Dólar sobe mais de 4% na semana e vai a R$ 5,42

Ibovespa renova recorde aos 125 mil pontos

São Paulo

O real andou na contramão da Bolsa na primeira semana do ano, quando o mercado acionário bateu sucessivos recordes.

O dólar encerrou o período em forte alta acumulada de 4,37%, cotado a R$ 5,4160. Foi a maior valorização semanal da moeda americana desde 15 de junho. Nesta sexta (8), subiu 0,31%.

De acordo com a Economática, essa é a maior desvalorização do real em uma primeira semana do ano desde 1994, se levada em conta a Ptax (taxa de câmbio calculada pelo BC baseada na média do mercado).

cédulas de dólar
Dólar acumula alta de 4,37% na semana e termina a R$ 5,4160 - Jorge Araújo / Fotos Públicas

Janeiros tendem a ser meses positivos para a divisa brasileira, com entrada de capital ao país e de queda do dólar.

O movimento neste começo de ano, porém, reflete o aumento do risco fiscal no Brasil, bem como a força internacional do dólar ante moedas emergentes com a vitória democrata nas eleições dos Estados Unidos e o aumento de casos Covid-19 e de restrições para conter seu avanço.

O real teve a segundo maior desvalorizaação entre emergentes, atrás apenas do rand sul-africano.

Nesta semana, o deputado federal e presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), lançou oficialmente sua candidatura ao comando da Câmara dos Deputados, defendendo a prorrogação do auxílio emergencial em meio à pandemia do novo coronavírus.

Entre os partidos que apoiam Rossi está o PT, legenda de maior bancada, com 52 parlamentares.

"A indefinição dos novos presidentes do Congresso e Senado e de como o governo consiguiria montar uma base para aprovar as medidas que já estão um bom tempo paradas deixa os investidores em compasso de espera", afirma Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora.

Velloni se diz preocupado com a cominação alta do dóla e alta do petróleo na inflação brasileira.

Também nesta semana, a Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara publicou nota técnica que visa o aumento do gasto do governo com despesas obrigatórias para além do teto de gastos.

Uma perspectiva de aumento de gastos por parte do governo amplia a percepção quanto ao risco fiscal brasileiro. Quanto mais fraca e endividada uma economia, menos valor tende a ter sua moeda.

O aumento do risco fiscal se reflete na alta dos juros futuros. Juros futuros são taxas de juros esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para os juros de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro.

Nesta semana, o juro para julho de 2022 subiu de 3,60% para 4,02%.

A Selic a 2% ao ano, mínima histórica, e os juros reais (descontando a inflação) em território negativo, também contribuem para a desvalorização do real, tornando mais barato posições de hedge em dólar, que têm o intuito de proteger aplicações da variação cambial.

A Bolsa brasileira, por outro lado, subiu 5% na semana, em meio a recordes. Nesta sexta, renovou sua máxima hisórica a 125.076,63 pontos no fechamento, alta de 2,19% no pregão. Na máxima do dia, foi a 125.323,53 pontos, recorde intraday.

Geralmente, quando a Bolsa sobe, o dólar cai, em um sinal de redução da percepção de risco de investidores. Enquanto o investimentos em ações é tido como mais arriscado, a compra de dólares é um porto seguro.

O mercado acionário local, porém, avança com a entrada de investidores pessoa física e estrangeiros, em um cenário de grande liquidez global. Em dólares, a Bolsa brasileira ainda estaria barata a investidores estrangeiros.

Em Wall Street, os principais índices acionários também renovaram recordes nesta sexta. Dow Jones subiu 0,18%, S&P 500 teve alta de 0,55% e Nasdaq, de 1,03%.

Com maioria democrata no Senado e na Câmara dos EUA, o mercado espera novos pacotes econômicos de estímulo no país sob o governo de Joe Biden —na semana passada, foi aprovado um pacote de quase US$ 900 bilhões.

A maior economia do mundo tem desacelerado sua recuperação. Nesta sexta, o relatório de emprego do governo americano mostrou que a economia cortou vagas pela primeira vez em oito meses em dezembro.

No saldo, foram 140 mil empregos a menos, deixando a taxa de desemprego em 6,7%.

"É difícil ignorar a queda impressionante de empregos em dezembro, mas o mercado deve a ignorar os dados decepcionantes diante de distribuição de vacina, forte probabilidade de estímulo e um Fed [banco cenral americano] com uma política monetária estimulativa", disse Mike Loewengart, diretor geral de estratégia de investimento na E-Trade Financial.

Segundo Fabio Focaccia, sócio e estrategista de Investimentos da Santa Fé, a expectativa de maiores gastos por parte do governo americano tamém contribuem para alta do dólar, já que o mercado vê juros mais altos no país.

"Há um receio de inflação com os estímulos monetários que os democratas poderão propor para a economia americana", diz Focaccia.

No Ibovespa, a maior alta da sessão foi de Notre Dame Intermédica, que disparou 26,59% seguida de Hapvida, que subiu 17,51%, após notícia do jornal O Globo de que as companhias estaria negociando uma fusão.

Já a B2W subiu e 6,97%, em um pregão de recuperação para o varejo. Lojas renner teve apreciação de 5,8% e Lojas Americanas ganhou 2,98%.

A MRV capitaneou a escalada do setor imobiliário na B3, com um salto de 6,91%, segundo seguida por Cyrela, que avançou 4,8%, Gafisa, com avanço de 3,7%. Rossi, de menor liquidez e fora do índice, foi ainda mais longe, disparando 30,9%.

(Com Reuters)

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