Encontro do Mercosul ocorre sob temor de novas variantes do coronavírus

Agenda de temas econômicos inclui discussão sobre flexibilização da Tarifa Interna Comum e acordos com países fora do bloco

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Buenos Aires

A reunião do Mercosul nesta sexta-feira (25) será marcada, de diferentes maneiras, pelos efeitos da pandemia, tanto no evento como na economia dos países-membro. O encontro, que comemora os 30 anos do bloco, será virtual, apesar de inicialmente ter sido planejado para ser presencial, e também viabilizar um primeiro encontro bilateral entre os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, anfitrião do evento.

A Argentina exerce a presidência pro-tempore do bloco.

Qualquer comemoração se tornou inviável, no entanto, com a deterioração do cenário sanitário. A reunião acaba ocorrendo no momento em que os países-membro estão tomando novas medidas de restrição para conter a segunda onda do coronavírus, considerada mais complicada pelo surgimento de novas variantes, especialmente daquelas surgidas no Brasil.

Videoconferência da cúpula de chefes de Estado do Mercosul - Isac Nóbrega - 16.dez.2020/Presidência da República

O Paraguai, cujo colapso sanitário e a ocupação total dos leitos de UTI foram anunciados no último sábado (20), divulgará novas medidas relacionadas à mobilidade dos cidadãos, como fechamento de comércios e escolas e maior controle do trânsito na fronteira.

O Uruguai também restringiu atividades, interrompeu as aulas e está priorizando a vacinação na região de fronteira com o Brasil, onde há focos de casos.

A Argentina, por sua vez, prepara um pacote de redução drástica de voos internacionais, com foco nas rotas que ligam o país ao Brasil. A projeção é que o trânsito aéreo seja reduzido ao mínimo possível. O presidente Fernández também planeja enviar tropas para vigiar as fronteiras do país.

Neste ambiente pouco comemorativo, porém, alguns temas devem avançar, como a discussão sobre o estatuto de cidadania do Mercosul, ampliando direitos dos habitantes do bloco nos demais países. Também a situação da Bolívia, que ainda não é membro pleno do bloco, será debatida. O país pleiteia ser um membro integral há sete anos, mas o processo tem sido lento e precisa ser aprovado pelos Congressos dos demais países.

A Argentina deseja acelerar a entrada de seu aliado regional, que também seria uma forma de reforçar o setor mais à esquerda do bloco, uma vez que os demais países são governados pela centro-direita e pela direita.

Além dos presidentes dos países fundadores do bloco, Jair Bolsonaro (Brasil), Alberto Fernández (Argentina), Luis Lacalle Pou (Uruguai) e Mario Abdo Benítez (Paraguai), estarão presentes Luis Arce (Bolívia) e Sebastián Piñera (Chile).

O encontro ocorre a partir das 10h e será transmitido a partir da Casa Rosada.

A questão da Venezuela deve dividir posições entre os países, uma vez que a Argentina, na última quarta-feira (24) decidiu sair do Grupo de Lima, o que sinaliza uma suavização ainda maior de sua relação com o regime de Nicolás Maduro e pode causar algum desgaste em seu vínculo bilateral com os EUA.

Também estarão em discussão a redução das TEC (tarifa externa comum) e a flexibilização das regras do Mercosul para possibilitar acordos comerciais com países por fora do bloco. Essa posição é defendida por Brasil, Paraguai e Uruguai, mas enfrenta resistência da Argentina. Existe a expectativa de que as discussões possam avançar, embora a posição argentina seja um obstáculo.

Ainda que as trocas de farpas sejam uma tônica entre Bolsonaro e Fernández, a relação bilateral de Brasil e Argentina tem tido muitos avanços nos últimos meses. Ministros dos dois países realizaram encontros virtuais e reais nas áreas agrícola, de defesa e de energia. O resultado foi a solução de muitos entraves técnicos que obstruíam parte do intercâmbio comercial de produtos agrícolas e avanços no setor de produção conjunta de equipamento militar.

Embora não tenha havido ainda um encontro presencial entre ambos os mandatários, em outros níveis do governo, o diálogo vem avançando. Em janeiro, o secretário de Assuntos Estratégicos do Brasil, o almirante Flavio Viana Rocha, visitou Buenos Aires e teve encontros com altos funcionários do gabinete argentino, inclusive com o presidente Fernández.

A relação áspera dos presidentes pode ser interpretada como saída para manter aberto o diálogo com o eleitorado interno. Bolsonaro, que várias vezes apontou a Argentina como um país "comunista" que estaria "tomando o rumo da Venezuela", tem pouco interesse em sair numa foto cumprimentando Fernández. Prefere referir-se apenas ao país, chamando-o de "querida Argentina". E, para Fernández, que se apoia nos votos mais à esquerda do kirchnerismo, tampouco deseja parecer estar mais próximo a Bolsonaro —algo que custou a seu antecessor, Mauricio Macri, parte da perda de popularidade que colaborou para a derrota nas eleições de 2019.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.