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Saiba como fugir do 'risco Brasil' e diversificar investimentos no exterior

Deterioração fiscal e ganho menor com queda nos juros levam brasileiros a aplicar fora do país

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São Paulo

Para fugir do chamado “risco Brasil”, especialistas aconselham que brasileiros invistam direta ou indiretamente no exterior, ou mesmo mantenham uma conta com reservas lá fora.

Entre 2007 e 2019, o capital de investidores pessoa física no exterior saltou 507%, segundo dados do Banco Central, indo de US$ 31,75 bilhões para US$ 192,7 bilhões no período.

Com o dólar em alta e a deterioração das contas públicas, aumenta a percepção de risco local. Além disso, com a queda de juros, o Brasil perde vantagem em relação a determinados países, onde os investimentos são menos arriscados ou pagam mais.

cédulas de dólar
O brasileiro pode investir direta e indiretamente no exterior, mas a oscilação do câmbio é um fator de risco - Jorge Araújo / Fotos Públicas

“O mercado exterior é mais líquido e diverso”, diz Laszlo Lueska, sócio-gestor do fundo Octante Crédito Privado.

Segundo ele, até mesmo debêntures de empresas brasileiras no exterior pagam uma remuneração maior que no Brasil.

"Elas pagam muito mais porque estão competindo com empresas do mundo inteiro", diz Lueska.

Outros países onde títulos de dívida têm um retorno maior são México, Peru e Colômbia, afirma o gestor.

“O Brasil tem só 2% do mercado financeiro global. Deixar dinheiro aqui é estar sujeito aos pontos positivos e negativos do país, e cada nação tem problemas em tempos diferentes. É importante diversificar para reduzir os riscos", diz Gisele Colombo de Andrade, conselheira da Planejar.​

Com a discussão em torno da volta do auxílio emergencial, o risco-país medido pelo CDS de cinco anos acumula alta de 7,7% neste ano, após saltar 43,6% em 2020 com a pandemia de Covid-19.

O CDS funciona como um termômetro informal da confiança dos investidores em relação às economias, especialmente as emergentes. Se o indicador sobe, é um sinal de que os investidores temem o futuro financeiro do país. Se ele cai, o recado é o inverso: sinaliza aumento da confiança quanto à capacidade que o país tem de saldar suas dívidas.

A situação econômica atual também preocupa. O desemprego e inflação altos e a desaceleração na recuperação com um maior registro de novos casos de Covid-19 devem impactar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) em 2021, bem como o desempenho do real, a segunda moeda emergente que mais se desvaloriza em 2021, atrás apenas do peso argentino.

Segundo o boletim Focus do Banco Central, que reúne estatísticas do mercado, o PIB deve crescer 3,47% em 2021, e o dólar deve terminar o ano a R$ 5,01.

As expectativas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, inflação oficial no país) e para a taxa básica de juros (Selic) são 3,60% e 3,50%, respectivamente.

Na sexta-feira (12), o dólar comercial estava a R$ 5,3740, e o turismo, a R$ 5,5330.

Na semana passada, o Santander Brasil revisou sua estimativa para o dólar, em meio à deterioração das condições financeiras diante de riscos fiscais e do iminente retorno do auxílio emergencial. O banco agora projeta que o dólar fechará o ano em R$ 5,20, de R$ 4,60 antes.

Para o BTG, o dólar fechará o ano em R$ 4,90, considerando manutenção do teto de gastos, uma rodada de auxílio emergencial mais restrita que a do ano passado, evolução das reformas tributária e administrativa, cumprimento do plano nacional de vacinação, política monetária estável nos EUA, alta da Selic para 3,75%, elevação da demanda por commodities e um pacote fiscal-americano entre US$ 1 trilhão e US$ 1,9 trilhão (entre R$ 5,4 trilhões e R$ 10,2 trilhões).

Já o Bank of America estima que o dólar fechará 2021 em R$ 5,10.

Confira maneiras de investir seu patrimônio no exterior.

Moedas estrangeiras

Uma das formas mais simples de fugir do risco Brasil é por meio do investimento em moedas estrangeiras fortes, que tendem a se valorizar ante o real em momentos de crise.

Especialistas recomendam o investimento em fundos cambiais ou mesmo atrelados ao ouro como forma de balancear o risco de outras aplicações de renda variável, que geralmente caminham em direção oposta.

Com as mudanças no mercado cambial brasileiro em votação no Congresso, há a possibilidade de que pessoas físicas mantenham contas em moeda estrangeira no Brasil.

Hoje, só é possível manter conta em moeda estrangeira em algumas situações, como no caso de embaixadas, consulados, corretoras de câmbio e agências de turismo.

O dólar, como qualquer outra moeda, tem seus riscos. Comprar a divisa é apostar na economia dos Estados Unidos, assim como o euro depende da economia da Europa, e a libra, do Reino Unido.

Com juros próximos de zero nos EUA e uma enxurrada de ajuda monetária e fiscal do governo para frear um tombo ainda maior da economia, o mercado teme uma forte alta da inflação no país, o que poderia desvalorizar a moeda americana. O investidor, então, deve estar atento aos movimentos do mercado.

