Projeto do submarino nuclear atrasa e estaleiro tenta evitar desmobilização

Governo e empresa buscam negócios para ocupar instalação após entrega de última embarcação convencional, em 2022

Rio de Janeiro

Prestes a lançar ao mar seu segundo submarino, o estaleiro ICN (Itaguaí Construções Navais) busca alternativas para evitar desmobilização após o fim de 2022, quando deve concluir as obras da última das quatro embarcações da primeira série contratada pela Marinha.

O estaleiro, uma parceria entre a própria Marinha, a Odebrecht e a francesa Naval Group, foi construído para tocar o Prosub, programa de desenvolvimento do submarino nuclear brasileiro fruto de acordo estratégico entre Brasil e França assinado em 2008.

O ambicioso projeto, porém, vem sofrendo atrasos em seu cronograma por restrições orçamentárias, o que resultará em um hiato entre o fim da primeira fase, que contempla a construção de quatro submarinos com propulsão diesel-elétrica, e a segunda, que prevê a construção de um submarino a propulsão nuclear.

O ICN já lançou ao mar em 2018 o primeiro submarino convencional, batizado de Riachuelo, que atualmente passa por testes e deve ser entregue definitivamente à Marinha em julho de 2021. No próximo dia 11, lança ao mar a segunda embarcação da série, batizada de Humaitá.

O lançamento ao mar é a etapa em que uma embarcação é retirada do estaleiro para acabamento e testes no mar. A previsão da Marinha é que o último dos quatro submarinos convencionais atinja essa etapa em dezembro de 2022.

Pelo planejamento original, o primeiro submarino a propulsão nuclear brasileiro entraria em obras em seguida, mas a Marinha já admite que o prazo dificilmente será cumprido. Cronograma apresentado a jornalistas nesta quarta indica que apenas o projeto básico está concluído.

Compras de componentes e equipamentos seriam iniciadas entre 2021 e 2022 e o detalhamento será iniciado em 2022. O cronograma fala em início da construção em 2023 e entrega em 2033, nove anos após a previsão original.

A avaliação é que dificilmente as obras estarão mobilizando grandes contingentes do pessoal que foi qualificado pela empresa após a conclusão do último submarino a diesel. "Esse pessoal é altamente qualificado e certamente encontraria colocação no mercado.

Mas o ideal seria mantê-los aqui", diz o contra-almirante André Martins, que guiou visita da imprensa pelo estaleiro nesta quarta (2). Em 2018, Odebrecht e Naval Group concorreram, sem sucesso, em licitação para a construção de fragatas para a Marinha. Em 2019, ao comemorar dez anos do projeto, a ICN propôs alterar seu estatuto para incluir atuação também na construção de "embarcações de superfície" (navios).

Em paralelo, as Forças Armadas criaram grupos de trabalho para analisar alternativas, disse Martins, sem maiores detalhes. A Marinha não tem participação acionária na ICN, mas é dona de uma "golden share", que lhe garante veto em algumas decisões.A busca por clientes no mercado internacional seria uma das opções em estudo, em um conceito batizado de "Embraer dos mares", em referência à fabricante de aviões que fez do Brasil um dos principais exportadores de jatos executivos.Elaborado no governo Lula, o projeto de implantação da ICN foi apoiado em um desejo de montar uma frota naval para proteger a chamada Amazônia Azul, conceito criado pelos militares para identificar as riquezas submarinas brasileiras, como o petróleo do pré-sal.

Foi orçado inicialmente em R$ 17 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões corrigidos pelo IPCA), em gastos que incluem o estaleiro, uma fábrica de estrutura metálica e uma base para a operação dos submarinos. A Marinha não respondeu quanto já foi investido e quanto ainda falta.A situação do ICN repete problema vivido pela indústria de construção naval criada nos governos petistas para atender a demanda do setor de petróleo.

​Com a reversão das políticas de conteúdo local, estaleiros como o Rio Grande, no Rio Grande do Sul, e Atlântico Sul, em Pernambuco, já chegaram a interromper atividades e hoje buscam soluções para sobreviver.

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