Invasão no Capitólio e fala de Baleia Rossi mexem com Bolsa e dólar

Ibovespa recua após novo recorde; moeda americana e juros futuros são pressionados

São Paulo

A Bolsa de Valores brasileira encerrou o pregão desta quarta-feira (6) em queda de 0,23%, aos 119.100,08 pontos, após renovar o recorde intradiário durante o pregão, indo a 120.924,32 pontos.

O Ibovespa, principal índice acionário do país, recuou nos últimos minutos do pregão, acompanhando o enfraquecimento das Bolsas em Nova York após apoiadores de Donald Trump invadirem o Congresso dos Estados Unidos.

A ação obrigou a Câmara e o Senado americanos a trancarem suas portas e a paralisarem a sessão que deveria confirmar a vitória presidencial do democrata Joe Biden.

A invasão ocorreu poucos minutos depois de o próprio presidente americano, durante manifestação em Washington, insuflar os ativistas a se dirigirem até a sede do Legislativo dos EUA.

Painel com flutuações dos índices de mercado na B3
Painel com flutuações dos índices de mercado na B3; após pregão volátil, Ibovespa fecha em queda de 0,23% - REUTERS/Paulo Whitaker

"Não foi uma queda acentuada do mercado. Compradores também chegaram. É um pouco chocante visualmente ver isso se desenrolar na televisão", disse Tim Ghriskey, estrategista-chefe de investimentos da Inverness Counsel, em Nova York.

Antes dos protestos pró-Trump, as ações do setor financeiro haviam alcançado o maior patamar em um ano e ainda fecharam em alta no dia. Papéis dos segmentos de materiais básicos, industrial e energia mantiveram os ganhos.

Mais cedo, S&P 500 também atingiu novo recorde intradiário, com a valorização das ações impulsionadas pela vitória do partido democrata no Senado no Estado da Geórgia, nos EUA, fechando em alta de 0,57%.

O índice Dow Jones encerrou o pregão com ganhos de 1,44%, em uma pontuação recorde.

“Senado alinhado ao governo é melhor para passar as propostas do presidente. Senado de um lado e governo do outro sempre dificulta”, diz Maurício Battaglia, analista Terra Investimentos.

O mercado espera que um Senado controlado pelos democratas facilite a aprovação de novas injeções de capital na economia americana e fortaleça a retomada do país, embora com aumento de impostos e regulamentação mais rígida.

Já a Bolsa de tecnologia Nasdaq caiu 0,6%, refletindo também o efeito da vitória democrata no Senado. Nesse caso, os investidores projetam que o novo presidente ficou fortalecido para aprovar leis que aumentem a regulação sobre as big techs, uma das bandeiras e Biden e de seu partido.

Dólar

No Brasil, o dólar fechou em alta de 0,77%, a R$ 5,3050, maior valor desde 30 de novembro. O turismo está a R$ 5,433.

Dentre os emergentes, o real foi a moeda que mais se desvalorizou na sessão, levando o Banco Central a fazer oferta extraordinária de liquidez para amenizar a volatilidade do câmbio.

Pouco depois da moeda bater a máxima intradiária, a R$ 5,36, o BC vendeu US$ 500 milhões em contratos de swap cambial tradicional, o que reduziu os ganhos do dólar.

Analistas disseram que a moeda brasileira volta a sentir os efeitos do juro baixo, que tira do câmbio o amortecedor para eventos de maior estresse externo ou interno. A percepção de incerteza cresceu diante da avaliação de que 2021 por ser mais um ano de fluxo cambial negativo, depois de o país ter perdido US$ 72,7 bilhões de dólares apenas nos últimos dois anos —sendo quase US$ 28 bilhões em 2020.

Com a queda da Selic a 2% ao ano e a inflação acima de 3%, o juro real no Brasil está negativo, o que desestimula a compra de reais por investidores em busca de lucros em operações de "carry trade", nas quais no passado o real era destaque.

