Mulheres são 38% dos concluintes de doutorado, mas apenas 20% dos docentes titulares em Economia

Inexistentes até pouco tempo atrás no Brasil, dados são conhecidos graças a iniciativa de professoras da USP

São Paulo

O problema da baixa diversidade na Economia não é uma exclusividade do Brasil. A diferença é que a preocupação com o tema em países como os Estados Unidos é bem mais antiga do que aqui.

A principal associação norte-americana de economistas (American Economic Association) criou um comitê com foco em minorias raciais na profissão em 1968 e outro voltado para o progresso de mulheres na área em 1971.

Além de compilar dados sobre a representatividade dos grupos e monitorar sua evolução, a entidade apoia pesquisas sobre o tema e medidas que possam aumentar a inclusão.

Quando a Folha fez uma reportagem que ressaltou a baixa diversidade de gênero nos principais departamentos de Economia, em 2015, não havia dados consolidados para o Brasil que pudessem ser citados.

No caso do recorte por gênero, esse cenário começou a mudar quando um grupo de professoras da USP formou, no fim de 2017, o grupo EconomistAs (Brazilian Women in Economics).

“O fato de termos na FEA [Faculdade de Economia e Administração] um pouquinho mais de representatividade feminina foi um incentivo para começarmos esse projeto”, diz Fabiana Rocha, uma das coordenadoras do grupo.

As pesquisadoras já produziram dois relatórios anuais que mapeiam a presença feminina nos departamentos de Economia. Os dados levantados confirmam que, além de baixa na largada, a diversidade de gênero diminui ao longo da carreira acadêmica.

Em 2018, as mulheres representaram 38% dos concluintes tanto dos cursos de graduação quanto de mestrado e doutorado em Economia brasileiros. No caso dos dois primeiros, o número representou um pequeno avanço em relação a 2017.

Mas, nas três situações, a parcela feminina cai significativamente quando são considerados apenas os departamentos com nota máxima na avaliação da Capes (braço do Ministério da Educação). Nos centros com conceitos 6 e 7 —os mais altos possíveis— as mulheres foram 23% dos concluintes do mestrado em 2018.

Na docência, a baixa diversidade também prevalece.

As mulheres são 37,7% dos professores assistentes –título mais típico de início de carreira na trajetória acadêmica– nos 33 departamentos que participaram da pesquisa.

Essa fatia cai para 20,8% no caso de docentes titulares, o degrau mais elevado na escala. E, se considerados apenas os centros mais bem avaliados, parcela cai ainda mais, para 16,3%.

Não existe no país um levantamento como o feito pelas EconomistAs com foco em raça.

“Acho que vamos acabar partindo para essa análise também. Outro dia uma aluna veio nos cobrar isso”, diz Rocha.

Segundo especialistas, as causas que afastam mulheres e negros da academia econômica não são, necessariamente, os mesmos.

“No Brasil, a questão da raça é muito correlacionada ao status socioeconômico. Tem muita gente na graduação que precisa trabalhar cedo para complementar renda e isso faz com que esses talentos não tenham tempo para se dedicar a algo mais acadêmico”, diz Claudio Ferraz.

Quanto ao gênero, pesquisas mostram que há uma série de fatores que inibem o interesse feminino pela área. A percepção da agressividade no ambiente econômico é um desses desincentivos.

“Os programas de mentoria são importantes pois ajudam a diminuir essa percepção, desde que sejam acompanhados por um esforço para mudar a cultura na área”, afirma Braz Camargo.

Aumentar o foco das graduações em temas que interessam mais às mulheres –como economia do trabalho, educação e saúde– também é um caminho citado como importante.

“Os temas macroeconômicos tratados na graduação –como juros e inflação– interessam menos as mulheres”, diz Ferraz.

Esse diagnóstico, comprovado por pesquisas internacionais, também foi confirmado no Brasil por um estudo feito pelo grupo EconomistAs a partir de uma análise dos trabalhos apresentados por acadêmicas da área em seminários.

Rocha, da USP, ressalta que, no caso brasileiro, também é necessário investigar a razão pela qual as mulheres não se saem tão bem quanto os homens na prova da Anpec.

“Uma hipótese que pode ser testada é que exista algo ligado à natureza da prova, que parece favorecer, por exemplo, quem tem menor aversão ao risco”, diz a economista.

A existência de discriminação no ambiente acadêmico é outro fator que, segundo especialistas, merece mais investigação.

Internacionalmente, há evidências de que as mulheres são menos beneficiadas –em termos de progressão na carreira– pela coautoria em artigos publicados em periódicos reputados do que os homens.

Estudos também mostram que, mesmo descontados a qualidade da educação recebida, a produtividade na profissão e a chamada “penalidade pela maternidade”, as mulheres enfrentam maior dificuldade do que os homens para atingir a estabilidade na docência em Economia (conhecida pela palavra em inglês tenure).

Ao contrário do que ocorre na Economia, nos Estados Unidos, em áreas como Geociências, Engenharia, Matemática e Ciências da Computação, esse hiato já foi eliminado.

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