, a vice-presidente de finanças da Huawei, que permitiria seu retorno do Canadá para a China em troca da admissão de que cometeu delitos, em um processo criminal que causou desgaste no relacionamento entre Pequim e os Estados Unidos e Canadá, segundo fontes do jornal The Wall Street Journal.

Os advogados de Meng, que enfrenta acusações de fraude bancária e telegráfica relacionadas a supostas violações das sanções dos Estados Unidos contra o Irã, em benefício da Huawei, conversaram com representantes do Departamento da Justiça nas últimas semanas sobre a possibilidade de chegar a um “acordo de postergação de processo”, disseram as fontes.

Meng Wanzhou, diretora financeira da chinesa Huawei, completou em 1º de dezembro dois anos em prisão no Canadá, a pedido dos EUA - Don MacKinnon - 27.out.2020/AFP

Nos termos de um acordo como esse, que procuradores públicos empregam com relação a empresas mas raramente para pessoas físicas, Meng seria obrigada a admitir a veracidade de algumas das acusações contra ela, mas a procuradoria concordaria em postergar e mais tarde abandonar as acusações se ela cooperasse, disseram as fontes.

Meng até agora vem resistindo ao acordo proposto, por acreditar não ter feito qualquer coisa de errado, disseram algumas das fontes. Ela se recusou a comentar, por meio de um porta-voz da Huawei. Um porta-voz do Departamento da Justiça se recusou a comentar. Um porta-voz do Ministério do Exterior canadense também se recusou a comentar.

Detida dois anos atrás quando estava fazendo um trasbordo em Vancouver, Meng está confinada à cidade, onde tem uma casa. Ela vem lutando contra a extradição para os Estados Unidos –um processo que permite múltiplos recursos e pode demorar anos para ser resolvido– e sua situação exemplifica, para muita gente na China, o esforço de Washington para bloquear a ascensão mundial do país.

Um acordo não só permitiria que ela voltasse à China como removeria uma questão que causou grave deterioração no relacionamento entre Pequim e Ottawa e agravou os estragos no relacionamento entre o país e Washington. Um acordo também poderia abrir caminho para que a China liberte dois homens canadenses detidos no país pouco depois que Meng foi presa, um dos fatores que motiva as discussões em curso, disseram as fontes.

O governo Trump considera a Huawei como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos e afirma que as atividades de Meng em benefício do trabalho da empresa com o Irã são parte de um padrão de ações empresariais ilegais. A atitude dos Estados Unidos enraiveceu Pequim, que acusa Washington de discriminar a Huawei e apelou ao Canadá que liberte Meng.

Negociadores que representam Meng e o Departamento da Justiça voltarão a conversar esta semana, na esperança de chegar a um acordo antes do final do governo de Donald Trump, disseram algumas das fontes. Representantes da Huawei também parecem ter a esperança de que o governo do presidente eleito Joe Biden se prove mais leniente, disseram as fontes. Um porta-voz de Biden não respondeu a um pedido de comentário.

Os advogados de Meng e os representantes do Departamento da Justiça americano estão trabalhando para determinar se existem termos com os quais ambas as partes possam concordar, disseram duas das fontes. Meng recentemente rejeitou uma proposta de acordo porque não aceitou a maneira pela qual suas comunicações com algumas das instituições financeiras que trabalham com o grupo Huawei foram descritas, disse uma pessoa.

Meng é filha de Ren Zhengfei, fundador da Huawei, uma das maiores companhias chinesas e líder mundial no segmento de equipamentos para telecomunicações; os Estados Unidos acusam a empresa de envolvimento em roubo de tecnologia e afirmam que ela pode facilitar a espionagem por Pequim. A Huawei nega as acusações.

O fundador da Huawei, Ren Zhengfei, em Shenzhen, província de Guangdong, China - Aly Song - 17.jun.2019/Reuters

Meng argumentou que foi acusada injustamente e que o pedido de extradição tem motivos inapropriados, de ordem política, em um período no qual os Estados Unidos decidiram buscar uma posição de vantagem nas tensas relações comerciais e tecnológicas entre o país e a China.

Em um briefing regular a jornalistas nesta sexta-feira (4), Hua Chunying, porta-voz do Ministério do Exterior da China, não se referiu diretamente à possibilidade de negociações envolvendo o Departamento da Justiça, mas instou os Estados Unidos a abandonar seu pedido de extradição e pediu que o Canadá permita que Meng retorne à China.

O caso contra Meng tem por base acusações de que ela mentiu aos bancos da Huawei durante uma apresentação em 2013 sobre os elos comerciais entre a companha e o Irã. As instituições financeiras posteriormente liberaram centenas de milhões de dólares em transações que potencialmente violavam as sanções dos Estados Unidos contra o Irã.

