Grandes bancos elevam crédito para clientes mais arriscados na pandemia

Dado consta de levantamento do Banco Central sobre financiamentos liberados por seis das maiores instituições do Brasil

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Brasília

De acordo com dados mais recentes do BC (Banco Central), os seis dos maiores bancos do país liberaram R$ 200 bilhões a mais em crédito para empresas com o agravamento da pandemia. Juntas, essas instituições emprestaram R$ 1,2 trilhão entre janeiro e setembro de 2020, contra R$ 1 trilhão no mesmo período do ano anterior.

Foram consideradas as carteiras de Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Santander, Caixa Econômica Federal e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O levantamento não levou em consideração o crédito concedido por instituições no exterior.

Avaliando a carteira dos bancos pelo risco das operações, chama a atenção no levantamento do BC o aumento de empréstimos para clientes com mais chances de atrasarem pagamentos ou até ficarem inadimplentes.

Bares fechados na rua Aspicuelta, na Vila Madalena, reduto boêmio de SP, nesta segunda (15), quando começaram novas medidas de restrição - Eduardo Anizelli/Folhapress

Os bancos brasileiros costumam ser conservadores na liberação de crédito durante crises financeiras. Nesta, porém, houve uma mudança. Embora ainda concentrem negócios com clientes de baixo risco (AA e A), aumentou a quantidade de contratos fechados com clientes das categorias B,C e até D.

No BNDES, por exemplo, cresceram até mesmo as operações com clientes que oferecem os piores riscos do mercado (F até H).

No Bradesco, o peso de contratos risco B e C saltou de 20,7% para 35,5% da carteira. No BB também ocorreu movimento similar.

O Itaú se mostrou o banco mais conservador durante a pandemia, mantendo o perfil da carteira, que prioriza os contratos de baixo risco (80% da carteira).

No início da pandemia, os bancos privados ficaram cautelosos diante dos estímulos do governo para concessão de crédito. Eles preferiam deixar BB e Caixa na linha de frente à espera dos efeitos da crise.
No entanto, até mesmo essas instituições mostraram-se cautelosas.

Na época, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, disse em entrevista à Folha que, “apesar de ser um banco social, a Caixa era um banco” e que iria exigir as contrapartidas necessárias para que não perdesse dinheiro nesse programa de auxílio às empresas.

Os grandes bancos operam com folga de capital (lastro próprio para bancar uma expansão repentina da oferta de crédito), mas a percepção entre os economistas é que as adversidades aumentaram. O país chegou a 13,4 milhões de desempregados, a inflação segue em alta e os juros tendem a subir pela primeira vez depois de quase seis anos.

Ao mesmo tempo, o governo anunciou o aumento da CSLL (Contribuição Sobre Lucro Líquido). Esse imposto já havia sido elevado de 15% para 20% e, agora, está previsto um aumento para 25% até o final deste ano. A alta reforça o caixa da União no momento em que o presidente Jair Bolsonaro faz forte defesa pela redução da tributação sobre os combustíveis e o governo prepara uma nova rodada do auxílio emergencial.

Para contornar esses efeitos, os bancos já projetam que vão aumentar os juros dos financiamentos ou reduzir a quantidade de recursos para novos empréstimos. Há casos em que a instituição avalia uma combinação das duas coisas —aumentar menos o juro e, de outro lado, apertar a torneira do crédito novo.

Essa nova postura pode reverter o quadro que se viu ano passado em relação às pequenas e médias empresas. O levantamento do BC mostra que ocorreu em 2020 uma ligeira alteração em relação ao porte do tomador de crédito.

As médias e grandes empresas ainda ficaram com a maior parcela, respondendo por 83,1% dos empréstimos, mas as pequenas levaram 13,6% do total, o que indica um aumento de seu peso na carteira de crédito de forma geral. No mesmo período de 2019, essas participações eram de 86,6% e 9,8%, respectivamente. Porém, houve uma ligeira queda na participação das microempresas. Era de 3,5% e caiu para 3,3%

Pelo levantamento do BC, é possível ver que as pequenas empresas receberam em 2020, até setembro, R$ 63 bilhões a mais do que no mesmo período do ano anterior. A maior parte dos contratos foi fechada a partir de março, quando os efeitos do isolamento levaram ao fechamento de lojas e fábricas.

Segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa), o caixa dessas empresas resiste, em média, a quinze dias sem atividade. Empresas de maior porte costumam ter capital de giro suficiente para algo entre dois e três meses na mesma situação.

O Santander mais que dobrou sua participação nesse segmento, passando de 10,4%, no período considerado de 2019, para 21,6%, em 2020. No Bradesco, essa participação foi de cerca de 18% para 27,3% e no BB, de 10% para 12%.

Quem mais atendeu as microempresas foram Caixa Econômica Federal (de 6,4% para 8,3%) e o BB (de 1% para cerca de 2%). Nessa categoria, todos os demais bancos reduziram seus empréstimos devido, especialmente, à escassez de novas garantias a serem apresentadas.

Em geral, esse grupo apresenta a própria receita futura (venda parcelada no crédito, por exemplo) como garantia. Com o fechamento do comércio, ficaram dependentes das políticas lançadas pelo governo para tentar viabilizar mecanismos de empréstimos garantidos pela União.

No entanto, esses programas enfrentaram dificuldades na sua elaboração, retardando a liberação de recursos. Foi o caso do Pronampe, que o governo agora estuda aprimorar para permitir uma carência maior para o início do pagamento.

Ainda assim, o Pronampe pode ser considerado um sucesso, pois acabou respondendo por cerca de 18% do total liberado, R$ 37,5 bilhões.

A maior parte foi desembolsada pelo Itaú Unibanco: R$ 22,3 bilhões em contratos.

O Levantamento do setor financeiro sobre sua atualização contabiliza a participação dos bancos na pandemia com outro recorte, mais amplo que o adotado pelo BC.

Segundo a Febraban (Federação Brasileira dos Bancos), durante a pandemia, as instituições emprestaram R$ 3,4 trilhões considerando renovações de contratos (R$ 325 bilhões), repactuação (R$ 105,1 bilhões) e a suspensão de parcelas, algo que somou R$ 150 bilhões —tanto para empresas quanto para pessoas físicas.

Esses valores deram fôlego financeiro imediato para empresas, que passaram a ter uma carência de até três meses para pagar suas prestações. Os maiores beneficiados, de acordo com a associação, foram as pequenas empresas.

Por meio de sua assessoria, o Itaú disse que, durante a pandemia, combinou medidas de oferta de crédito novo e a modulação de pagamentos de contratos em curso de acordo com a “capacidade financeira dos clientes”. Essa flexibilização foi de R$ 50,8 bilhões até dezembro, sendo que R$ 12,4 bilhões foram para pequenas e microempresas.

O Banco do Brasil informou que atendeu as grandes companhias por meio de operações de mercado de capitais (emissão de dívida, por exemplo), o que permitiu concentrar desembolsos de crédito para pequenas e médias empresas. Segundo o banco, enquanto a carteira de empresas cresceu 8%, a de pequenas e médias cresceu 11% até setembro, e com alta de 25% até dezembro.

O BB afirmou ainda que “manteve os parâmetros de sua política de crédito” e que a mudança de risco de operações é explicada pelos efeitos da pandemia.

O Santander disse que sua carteira de crédito para pessoa jurídica cresceu 27,9% no ano, explicado pela expansão de 46,8% em capital de giro, dinheiro rápido para as empresas manterem suas atividades.

“O segmento PJ foi beneficiado pela concessão das linhas de crédito governamentais. Encerramos o ano com saldo de R$ 14 bilhões nesses programas”, disse a assessoria do banco.

A Caixa informou que, graças aos programas emergenciais do governo como o Pese, Pronampe, Peac-FGI e Peac Maquininhas, além do Fampe, fruto de parceria do banco com o Sebrae, emprestou mais de R$ 37 bilhões, beneficiando mais de 300 mil empresas.

"Tais programas permitiram novas estruturas de garantias que, aliadas aos movimentos de liquidez, ampliaram o acesso ao crédito", disse a Caixa via assessoria.

O BNDES informou que a ampliação do crédito a clientes corporativos com maior risco se justificou pelo apoio dado pelos programas de governo. Além disso, foram feitos provisionamentos para dar conta ao novo cenário da oferta de crédito.

Consultado, o Bradesco não quis comentar.

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