Descrição de chapéu The New York Times

Trump vê pacote econômico de US$ 900 bi como 'desgraça' e ameaça não sancionar

Presidente pede que Congresso dos EUA aumente auxílio de US$ 600 para US$ 2.000

Washington | The New York Times

O presidente Donald Trump ameaçou na terça-feira (22) tirar dos trilhos meses de negociações bipartidárias no Congresso para prover US$ 900 bilhões (R$ 4,6 trilhões) em assistência contra o coronavírus a um país abalado pela pandemia, exigindo que os cidadãos americanos recebam cheques de valor mais de três vezes o proposto no pacote, que ele definiu como “uma desgraça”.

O presidente, que vem se ocupando apenas de acusações infundadas de fraude na eleição em que foi derrotado, concentrou suas críticas na decisão dos líderes do Congresso de aprovar o pacote de assistência em combinação com um programa mais amplo de gastos que financia as operações do governo e das forças armadas. O plano inclui cláusulas de rotina como assistência internacional e verbas para instituições de Washington como o Centro Kennedy de Artes Cênicas e a Smithsonian Institution.

Mas Trump retratou esses itens de gastos como acréscimos “perdulários e desnecessários” à legislação sobre o coronavírus.

“O nome da medida é lei de assistência contra a Covid, mas ela tem quase nada a ver com a Covid”, declarou Trump em um vídeo no Twitter. “O Congresso encontrou dinheiro de sobra para outros países, lobistas e interesses especiais, e destinou o estrito mínimo ao povo americano”.

“Estou solicitando que o Congresso emende essa medida e eleve os ridiculamente baixos US$ 600 para US$ 2.000”, ele acrescentou.

A presidente da Câmara dos Deputados, a democrata Nancy Pelosi, da Califórnia, que vinha pressionando por assistência de valor semelhante ao proposto pelo presidente, recebeu positivamente a intervenção de Trump.

“Os republicanos se recusaram repetidamente a dizer qual era a quantia que o presidente desejava para os cheques de assistência direta. Por fim, o presidente concordou com US$ 2.000 —os democratas estão prontos para levar essa proposta ao plenário esta semana por consentimento unânime. Vamos fazer!”, ela tuitou.

Os democratas da Câmara planejam propor que os cheques tenham seu valor elevado para US$ 2.000 por consentimento unânime na quinta-feira, disse um assessor familiarizado com a proposta.

Nas últimas semanas, líderes do Congresso e um grupo bipartidário de moderados trabalharam ininterruptamente para produzir um pacote de assistência com o objetivo e salvar empresas do fechamento, bancar a distribuição de vacinas contra o coronavírus e oferecer ao presidente eleito Joe Biden uma economia estável quando ele assumir, em janeiro.

O pacote de socorro de US$ 900 bilhões retomaria os benefícios suplementares de US$ 300 semanais no salário-desemprego de milhões de americanos, e bancaria uma rodada de pagamentos diretos em valor de US$ 600 a adultos e crianças. Líderes republicanos e democratas definiram as medidas como uma providência muito necessária para cobrir a transição até que o novo congresso inicie seus trabalhos no ano que vem e possa considerar novas medidas de estímulo.

O projeto foi aprovado por uma margem esmagadora de votos, que o torna imune a vetos. “A ajuda está a caminho”, disse o senador Mitch McConnell, republicano do Kentucky, o líder da maioria no Senado.

O líder do Partido Republicano no Senado Mitch McConnell - Jon Cherry - 4.nov.2020/AFP

Mas Trump, que não participou das negociações, exigiu na terça-feira que o governo distribuísse pagamentos diretos muito mais altos, a despeito da oposição dos republicanos do Senado a esses gastos.

O senador Chuck Schumer, de Nova York, o líder democrata no Senado, buscou ajuda do presidente no esforço dos democratas para elevar o valor da assistência contra o coronavírus que os cidadãos americanos receberão no ano que vem.

“Trump precisa assinar a medida para ajudar as pessoas e manter o governo em funcionamento”, tuitou o senador, “e para nós seria uma alegria oferecer mais assistência de que os americanos necessitam. Talvez Trump enfim possa fazer alguma coisa de útil e impedir que os republicanos bloqueiem de novo uma assistência maior”.

A ação do presidente surpreendeu até mesmo funcionários importantes do governo, na noite de terça-feira, e representou um embaraço para seu principal assessor econômico, o secretário do Tesouro Steve Mnuchin, que ajudou a negociar o acordo com o Congresso e aplaudiu a aprovação da medida, na terça-feira.

“Assumimos o pleno compromisso de assegurar que os americanos trabalhadores recebam esse apoio vital o mais rápido possível, para reforçar ainda mais nossa recuperação econômica”, afirmou Mnuchin em declaração na terça-feira, na qual ele agradecia a Trump por sua liderança.

