Startup americana abre processo seletivo para presidente negro no Brasil

Empresa surgida no Vale do Silício está há alguns meses no país

São Paulo

Uma startup americana da área de tecnologia abriu processo seletivo para a contratação de um presidente-executivo negro em sua unidade do Brasil. A busca pelo candidato para líderar a empresa começou no dia 18 de dezembro e o recebimento de currículos se encerra no dia 26 de janeiro.

A seleção ocorre na esteira da movimentação de diversas empresas brasileiras que têm buscado repensar a forma de recrutamento para iniciar ou ampliar a diversidade de colaboradores dentro das companhias.

Nos últimos meses, empresas como Magazine Luiza, Bayer e Ambev lançaram programas de trainne focados na inclusão de profissionais negros.

Entre os requisitos exigidos pela startup americana, que atua na área de aplicativos, para a contratação do profissional estão: experiência em função executiva, vivência de 10 anos em cargos de gestão, graduação completa, MBA e fluência em Inglês.

Segundo Patrícia Santos, fundadora da EmpregueAfro, consultoria especializada em diversidade étnico-racial responsável pelo recrutamento do futuro presidente-executivo da companhia, esta é a primeira vez, no Brasil, que um processo seletivo focado na inclusão e na diversidade ocorre para este tipo de cargo.

"É um processo histórico. Estamos há 15 anos fazendo o recrutamento e seleção de profissionais negros e é a primeira vez em um processo de CEO [sigla em inglês para presidente-executivo], o cargo mais alto e mais importante de uma organização. Neste caso, de uma multinacional. É um processo extremamente delicado e a gente tem que ser muito assertivo, até por conta da representatividade. O peso é maior para uma vaga dessa", explica.

"Não tenho conhecimento de algum outro [que tenha ocorrido] no Brasil", conta.

Patrícia avalia que empresas e marcas estão pressionadas diante das recentes mobilizações no Brasil e em outros países com cobranças por equidade e contra comportamentos que reproduzem o racismo estrutural.

"Eu acredito que existe um movimento intencional, de repensar os processos seletivos e fazer com que sejam mais inclusivos", diz a consultora.

"Acho que as empresas e as marcas estão pressionadas pelas manifestações e pelos acontecimentos recentes, desde a morte do George Floyd. A pressão nas redes sociais também está muito grande, então, a meu ver, é isso que tem feito as empresas se mobilizarem".

A criadora da EmpregueAfro não revelou o nome da startup, que preferiu manter a estratégia de confidencialidade durante o processo seletivo. Surgida no Vale do Sícilio, região nos EUA que concentra empresas de tecnologia. ela está atuando no Brasil há alguns meses.

Tendência

Para Patrícia, o movimento de melhorar e aumentar a diversidade dentro das companhias será uma tendência para os próximos anos no mercado de trabalho.

Entretanto, ela diz que ainda é cedo para identificar o quão duradouro será este processo.

"É uma forte tendência pelo menos para os próximos cinco anos. Há estudos da [consultoria] McKinsey, por exemplo, que revelam que empresas com diversidade étnico-racial na liderança conseguem agregar maior valor competitivo", afirma.

"Em um país como o nosso, com 56% da população negra, a maior parte das pessoas economicamente ativas são negras, e a maior parte dos consumidores também. Essa pressão, não só dos movimentos sociais, mas dos consumidores, junto com a análise desses dados faz com que as empresas entendam que não dá para crescer sem investir em diversidade", diz.

"As pesquisas mostram também que investir em diversidade traz retorno, inovação, mas isso é também uma questão de responsabilidade social".

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