'Você vê seu filho pedindo o básico e não pode dar', diz ex-beneficiária do auxílio emergencial

Periferia de SP sofre com fim do auxílio, avanço da pandemia e vacinação atrasada

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Lucas Veloso
São Paulo | Agência Mural

A cabeleireira Maria das Graças Viana, 41, pretende fazer uma ação diferente no próximo fim de semana em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Após perder, nas últimas semanas, 70% da renda em seu salão beleza, planeja fazer um ‘domingo solidário’.

A ideia é atrair mais clientes oferecendo serviços como corte de cabelos, hidratação e manicure por preços menores que os habituais. O dinheiro do dia vai para o pagamento do aluguel da casa. A queda no movimento do salão coincide com o fim do auxílio emergencial e o agravamento da pandemia.

Maria é mãe de quatro filhos e moradora da favela, que tem cerca de 100 mil habitantes. No ano passado, teve de fechar o salão temporariamente por causa das medidas de isolamento social. Reabriu, a clientela estava voltando, mas o fim do benefício emergencial atingiu os vizinhos e sua família.

“Além de ter de resolver as dívidas do salão, você vê seu filho pedindo o básico e não pode dar”, afirma.

Maria recebeu cinco parcelas do auxílio emergencial. Com o benefício conseguiu manter o básico de casa —pagar as contas e comprar alimentos. A realidade mudou desde dezembro passado, com o fim do benefício.

“Sem ele ficou muito difícil. Estou lutando para sobreviver, mas não estou vendo progresso. Está sendo muito difícil mesmo para manter a família”, afirma. “Minha preocupação maior são os filhos que não entendem porque as coisas faltam em casa”.

Elaine Cristina, proprietária de pequeno restaurante na favela de Heliópolis, diz que a situação financeira está mais difícil agora do que no começo da pandemia - Bruno Santos - 19.fev.2021/Folhapress

Uma alternativa para a comunidade agora poderia ser o serviço Bom Prato, que oferecia refeições por R$ 1 na região. Desde outubro, porém, foi fechado para reformas. Não há prazo para conclusão da obra.

Mas não é apenas nesta região que se ouve esse tipo de história. Há relatos de falta de comida e piora na qualidade de vida em vários pontos da periferia. Nas redes sociais de moradores dessas áreas, as postagens com pedidos de alimentos e busca por ajudas são recorrentes .

De acordo com as discussões em andamento na Câmara dos Deputados e no Ministério da Economia, uma nova fase do auxílio emergencial deverá ser paga entre março e junho, com um valor ainda não definido, mas que deverá ser menor do que a primeira rodada: entre R$200 e R$250.

Elaine Cristina Parente de Sousa, 32, outra moradora da zona sul, também perdeu nas duas pontas. Autônoma, ela recebeu o auxílio, que ajudou a complementar parte da renda que antes vinha de um pequeno restaurante que ela tem em Heliópolis, maior favela da capital, com 200 mil moradores. Agora, está sem o benefício e perdendo clientes, também beneficiários do auxílio, que costumavam pagar as refeições em dinheiro.

Cristina diz que o movimento caiu pela metade e que a situação está mais apertada do que no começo do surto. “Na pandemia, não afetou muito, pois tinha o auxílio. Hoje está parado”, diz.

“No atual cenário, composto de incertezas e crescimento de desemprego, verifica-se um aumento do risco para empresas, particularmente, o risco de falência dos pequenos negócios localizados na periferia”, afirma Edivaldo Constantino das Neves Júnior, 32, professor do departamento de economia da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo).

Ele diz que a maior parte das medidas de ajuda focalizadas em empresas tiveram alcance reduzido sobre os pequenos comerciantes da periferia. Segundo o docente, esses negócios menores têm pouco ou nenhum relacionamento bancário, pois são considerados de alto risco, e assim dependem financeiramente dos moradores.

O auxílio emergencial irrigou esses empreendimentos, pois os moradores com baixíssima taxa de poupança gastaram o recurso nos comércios locais.

A percepção dos especialistas é que a situação se agravou com uma associação de fatores negativos: avanço do coronavírus, acompanhado do surgimento de variante mais contagiosa, bem como o atraso na vacinação e a falta do auxílio emergencial.

“As famílias se veem imersas em incertezas, correndo o risco de ingressar em um ciclo perverso, e talvez mais intenso, de pobreza”, diz o professor. “É preciso reconhecer que os efeitos econômicos da pandemia se manifestam de forma desigual na sociedade, e se apresentam de maneira visível nas periferias brasileiras”.

Por outro lado, avalia Constantino, a deterioração das contas públicas pode comprometer o crescimento econômico do país e é preciso garantir que seja possível bancar o benefício sem afetar a saúde financeira do Estado.

Quem recebe o benefício diz que o programa teve uma parada abrupta depois de cair de R$ 600 para R$ 300.

Foi o que sentiu o artista visual Gleyson Klein dos Santos, 21, que costumava ser contratado por comerciantes para fazer grafites no bairro Cidade Kemel, região no limite entre quatro cidades: São Paulo, Ferraz de Vasconcelos, Poá, Itaquaquecetuba.

Ele recebeu todas as parcelas do benefício, mas agora vive uma dupla perda de renda: não tem o auxílio e diz ter sofrido uma queda de 70% nos pedidos dos serviços por grafite. “Se a renda não está boa para eles [os comércios], não sou chamado”, diz.

Santos critica a redução, seguida de corte do benefício quando a pandemia ainda está aí. “O cenário não mudou desde o começo do surto”, afirma.

Opinião semelhante tem a autônoma Joyce Souza Marini de Campos, 31, moradora da Vila Carmosina, em Itaquera, na zona leste, que recebeu todas as parcelas do auxílio e diz que está sem opções financeiras agora. “Estamos totalmente sem previsão de nada, sem condições de nada. Já está faltando tudo em casa”, afirma.

Economista e pesquisador do CEP (Centro de Estudos Periféricos) Cleberson da Silva Pereira, 38, afirma que o valor do auxílio deveria ser repensado. O custo de vida em regiões urbanas é mais alto. Com a alta na inflação de serviços e alimentos, um valor baixo vai ser insuficiente em várias regiões. “Numa conta simples, a gente sabe que o gasto com água, luz, celular e transporte é de quase R$200, então, vai ser difícil ainda sobrar para alimentação.”

O economista acrescenta que, caso o governo não garanta um valor minimamente justo, as pessoas serão obrigadas a voltar para as ruas atrás de dinheiro, o que tende a gerar aglomeração nos transportes públicos e incentivar o comércio informal próximas a estações de trens nos bairros da capital.

“O valor deveria ser de um salário mínimo por família, mas na impossibilidade disso, [deveriam] manter os valores que estavam sendo pagos até dezembro passado”, diz o especialista. “E o auxílio precisa ser mantido até que acabe o estado pandêmico”.

Procurado pela reportagem, o Ministério da Economia respondeu que não comenta o assunto.

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