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Reação veloz do PIB não elimina preocupação com sua sustentabilidade

Expansão do PIB no terceiro trimestre traz evidências da veloz recomposição da atividade econômica

Thiago Xavier

Economista da Tendências Consultoria Integrada

Alessandra Ribeiro

Economista e diretora da Tendências Consultoria Integrada.

A expansão de 7,7% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre de 2020 em relação ao trimestre anterior, com ajuste sazonal —após redução de 10,9% no segundo trimestre— , traz novas evidências acerca da veloz recomposição do nível de atividade econômica, após os severos efeitos registrados no auge da paralisação em função da pandemia. Em termos anuais, o incremento de dinamismo é sinalizado pela atenuação das perdas, de -10,9% para -3,9%, no atual período.

Embora a velocidade de retomada surpreenda em relação ao projetado no início da pandemia, o resultado reforça o diagnóstico acerca do caráter desigual da recuperação entre setores, o que sinaliza uma retomada ainda passível de incertezas, já que segue sensível a aspectos de ordem econômica, política e sanitária.

No cenário básico, espera-se menor ritmo de expansão nos próximos trimestres, diante do quadro de redução do arsenal anticíclico de combate à pandemia, em um contexto de reação tardia do mercado de trabalho e inflação relativamente pressionada, além da persistência do medo da pandemia como fonte de incerteza e limitação à demanda agregada. Nesse cenário, as projeções anuais são da ordem de —4,5% e 2,9% para 2020 e 2021, respectivamente.

Pela ótica da oferta, houve expansão disseminada dos setores, embora contraste a recomposição das perdas entre Indústria e Serviços, com altas de 14,8% e 6,3% (sucedendo quedas de 13,0% e 9,4%, respectivamente). A exceção é agropecuária que variou -0,5% (embora o setor tenha sido menos afetado pela pandemia, como indicado pela alta de 2,5% no 2º Tri.).

Entre subsetores industriais, na série ajustada, os destaques foram as variações de 23,7% da Transformação e 5,6% da Construção civil (após recuarem 19,1% e 8,1%, mantida a ordem).

As dinâmicas foram beneficiadas pelas políticas de sustentação da demanda familiar (como Auxílio Emergencial, recomposição de salários via BEm e adiantamento de 13º e FGTS), cujos efeitos não se restringiram a bens essenciais, mas também favoreceram outros como eletrodomésticos e insumos da construção. A política monetária expansionista, aliada a mudanças legais recentes e à atuação de bancos públicos, elevou o grau de liquidez, o que é sinalizado pelo setor imobiliário (e que retroalimenta a reação da construção).

Quanto a serviços, os dados revelam efeitos desproporcionais da crise para a demanda familiar de serviços em comparação ao impacto em bens. O contexto de isolamento social (que propiciou efeito substituição de parte do consumo de serviços por bens), combinado às políticas de sustentação da renda familiar, foi especialmente favorável ao comércio, com alta de 15,9% (ante -13,7%). Por outro lado, seguiram fragilizados serviços não essenciais e presenciais, como sinalizado pela alta de 7,8% da categoria “Outros” (ante a queda de 16,9%).

Pela ótica da demanda, em conformidade com o quadro apresentado, destaca-se a FBCF, cuja alta de 11,0% (ante -16,5%), em termos ajustados, foi favorecida, sobretudo, pela construção civil. Vale notar que, diferente do padrão de crises anteriores, as perdas da FBCF foram mais alinhadas ao PIB total, sinalizando menor destruição de capital. Por fim, o PIB das famílias apresentou reação mais limitada, alta 7,6% (sucedendo -11,6%), limitada pela demanda de serviços familiares.

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