No ano da pandemia, vale-alimentação perde espaço para plano de saúde e seguro de vida

7 em cada 10 reajustes em dezembro ficam abaixo da inflação, indicando dificuldades para 2021

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São Paulo

A aceleração da alta do INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) combinada com a dificuldade financeira das empresas fez com que um quarto dos reajustes salariais em 2020 ficasse abaixo da inflação.

Na prática, isso significa que houve perda do poder de compra dos trabalhadores. Os dados são da pesquisa Salariômetro, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), que analisa convenções e acordos coletivos.

Na outra ponta, 41,5% das negociações acordaram um ganho real, apesar do ano de crise.

A pesquisa mostrou ainda uma mudança nos benefícios negociados entre empregadores e trabalhadores, como PLR (Participação nos Lucros e Resultados), plano de saúde, abonos e seguro.

Segundo o Salariômetro, benefícios como seguro de vida, plano de saúde e plano odontológico foram incluídos em mais negociações do que costumavam aparecer.

Fila para retirada de marmitas do restaurante popular Bom Prato, em Santana, na zona norte da capital paulista; as refeições custam R$ 1 - Karime Xavier-06.jan.20/Folhapress

O seguro de vida apareceu em 26,6% dos acordos fechados em 2020, um avanço de 10% na comparação com o ano anterior. O maior crescimento percentual foi na inclusão do convênio farmácia que, apesar de ainda estar em apenas 6,3% das negociações, subiu 32,3%.

No caso do plano de saúde, o crescimento foi de 11% —o benefício esteve em 11,2% das discussões.

“O que esses dados estão revelando, e acho que podemos creditar à pandemia, é essa preocupação maior dos trabalhadores com a saúde e a vida”, afirma o professor da FEA/USP e coordenador do Salariômetro, Hélio Zylberstajn .

Por outro lado, vale-alimentação perdeu espaço nos acordos. A pesquisa registrou uma queda de 42,2% no número de negociações, e somente 21,6% delas trataram do assunto.

Considerando apenas o mês de dezembro, 70,2% dos reajustes ficaram abaixo do INPC. Apenas 10,6% das negociações coletivas alcançaram ganho real de salário no mês. Outras 19,1% apenas repuseram a inflação.

Zylberstajn classifica o último mês de 2020 como um “dezembro amargo” e um indicativo das dificuldades que os trabalhadores terão em 2021.

“Foi um encerramento de ano muito triste do ponto de vista salarial, para os trabalhadores, e para as empresas também, que talvez até queiram, mas estão com dificuldades de repassar preços”, afirma.

Para 2021, Zylberstajn acredita que os salários não deverão se recuperar rapidamente mesmo num cenário de retomada econômica.

"Aumentos reais serão mais raros porque as projeções para o INPC em 2021 continuam altas, acima de 5%”, diz o pesquisador. “Quem está negociando neste mês deve enfrentar resistência. Vai ser um ano muito complicado para manter o poder de compra.”

Se a previsão do Boletim Focus, do Banco Central, se confirmar, a trajetória da inflação pelo INPC neste ano terá um pico em junho, quando chegará a 7%.

Em 2020 caiu também o percentual de negociações que incluíam o recolhimento de contribuição sindical trabalhista. De 57% em 2019, esse pagamento apareceu em 51,2% das negociações no ano passado, uma queda de 10,2%. ​

Para Zylberstajn, essa redução pode ser um indicativo de que os sindicatos estão com dificuldade em manter o poder de barganha e demonstra como o financiamento dessas entidades segue indefinido.

A reforma trabalhista de 2017 acabou com a contribuição sindical obrigatória. “Ninguém, em sã consciência, pode querer acabar com os sindicatos, mas eles precisam de recursos para exercer a representação dos trabalhadores. Como garantir esses recursos ainda está em uma zona cinzenta”, afirma.

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