BDR e ETF

Outro método para acessar os mercados internacionais é via BDR (recibo depositário de ações, na sigla em inglês) e ETF (fundo de índice). Ambos são negociados em reais na Bolsa de Valores brasileira da mesma forma que ações.

O BDR permite que o brasileiro invista em ações listadas fora da Bolsa brasileira por meio de um recibo. O BDR é um certificado emitido por algum banco que representa ações de empresas como Apple, Tesla, Amazon, entre outras. Além da variação do papel, ele reflete a flutuação diária no câmbio.

Já o ETF dá a possibilidade de investir indiretamente em um índice acionário estrangeiro, como o americano S&P 500. Há ETFs no Brasil que replicam o mercado de ações de outras regiões também, como China e Europa.

Fundos de investimento são outra opção para acessar ativos de outros países.

Corretoras no exterior

Para acessar mais opções de investimentos em outros países, o investidor brasileiro precisa abrir uma conta em uma corretora no exterior, o que pode ser feito pela internet.

São exigidos praticamente os mesmos documentos necessários para abrir uma conta em corretora brasileira: passaporte ou documento de identidade e comprovante de residência. Algumas instituições pedem cópia do Imposto de Renda.

Com a conta aberta, é preciso enviar os recursos para fora do país, geralmente em dólares, com incidência do IOF (imposto sobre operações financeiras).

“Pelo custo, vale a pena transferências a partir de US$ 500”, diz Alexandre Liuzzi, cofundador da Remessa Online, fintech brasileira de transferências internacionais.

Segundo ele, 20% a 25% das transferências feitas via Remessa Online são para corretoras no exterior, principalmente EUA, Europa e Austrália.

Os valores investidos devem ser informados ao Banco Central, de acordo com o calendário de declarações de capitais no exterior. As aplicações também devem ser reportadas à Receita Federal na declaração do Imposto de Renda, e, quando há ganho, os valores são tributados aqui no Brasil.​

Cada corretora tem um custo por transação e também pode haver custo para manutenção da conta.

Segundo Simone Degenszajn Stolar, diretora de câmbio da Veedha Investimentos, os mercados de ações mais recomendados são EUA, China e Europa, com foco em Alemanha e Reino Unido.

Para escolher o ativo, é preciso estudar e entender sua natureza, riscos e setor.

"Se não for o caso, melhor aplicar em fundos de ações, com gestores especializados, que fazem a escolha dos papéis para o investidor, além do acompanhamento e da substituição de posições, conforme o mercado", diz Simone.

Conta bancária no exterior

Desde os atentados do 11 de Setembro, aumentaram as restrições e a requisição de documentos para a abertura de contas de estrangeiros no exterior como forma de conter o financiamento do terrorismo e a lavagem de dinheiro.

Segundo Simone, da Veedha, para abrir uma conta em bancos tradicionais dos EUA, como Goldman Sachs e Bank Of America, é preciso que algum conhecido faça a ponte com o gerente.

Em bancos digitais e fintechs, o processo é menos burocrático, mas, mesmo com a abertura pela internet disponível, pode ser necessário comparecer a uma sede física para dar continuidade ao processo.

A dica de Gisele, da Planejar, é escolher bancos com mesas dedicadas a clientes brasileiros.

“Todos os bancos exigem cópia de passaporte e de comprovante de endereço. Se o cliente chega de paraquedas, pedem também comprovante de renda e de patrimônio”, diz.

Uma alternativa mais simples é abrir a conta no exterior por um braço de um banco brasileiro nesse país.

Gisele aconselha ir depositando aos poucos, até a conta chegar a US$ 50 mil (R$ 269 mil) ou US$ 100 mil (R$ 538,2 mil). ​

Offshore

​Para o público de alta renda, a criação de uma offshore pode ser uma alternativa na redução de custos.

Segundo especialistas, com uma quantia no exterior acima de US$ 300 mil (R$ 1,6 milhão) já é vantajoso abrir uma offshore.

"Você gasta US$ 3.000 (R$ 16,2 mil) para abrir uma offshore, e de US$ 1.500 (R$ 8.100) a US$ 2.000 (R$ 10,8 mil) de manutenção, além de US$ 1.500 de contabilidade. São cerca de US$ 6.000 (R$ 32,3 mil) ao ano. Para quem tem dinheiro, a estrutura offshore é a mais básica”, diz Gisele.

Uma offshore é uma empresa aberta no exterior. A preferência, geralmente, é por países com menos tributações, como Panamá, Bahamas e Ilhas Cayman.

“A maior parte está nas Bahamas e nas Ilhas Cayman porque é mais barato. A empresa que estiver lá pode ter conta bancária em qualquer país", afirma Simone, da Veedha Investimentos.

Para abrir a empresa, é preciso procurar um escritório de advocacia ou empresas especializadas nesse serviço.

Abrir uma offshore não é ilegal, desde que feito de acordo com as leis do Brasil e do país em que a empresa está sediada.

Também é preciso prestar contas à Receita Federal e pagar os impostos devidos.

(Com Reuters)

Erramos: o texto foi alterado

US$ 300 mil equivale a R$ 1,6 milhão, e não R$ 1,6 bilhão. O texto foi corrigido.

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