Carry trade é a prática de investimento em que o ganho está na diferença do câmbio e do juros. Nela, o investidor toma dinheiro a uma taxa de juros menor em um país, para aplicá-lo em outro, com outra moeda, onde o juro é maior.

Persistentes ruídos fiscais e leitura de que a agenda de reformas tributária e administrativa no Brasil enfrentará um duro caminho neste ano completam os fatores negativos ao real.

"Esse movimento de tensão política nos EUA eleva a demanda por ativos de maior segurança, como o dólar", diz Lucas Carvalho, analista Toro Investimentos.

Discurso pró-gastos

Também contribuiu para a desvalorização do real o discurso pró-gastos públicos do deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP), candidato ao comando da Câmara que tem apoio do atual presidente da Casa, Rodrigo Maia. Baleia defende a extensão do auxilio emergencial neste ano e a ampliação do Bolsa Família, medidas que ampliariam as despesas do governo federal.

Com o aumento da percepção de risco fiscal, os juros futuros também subiram no pregão.

Juros futuros são taxas de juros esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para os juros de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro.

Os juros para dezembro de 2021 foram de 2,754% na véspera para 2,799% ao final do pregão desta quarta, e as taxas para julho de 2026 foram de 6,335% para 6,560%.

Na terça (5), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) comentou a atual situação econômica do país e disse que "o Brasil está quebrado, e eu não consigo fazer nada", levantando críticas de economistas e políticos.

“O risco fiscal é importante e está no radar, mas o Brasil não está quebrado. O endividamento está grande, talvez tenha sido um exagero ou forma de dizer do presidente”, diz Aline Tavares, gerente de análise de ações da Spiti.

A Bolsa ignorou a fala de Bolsonaro. No pregão de terça, fechou em alta de 0,43% após a declaração do presidente, acompanhando a disparada do petróleo, cujo preço foi ao maior nível desde fevereiro de 2020 após a promessa da Arábia Saudita de cortar a produção.

"Tudo que o presidente fala é levado em consideração, mas quem acompanha a questão fiscal sabe que não está quebrado, por isso o mercado não mexeu tanto. As declarações de Paulo Guedes [ministro da Economia] têm um peso maior, mas depende da declaração e da forma e do momento em que elas são ditas", afirma Aline.

"O que tem realmente feito preço no mercado é o ambiente externo. Vimos a reunião da Opep+ [Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados] refletindo nos preços do petróleo nesta semana e, nesta quarta, tivemos a expectativa pelo resultado das eleições na Geórgia", afirmou o analista da Guide Investimentos, Henrique Esteter.

Sobre o ambiente doméstico, Esteter afirma que apesar de estar em segundo plano, os investidores seguem atentos para os desdobramentos da eleição para o novo presidente da Câmara dos Deputados.

"O maior risco país ainda é a fragilidade fiscal, o aumento no gasto que ainda não conseguimos estancar", afirmou o analista.

No Ibovespa, o destaque foi a Gerdau, que subiu 4,95%, em sessão positiva para ações de mineração e siderurgia, e tendo no radar perspectivas de aumento de despesas em infraestrutura pelos EUA com um Senado de maioria democrata. A empresa tem parte relevante do resultado nas suas operações nos EUA.

Já a Vale avançou 2,81%, mais uma vez beneficiada pela alta dos preços do minério de ferro na China, enquanto o governo de Minas Gerais afirmou à agência de notícias Reuters que espera fechar um acordo superior a R$ 28 bilhões com a mineradora para reparações pelo desastre de Brumadinho, que deixou centenas de mortos em janeiro de 2019.

Na outra ponta, B2W ON perdeu 6,93%, com empresas de comércio eletrônico no vermelho. Sua controladora Lojas Americanas cedeu 5,74%, tendo ainda de pano de fundo exclusão pelo Bank of America de seus papéis do portfólio principal de ações para a América Latina.

A ação da Localiza caiu 5,45%, liderando perdas no setor de locação de veículos. Unidas perdeu 4,84%. Movida, que não faz parte do Ibovespa, teve declínio de 3,12%.

(Com Reuters)

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