Descrição de chapéu Obituário Joseph Safra (1938 - 2020)

Joseph Safra se tornou o homem mais rico do Brasil e símbolo da era dos grandes banqueiros

Ágil e conservador, empresário sabia que o êxito dos negócios dependia da confiança nele depositada

Oscar Pilagallo
São Paulo

Discreto por natureza e por exigência da atividade profissional, o banqueiro Joseph Safra nunca alardeou ter se tornado o homem mais rico do Brasil, ao contrário de alguns de seus pares que disputam os rankings das grandes fortunas.

O empresário de origem libanesa amealhou patrimônio de US$ 23,3 bilhões, cerca de R$ 119 bilhões, ao longo de seus 82 anos de vida, ultrapassando a marca de Jorge Paulo Lemann, de acordo com a lista dos bilionários da Forbes. Joseph Safra morreu nesta quinta-feira (10), em São Paulo. Segundo comunicado enviado pelo banco Safra, de causas naturais.

Sua notória discrição foi posta à prova durante um dos desdobramentos da crise econômica mundial iniciada em 2008, quando ele ocupou a contragosto o noticiário. Na época, o banco Safra tinha US$ 300 milhões de clientes aplicados com o norte-americano Bernard Madoff, conhecido por não ter honrado seus compromissos depois que desabou seu esquema ilegal de pirâmide financeira.

A crise não afetou Safra. Ao contrário, o empresário dobrou o patrimônio pessoal, em relação a 2007, para cerca de US$ 16 bilhões. O problema era a imagem da instituição, algo central na atividade banqueira.

Preocupado que tivesse sido arranhada, Safra, então com 70 anos, suspendeu o processo de sucessão e retomou o comando do banco.

Passada a tempestade, o empresário transferiu o bastão aos filhos: Jacob, o primogênito, cuida dos negócios da família no exterior; Alberto ficou com o banco comercial; e o caçula David administra o banco de investimentos.

O episódio mostra o estilo centralizador de um empresário que tinha certeza de que o êxito dos negócios dependia da confiança nele depositada. Com a sucessão cuidadosamente planejada, ele acreditava ter transmitido tal reputação à terceira geração de banqueiros da família.

Nascido no Líbano, em 1938, Safra chegou ao Brasil em meados dos anos 50. Em 1957, a família judaica criou o banco no país, dando continuidade ao ramo a que se dedicava desde 1920, quando Jacob, o patriarca, fundou em Beirute sua primeira instituição financeira.

Com perfil ágil e conservador, o Safra cresceu até se tornar um dos dez maiores bancos brasileiros, com Joseph à frente da operação. Nesse papel, foi um dos expoentes de uma geração de banqueiros que deu projeção ao setor financeiro nacional e inclui ainda empresários como Walther Moreira Salles, do Unibanco, Olavo Setúbal, do Itaú, e Lázaro de Mello Brandão, do Bradesco.

Com essa geração e seu legado, os bancos do país enfrentaram a hiperinflação dos anos 1980, investiram em informatização de sistemas, se fortaleceram durante a era das fusões que marcou os anos 1990 e buscaram a internacionalização.

Depois da morte de seu irmão mais velho, Edmond, num incêndio em seu apartamento em Mônaco, em 1999, Joseph disputou com outro irmão, Moise, o controle do banco. O processo, desgastante para as relações familiares, terminou em 2006, quando Joseph comprou a parte do irmão por estimados R$ 5 bilhões.

Mais conhecido como “seu José”, Safra vivia num bunker no Morumbi, cercado por obras de arte. Até recentemente, antes da pandemia, ia diariamente de helicóptero para a sede do banco, na avenida Paulista. Costumava almoçar com os executivos da instituição, no restaurante da empresa, que tem cardápio kosher, preparado segundo as tradições judaicas.

Mesmo sofrendo do mal de Parkinson, não deixava de fazer exercícios físicos e gostava de nadar. Dos lazeres, um dos preferidos, no período pré-confinamento, era assistir aos jogos do seu Corinthians, inclusive nos estádios, aonde ia com os netos e cercado de seguranças, em geral ex-agentes da Mossad, o serviço secreto de Israel.

Considerado bom negociador e dominando várias línguas, como inglês, francês, espanhol, árabe e hebraico, Safra, depois de “aposentado”, dedicou-se, em 2011, a uma última grande aventura empresarial: a compra do Sarasin, o prestigiado “private banking” do holandês Rabobank, que ampliou sua projeção internacional.

Uma nota do banco lembrou que Joseph Safra “sempre dizia ter muito orgulho da cidadania brasileira e de torcer pelo Corinthians”. Diz ainda o texto: “Ao longo da vida foi um amante das artes e um grande filantropo, sempre empenhado em manter a tradição de devoção a causas dignas, uma marca distintiva dele. Ajudou muitas pessoas e apoiou inúmeras causas sociais, religiosas e culturais, tais como a construção e reforma de hospitais, creches, museus e templos religiosos de todas as fés”.

Com efeito, Safra foi um dos maiores doadores dos hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês. Entre outras ações, também doou esculturas de Rodin para a Pinacoteca de São Paulo e o manuscrito original da Teoria da Relatividade, de Einstein, ao Museu de Israel em Jerusalém.

Joseph deixa a viúva Vicky Sarfaty, com quem era casado desde 1969, os três filhos, a filha Esther Safra Dayan, diretora da escola Beit Yaacov, e 14 netos.

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