Advogados de Meng declararam a um tribunal do Canadá em junho que os Estados Unidos haviam apresentado “declarações falsas e irresponsáveis” ao excluir parte da apresentação aos bancos na qual, segundo eles, os negócios da Huawei com o Irã eram mencionados.

Em maio, um juiz da província canadense da Columbia Britânica decidiu que os Estados Unidos haviam cumprido um requisito essencial para a solicitação de extradição, mas as audiências devem continuar este mês e ao longo do ano que vem. Meng está livre sob fiança, e precisa usar um monitor eletrônico de movimentos.

A detenção dela deu origem a um sério impasse diplomático que resultou na detenção de dois canadenses, entre os quais um diplomata em licença de seu posto; eles foram acusados de espionagem, alguns meses atrás.

O primeiro-ministro canadense Justin Trudeau declarou em junho que as detenções de Michael Kovrig e Michael Spavor eram inaceitáveis e “profundamente preocupantes, não só para os canadenses mas para as pessoas de todo o mundo que veem a China usar detenções arbitrárias para fins políticos”.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, em Ottawa, Canadá - Blair Gable - 19.nov.2020/Reuters

A família de Spavor não se pronunciou publicamente sobre a detenção dele, e a mulher de Kovrig declarou que ele é inocente.

Nas últimas semanas, o Global Times, um jornal operado pelo Partido Comunista chinês, identificou especificamente o caso de Meng como uma área sobre a qual Pequim espera uma mudança de postura da parte do novo governo Biden.

David Laufman, que trabalhou na área de segurança nacional do Departamento da Justiça dos Estados Unidos, disse que o caso era um processo muito importante para o departamento e que, embora os procuradores públicos possam estar ponderando os interesses geopolíticos em questão, ele não imagina que o departamento venha a abandonar o caso na gestão Biden.

“Seria excepcional que o Departamento da Justiça deixe de lado um processo criminal. Mas existem momentos em que os interesses da lei e da justiça precisam dar lugar aos interesses mais amplos de política externa dos Estados Unidos”, disse Laufman, que agora advoga no setor privado, no escritório Wiggin and Dana, em referência às negociações que estão acontecendo ainda no governo Trump. “Dado o impacto do processo contra Meng sobre o Canadá, bem como sobre o relacionamento entre a China e os Estados Unidos, pode ser que o caso em questão seja um desses”.

Embora um acordo que venha na prática a libertar Meng provavelmente deva resultar em uma redução das tensões entre os governos, o episódio contribuiu para uma deterioração na opinião dos canadenses sobre a China, de acordo com pesquisas de opinião pública, em boa medida por conta da detenção dois dois canadenses.

A China nega ferozmente qualquer conexão entre a detenção de Meng e as de Kovrig e Spavor, que ocorreram com intervalo de poucas horas em duas cidades chinesas diferentes, nove dias depois da prisão de Meng no Canadá. Diplomatas chineses deram a entender, no entanto, que uma solução para o caso de Meng ajudaria a garantir a libertação dos dois homens.

As negociações para libertar Meng condicionalmente começaram meses antes da eleição presidencial americana de novembro, ainda que tenham se tornado mais urgentes nas últimas semanas, à medida que o governo Trump se aproxima do fim.

A perseguição do Departamento da Justiça à Huawei é parte de um esforço mais amplo do governo Trump contra a companhia de tecnologia. Os Estados Unidos afirmam que a Huawei poderia ser coagida pelo governo de Pequim a usar seu equipamento para espionar, ou desordenar, redes de comunicação estrangeiras, o que a companhia nega.

Procuradores públicos americanos revelaram alguns meses atrás novas acusações contra a empresa e duas de suas subsidiárias nos Estados Unidos, por conspiração para cometer crimes e conspiração para roubar segredos comerciais. Sanções impostas pelos Estados Unidos limitaram a capacidade da empresa para obter chips cruciais para seus produtos e encorajaram outros países a rejeitar seus equipamentos para as novas redes de comunicações móveis 5G.

Na quarta-feira (2), William Evanina, o principal comandante das operações de segurança dos Estados Unidos contra espionagem, declarou na conferência Aspen Cyber Summit que o indiciamento contra a Huawei havia sido especialmente útil para persuadir os aliados europeus dos Estados Unidos a levar em conta as preocupações americanas sobre a gigante da tecnologia.

Jacquie McNish , Aruna Viswanatha , Jonathan Cheng e Dan Strumpf

Tradução de Paulo Migliacci

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