Em entrevista na CNBC segunda-feira (21), Mnuchin havia declarado que “para mim foi um grande presente de aniversário que o Congresso aprovasse isso hoje”.

Ele disse que centenas de dólares em pagamento diretos aprovados pela medida começariam a ser feitos aos cidadãos americanos já a partir da semana que vem.

Um porta-voz de Mnuchin também mencionou o papel dele nas negociações, mais cedo na terça-feira, apontando que o secretário havia participado de 190 conversas telefônicas sobre a legislação entre os dias 14 e 20 de dezembro, com interlocutores que incluíam o presidente, funcionários do Tesouro, e líderes do Congresso. Durante as negociações, Mnuchin defendeu pagamentos diretos de valor mais alto, em nome do presidente, mas acompanhados por uma redução no adicional do salário-desemprego.

Antigos e atuais funcionários do governo especularam na noite de terça-feira que Trump não havia gostado da narrativa que o mostrava excluído das negociações, e que apelar por pagamentos diretos mais altos era uma jogada política para satisfazer sua base eleitoral.

A fim de aprovar a medida antes do Natal e acelerar sua implementação, líderes do Congresso combinaram o pacote de assistência a um projeto de autorização de gastos de US$ 1,4 trilhão (R$ 7,2 trilhões) para bancar as despesas do governo até o final do ano fiscal em curso, que termina em 30 de setembro de 2021.

O projeto também serve como veículo para aprovar inúmeros outros gastos, como o estabelecimento de dois novos museus pelo Smithsonian, uma proibição a contas médicas apresentadas de surpresa e uma restauração dos benefícios do programa Pell de bolsas de estudo federais destinada a estudantes encarcerados.

Mas o gigantesco projeto combinado –que tinha um total de 5.593 páginas– e a velocidade com que foi aprovado na segunda-feira atraiu críticas tanto da esquerda quanto da direita, e a maioria dos congressistas votou em favor da legislação sem ter tempo de lê-la na integra.

A deputada federal Alexandria Ocasio-Cortez, democrata de Nova York, comparou a votação apressada de tantas propostas não lidas a uma “tomada de reféns”, e o senador Ted Cruz, republicano do Texas, tuitou que o procedimento era “ABSURDO”.

Questões sobre algumas das cláusulas do projeto que concedem assistência a outros países também surgiram no programa “Fox & Friends”, um dos noticiários televisivos matutinos favoritos de Trump, na terça-feira. O senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul e aliado firme de Trump, defendeu uma cláusula do projeto que enviaria verbas de assistência ao Paquistão, em uma entrevista no programa. “O Paquistão é um lugar que realmente me preocupa”.

Além de reprovar os legisladores por enviarem dinheiro a outros países, Trump também criticou uma cláusula do pacote que permitiria que alguns membros de famílias de imigrantes que não estão legalmente no país recebessem benefícios. Ele também declarou que a cláusula que permitiria que despesas com refeições em restaurantes fossem deduzidas dos impostos das empresas por dois anos era insuficiente, e pediu que ela fosse estendida por mais tempo, sem especificar um prazo.

Em uma tirada no Twitter na noite de terça, Trump também repetiu suas afirmações infundadas de que perdeu a eleição por conta de fraudes generalizadas. Também atacou o vice-líder da bancada republicana no Senado, o senador John Thune, do Dakota do Sul, que disse a jornalistas no Capitólio esta semana que os planos do presidente para tentar reverter a vontade dos eleitores por meio de uma votação no Congresso não chegariam a lugar algum.

“No Senado, essa ideia cairia bem como atirar em um cachorro”, disse Thune. “E não acho que faça muito sentido forçar todo mundo a passar por isso quando sabemos qual será o resultado final”.

Em resposta, Trump definiu Thune como um RINO –“republicano apenas de nome”–, e como “garotinho do Mitch”, e disse que “vou deixar que as coisas corram como correrão. O Dakota do Sul não gosta de fraqueza. Ele será derrotado nas primárias em 2022, e sua carreira política vai acabar!!!”

Os democratas do Congresso parecem estar apreciando os ataques de republicamos a republicanos.
“Se a grande preocupação dele é querer cheques de socorro de US$ 2.000, tenho certeza de que somos capazes de acomodar o que ele deseja”, disse o deputado federal Jamie Raskin, democrata de Maryland e membro da equipe de liderança de Pelosi. “Do lado democrata, estamos defendendo um pacote maior há meses”.

Caso Trump vete o projeto depois de se recusar a participar das negociações, disse Raskin, “isso seria uma maneira ridícula de conduzir o governo, mas um final digno do que foi sua presidência”.

Tradução de Paulo Migliacci

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