Finalistas no trainee do Magalu para negros fazem balé, têm intercâmbio e bolsa e falam iorubá

Com 22,5 mil inscritos, processo seletivo do Magazine Luiza registrou média de idade mais avançada

São Paulo

Thayna Barbosa guarda na memória o dia em que foi fazer entrevista de emprego para analista de dados em uma agência de marketing, quando tinha 22 anos, mas lhe negaram a vaga justificando que suas qualificações estavam acima do necessário. Decepcionada, ela conta que saiu do escritório observando as pessoas que trabalhavam ali. Só que a única negra, como ela, era copeira.

Hoje aos 26 e se formando na UnB (Universidade de Brasília), ela passou no processo seletivo de trainees do Magalu exclusivo para negros.

A cada etapa, diz que ficava imaginando que seus concorrentes teriam uma história parecida com aquela da entrevista na agência ou outra passagem de sua carreira, quando trabalhava em um hotel e teve de prender o cabelo para esconder os cachos.

Em comum com muitos dos candidatos, Barbosa estudou em escola pública, trabalhou durante grande parte da vida estudantil e foi a primeira da família a alcançar o diploma universitário.

A Folha conversou com 11 finalistas do recrutamento, encerrado na semana passada.

Levantamento feito a pedido da reportagem nos currículos dos 22,5 mil inscritos aponta um perfil característico: a média de idade fica em 28 anos e 70% fizeram faculdade particular.

Vinicius Porto, diretor de pesquisa do Magalu, que atuou na seleção, diz que os processos de trainee tradicionais, que não atendem a representatividade racial do país, costumam ter mais candidatos que se formam aos 21 ou 22 anos, enquanto essa parte da população se forma mais tarde porque tem de trabalhar para bancar a faculdade.

Intercâmbio foi outro ponto que chamou a atenção no perfil deles. Para reduzir barreiras de entrada, o Magalu não exige experiência internacional. Mesmo assim, apareceu muito nos currículos.

“Em qualquer processo tem muitos ex-intercambistas. Eles costumam achar que, se não viajaram, não vão ser trainee. Neste também, vários deles tinham intercâmbio. Só que de que forma? Ciência Sem Fronteiras [programa de governo que dava bolsas no exterior]. Não foram pais que pagaram”, diz Porto.

Na lista de peculiaridades do candidato negro, muitos jamais haviam participado de uma seleção de trainee. Para a alagoana Raíssa de Lima, também aprovada, além da escassez de opções de carreira fora dos grandes centros, as referências da mulher negra são restritas.

“Em Alagoas não tem programa de trainee. O peso do PIB está nas empresas de serviços, que são de micro a médio porte. E elas não fazem esses processos”, afirma Lima.

Na dinâmica de grupo, ela diz que, pela primeira vez, usou na prática alguns conceitos aprendidos na economia da Universidade Federal de Alagoas. “As possibilidades são poucas para pessoas pretas. Se você é da periferia, o que tem é de doméstica. Se é do interior, auxiliar administrativo em loja, e olhe lá. Na faculdade, você se pergunta: ‘Onde eu vou usar isso?’.”

Seus pais pagaram com esforço uma escola particular. Ela fez curso de inglês com a ajuda de um familiar e balé clássico com bolsa do governo, mas conta que por muito tempo não era vista como negra, e sim morena, entre as colegas brancas.

O recrutamento também registrou diversidade cultural, como o nigeriano Oluwaseyi Longe, 23 anos, que tem engenharia química na Unicamp e estágio na Unilever. Veio para o Brasil com um ano de idade, mas depois passou parte da infância na Inglaterra com a família, que deixou a África em busca de melhores condições, segundo ele.

Hoje os pais dão aula de inglês e revendem roupas importadas da Nigéria. Em casa, a língua é iorubá, mas no ano passado ele quis desenferrujar o inglês porque, antes de passar no Magalu, estava prestando outros processos de trainee. Então resolveu mudar o idioma para falar com a irmã, que tem 18 anos e também estava estudando para o vestibular.

O nigeriano Oluwaseyi Longe, um dos finalistas do processo seletivo para trainee do Magazine Luiza - Adriano Vizoni/Folhapress

Na retórica dos candidatos há forte consciência da desigualdade racial, repertório construído na teoria e na prática, segundo Nathalia Silva, 33, que chegou às fases finais. Apaixonada por livros, ela estudou no detalhe a história da escravidão e suas consequência entre gerações.

O pai é porteiro, e a mãe, que a teve com 17 anos, começou a vida como caixa de supermercado. Desde pequena, moradora de uma comunidade no Rio, Silva cuidava dos irmãos enquanto os pais trabalhavam. Ela procurou vagas em editora e livraria para sustentar o hábito da leitura, que a acompanha até a pós-graduação. A faculdade particular foi feita com bolsa.

“Tem que acordar às 5h, trabalhar e estudar. Em algum momento você vai pensar em desistir. Claro que eu pensei. É pesado. Você olha o entorno. Não tem negros”, diz Silva.

Ao longo da seleção Patricia Pugas, diretora do Magalu, diz que os candidatos apresentaram experiências que são valorizadas pelos recrutadores porque apontam traços de personalidade resiliente e persistente, além de habilidades de relacionamento.

São características marcantes entre os aprovados, como o angolano Frederico Cassule, 27, que chegou ao Rio com 19. Após a faculdade de administração e a especialização em marketing, a vaga que conseguiu foi na hotelaria de luxo, onde carregou mala antes de ser promovido. Ele preferia o turno da noite, que lhe permitia ter o dia livre para continuar buscando outro emprego.

Frederico Cassule, um dos aprovados no processo seletivo para trainee do Magazine Luiza - Adriano Vizoni/Folhapress
É também o caso de Paulo Cardoso, 28, que chegou às fases finais do recrutamento. Enquanto fez curso técnico, ele começou como menor aprendiz e foi efetivado em uma empresa de reservatórios em Salvador. Quando o salário ficou insuficiente para pagar a faculdade, conseguiu outra vaga em multinacional.

Ele diz que seu exemplo de comprometimento foram a mãe, que vendia cana no palito na estrada, e o pai, que foi obrigado a se aposentar após um acidente, mas conseguiu voltar anos depois com bicos de pedreiro e marceneiro, ofícios que Cardoso também aprendeu na adolescência para ajudar em casa e ter independência financeira.

​Um aspecto que chamou a atenção não só dos recrutadores mas dos próprios candidatos foi o espírito de cooperação dos participantes, que se sobrepôs ao clima competitivo. Nas etapas das dinâmicas para selecioná-los, o diretor Vinicius Porto diz que era comum ver os candidatos abrirem espaço para os concorrentes falarem.

Para ele, o comportamento tem a ver com uma cultura de colaboração mais forte em comunidades de baixa renda. “É o costume da dona de casa que cuida da filha da moça que precisa sair para trabalhar. Ou os jovens que fazem compra coletiva para ter desconto”, afirma Porto.

Já Gislaine Cruz, uma das aprovadas, atribui à sensação de representatividade. “Se essa não fosse a minha vez, na próxima poderia ser”, diz Cruz, 28, cujo currículo lista graduação na USP, experiências em startup e prefeitura, mas ela também já se sentiu excluída pela cor.

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