Doações para vulneráveis caem no momento mais crítico da pandemia

Apoio da sociedade perdeu força no fim do ano passado, quando o país acreditou que o vírus estava sendo contido

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São Paulo

O agravamento da pandemia do coronavírus no Brasil fez com que instituições e organizações comunitárias que apoiam trabalhadores e empreendedores na periferia iniciassem uma nova rodada pela busca de recursos e doações. A pandemia produz recordes de contágio e morte, mas as contribuições para vulneráveis, que atingiram cifras históricas em 2020, não engrenam neste início de ano.

Integrantes de três iniciativas lideradas por mulheres negras e voltadas para atender trabalhadoras e empreendedoras de baixa renda falaram com a Folha sobre suas iniciativas e os desafios do atual momento.

As dificuldades, relatam, vêm desde outubro do ano passado, período em que as contribuições começaram a ficar escassas. Na época, a maioria dos estados brasileiros já começava a apresentar avanços no controle da pandemia e a relaxar medidas de distanciamento social.

“Um pouco antes do fim de 2020, as pessoas acreditaram que a pandemia tinha acabado, a arrecadação caiu muito, e houve um momento em que nem sequer estávamos aceitando novos cadastros porque não conseguiríamos atender”, afirmou Kellen Vieira, 24.

Adriana Barbosa, criadora do Instituto Feira Preta; fundo ligado à entidade preserva negócios - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Ela faz parte do grupo que dirige a Casa Akotirene, um quilombo urbano criado pelo coletivo Afromanas, em Ceilândia, no Distrito Federal.

À medida que a pandemia avançou no ano passado, provocando o aumento do desemprego e a queda da renda, a organização, que atuava em atividades culturais, lançou um programa para arrecadação de cestas básicas e também cestas verdes (com alimentos in natura).

A ação também passou a integrar uma rede de apoio com outros coletivos e organizações e chegou a atender 150 famílias.

Nesta atual fase da pandemia, considerada ainda mais grave, a demanda por ajuda cresce, mas ainda sem o apoio de antes.

“Com a volta do coronavírus, até começamos a receber algumas doações, mas está difícil reunir o suficiente para atender as pessoas porque o custo da cesta básica aumentou demais”, diz Vieira. “Houve a visão distorcida de que a pandemia tinha acabado, e isso piorou o cenário para as pessoas que moram na periferia, que estão em vulnerabilidade e ainda não conseguiram recuperar a renda de antes.”

Grupos de economia colaborativa enfrentam a mesma dificuldade.

Segundo Valdecir Nascimento, coordenadora-executiva do Odara Instituto da Mulher Negra, em Salvador, na Bahia, foi preciso reforçar os apelos ao setor privado e ao Ministério Público no estado para retomar as campanhas de doações. O retorno, porém, não é como foi em 2020.

“A região Nordeste é extremamente vulnerável, a maioria da população vive de trabalho informal. Por isso, uma de nossas maiores dificuldades é convencer a pessoa de que ela precisa ficar em casa”, afirma ela. “Tentamos mobilizar pessoas em geral e os empresários para que façam doação de produtos ou em dinheiro, pois a pandemia continua.”

Empreendedora Yeda Amaral; apoio para vender pela internet - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Em 2020, o Odara montou uma estratégia de economia solidária para entregar cestas básicas às famílias mais vulneráveis. Para ampliar ação, os alimentos comprados com os recursos doados eram fornecidos por produtoras que trabalhavam com agricultura familiar.

O grupo também se uniu ao Cama (Centro de Artes e Meio Ambiente) para ajudar na compra de mochilas de lona e máscaras feitas pelas costureiras da organização e montagem de kits que foram distribuídos às famílias de baixa renda.

Roquelina da Silva Neves, 60, uma das costureiras que participam do Cama, conta que teve uma drástica queda na renda logo no início da pandemia e que o trabalho com costura na organização passou a ser sua principal fonte de sustento.

“Logo no começo veio uma contração muito forte [nos pedidos], e nós não estávamos acostumados. Depois, a procura por nossos produtos voltou, e, quando chegaram, deram um lucro muito bom. Trabalhamos muito, ficávamos até as 23h, mas chegamos a ganhar quase um salário mínimo nesses meses”, afirmou.

O lucro do Cama subiu 60% no período com a produção, em especial de máscaras, o que também ajudou a organização a manter a loja aberta em parceria com um shopping da região. Na atual crise, porém, o movimento não avança. De fevereiro até 19 de março, por exemplo, a receita da loja totalizou R$ 112.

Segundo Valdecir, do Odara, a expectativa é que o instituto consiga retomar os trabalhos. “Já estamos debatendo como reiniciar a campanha o mais rápido possível, mas precisamos mesmo é da vacina”, diz.

Sua principal preocupação é garantir alimento para que as pessoas não tenham de ir para a rua em busca de algum bico. “Não é normal termos mais de 2.000 mortes por dia. Participar [da campanha] não é fazer caridade, é um ato político pela vida”, afirma.

Em outra vertente atuam organizações de apoio a microempreendedores individuais. Adriana Barbosa, fundadora e presidente do Instituto Feira Preta, reforça que negros e indígenas já enfrentam maior dificuldade para se inserir no mercado de trabalho formal em tempos normais e que a situação se torna mais precária na pandemia justamente para esse segmento.

“O Brasil é um país racista e criou a desigualdade de forma estruturante durante anos. E, em momentos como este, fatores como a falta de acesso a crédito e tecnologia só se acentuam. A desigualdade tem cara, e ela é preta”, disse.

O Instituto Feira Preta é uma das organizações fundadoras do Fundo Éditodos, organização idealizada em 2017 para apoiar o empreendedorismo negro. Ao longo da pandemia, o fundo captou mais de R$ 1 milhão e utilizou os recursos para irrigar mais de 600 empreendimentos. O tíquete médio foi de R$ 1.500 a R$ 2.500 por liberação.

“Além dos recursos cedidos a fundo perdido, fizemos sessões de mentoria, contratamos psicólogas para auxílio emocional, liberamos crédito para a compra de serviços de internet e distribuímos vales-alimentação”, diz Barbosa.

O fundo Éditodos abre inscrições anuais a empreendedores. “Estamos tentando captar mais recursos, porque o dinheiro é finito, mas a pandemia continua”, afirma Barbosa.

A designer de moda e dona da marca Nega Antônia, Yeda Amaral, 68, foi uma das beneficiadas pelo fundo Éditodos. Amaral utilizou os recursos para abrir um canal de vendas digitais e conseguir preservar a loja que tem em Pinheiros, bairro de classe média na zona oeste da capital paulista.

“Com a pandemia, todas as feiras das quais eu participava para vender os produtos foram suspensas, e nós ficamos com um grande volume estocado”, afirma. “Estamos tentando vender pela internet, investir na marca para que ela não suma.”

Amaral tem esperança de que vai atravessar a nova rodada de medidas de restrição em São Paulo reforçando a migração das vendas para os meios digitais.

“Eu não sei quantos empreendedores se perderam pelo caminho porque não conseguiram se manter na pandemia, mas estamos todos lutando com unhas e dentes para não nos afogarmos”, afirma.

“Agora, a ideia é montar um site para mim e, sim, ainda estou patinando um pouco na era virtual, mas a sociedade muda e nós temos que mudar com ela.”

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