Descrição de chapéu The Wall Street Journal desmatamento

Passado recente do Brasil é desafio para conquistar investidores estrangeiros

Nenhuma empresa brasileira está na lista das 100 companhias administradas de modo sustentável do jornal The Wall Street Journal

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Jeffrey T. Lewis Paulo Trevisani
Nova York | The Wall Street Journal

As empresas brasileiras que lutam para atrair investidores globais que se importam com questões ambientais, sociais e de governança (ESG) enfrentam problemas devido a história recente do país de corrupção, desigualdade e desmatamento, dizem administradores de capitais.

Transmitir a mensagem de que as questões ESG são levadas a sério pode ser ainda mais difícil em um país cuja economia é fortemente concentrada na produção de matérias-primas e indústrias extrativas, acusadas pelo aquecimento global.

Enquanto isso, o desmatamento na Amazônia se acelerou sob o presidente Jair Bolsonaro e, se não for contido, alguns investidores estrangeiros ameaçaram descarregar os ativos brasileiros.

Alguns investidores focados em ESG consideram várias das maiores companhias brasileiras prejudicadas por operar em setores que eles consideram inimigos do meio ambiente, como a companhia de mineração de ferro Vale e a Petrobras –de longe as duas maiores empresas na Ibovespa–, assim como a JBS, maior processadora de carne do mundo.

As companhias dizem que suas ações hoje seguem padrões de sustentabilidade, enquanto autoridades do governo muitas vezes citam os vastos recursos naturais do país como um potencial ímã para investidores.

Os padrões ambientais, sociais e de governança são cada vez mais usados como ferramenta de redução de riscos por investidores estrangeiros, que segundo a operadora do mercado brasileiro B3 representam mais de 44% de todos os negócios no mercado. O volume de dinheiro em fundos que consideram fatores ESG em suas decisões de investimentos quase duplicou, de US$ 22,9 trilhões em 2016 para US$ 40,5 trilhões em 2020, segundo a firma de consultoria financeira Opimas.

"Os investidores estrangeiros olham para o Brasil, veem Bolsonaro e aquelas três grandes empresas e podem pensar que o Brasil não está sendo responsável", disse Fabio Alperowitch, cuja firma de administração de fundos Fama Investimentos, sediada em São Paulo, só investe em companhias com boas políticas de ESG. "Elas veem notícias sobre incêndios, o governo e grandes companhias com seus problemas e podem deletar o Brasil de seus portfólios."

Algumas empresas brasileiras tomaram medidas para melhorar elementos de ESG em suas operações. Alperowitch citou entre as melhores a produtora de papel Klabin, o laboratório de exames médicos Fleury, a fabricante de cosméticos Natura, as Lojas Renner e a agência de locação de carros Localiza.

Nenhuma empresa brasileira foi incluída entre as "top" 100 no ranking do Wall Street Journal de companhias administradas de modo sustentável. A empresa brasileira que se classificou mais alto foi a produtora de alimentos BRF, em 310º lugar. A segunda mais alta foi a Vale, em 469º.

A classificação mediu mais de 5.500 firmas de capital aberto que divulgam dados de desempenho em 26 categorias de sustentabilidade pesadas conforme a relevância para o negócio da empresa. Por exemplo, as emissões de gases do efeito estufa terão um impacto maior para uma companhia de transportes do que para um banco.

As classificações se baseiam em 165 pontos de dados divulgados por companhias, combinados com análises de cobertura na mídia por mais de 8.800 fontes, o que significa que escândalos de corrupção e desastres ambientais que geram notícias envolvendo os líderes corporativos brasileiros prejudicam o desempenho.

Os fundos ESG de mercados emergentes subiram 97% em janeiro em relação aos níveis de 2014, um desempenho melhor do que o total dos fundos de mercados emergentes, que subiram 65% no mesmo período, segundo dados da Informa Financial Intelligence’s EPFR Fund Flows and Allocations.

Cameron Brandt, diretor de pesquisa da EPFR, diz que os fundos que só procuram investir de acordo com o perfil ESG tendem a ser mais confiáveis. "Mais social e governança é um conforto de que o fundo tem critérios mais robustos para as companhias que investem nele", disse ele.

"Nós não compraríamos metais e mineração [e] não temos petróleo", disse Matt Patsky, executivo-chefe e gerente de portfólios na Trillium Asset Management. "Não investimos em indústrias extrativas, por isso muitas fontes das coisas que deram terrivelmente errado no Brasil são coisas em que não tocamos."

A Vale enfrentou dois acidentes mortais em barragens nos últimos anos. A Petrobras esteve no centro de um escândalo de corrupção que mais tarde envolveu a JBS. E a JBS enfrentou acusações de embalar carne de bois criados em áreas desflorestadas ilegalmente.

A Vale encerrou a construção de barragens como as que estouraram. Na quinta-feira (4), a mineradora concordou em pagar US$ 7 bilhões em indenização para o estado de Minas Gerais, onde o colapso de sua barragem dois anos atrás matou 270 pessoas, poluiu rios e destruiu a paisagem ao redor. A Petrobras, enquanto isso, lançou uma ampla reforma de governança que foi elogiada por analistas. E a JBS indica seus esforços para garantir a transparência na compra de gado.

Bolsonaro ordenou que os militares combatam o desmatamento na Amazônia. O governo lançou um novo plano anticorrupção em dezembro, e um aumento recente de novas infecções e mortes por Covid-19 reacendeu o discurso de prorrogar os pagamentos de emergência aos brasileiros mais pobres. A secretaria de imprensa do presidente não respondeu a um e-mail solicitando comentários.

A Vale disse que pretende investir pelo menos US$ 2 bilhões para cortar suas emissões até 2030, e está trabalhando para cortar as emissões líquidas geradas por seus clientes e cadeia de suprimentos em 15% até 2035.

A Petrobras afirmou que tem uma política de tolerância zero contra fraudes e corrupção e pretende investir US$ 1 bilhão até 2025 para reduzir as emissões de carbono em suas operações. Ela disse que definiu a meta de cortar suas emissões totais em 25% até 2030.

A JBS declarou que tem iniciativas implementadas para minimizar o impacto de sua cadeia de suprimentos sobre o meio ambiente.

Alguns investidores veem oportunidades no país. Mas para outros o Brasil continua sendo um mercado arriscado.

"O Brasil não está na moda agora, e isso também impacta a ESG", disse Paula Kovarsky, diretora do escritório nos EUA da fornecedora de energia renovável brasileira Cosan, acrescentando que o país deve alavancar o potencial de ESG explorando de forma sustentável seus abundantes recursos naturais. "O outro lado da moeda é: pense no que está acontecendo no mundo e na vocação natural do Brasil."

WSJ

Conteúdo licenciado pelo Wall Street Journal para publicação na Folha de S.Paulo

Traduzido por Luiz Roberto M. Gonçalves

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