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Pequim pede para o Alibaba vender ativos de mídia

Influência das companhias é considerada um sério desafio ao Partido Comunista chinês e seu aparato de propaganda

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Jing Yan / The Wall Street Journal

O governo da China pediu ao grupo Alibaba que se desfaça de seus ativos de mídia, pois as autoridades estão cada vez mais preocupadas com a influência das gigantes tecnológicas na opinião pública do país, segundo pessoas inteiradas do assunto.

As discussões ocorrem desde o início do ano, depois que reguladores chineses revisaram uma lista de ativos de mídia de propriedade da companhia sediada em Hangzhou, cujo principal negócio é o varejo online. As autoridades ficaram incrédulas ao ver como os interesses de mídia do Alibaba se expandiram, e pediram que a companhia apresente um plano para reduzir substancialmente sua posição em mídia, disseram as pessoas. O governo não especificou que ativos precisariam ser dispensados.

Jack Ma, fundador do Alibaba e homem mais rico da China, durante evento com empresários em Paris, em 2019 - Charles Platiau - 16.mai.19/Reuters

O Alibaba, fundado pelo bilionário Jack Ma, montou ao longo dos anos um portfólio formidável de ativos de mídia, que incluem imprensa, rádio e televisão, redes sociais e publicidade. Entre seus ativos estão participações na plataforma Weibo, semelhante ao Twitter, e em vários canais populares digitais e impressos da China, assim como o South China Morning Post, importante jornal de Hong Kong em língua inglesa. Vários desses ativos são companhias listadas em Bolsa nos Estados Unidos.

Tal influência é considerada um sério desafio ao Partido Comunista chinês e seu poderoso aparato de propaganda, segundo as pessoas informadas.

O departamento de propaganda do partido não respondeu a um pedido de comentário enviado via fax.

O Alibaba não quis comentar as discussões com reguladores referentes à possível venda de ativos de mídia. Em comunicado, a companhia disse que é um investidor financeiro passivo em ativos de mídia. "O objetivo de nossos investimentos nessas companhias é oferecer apoio tecnológico para seu aperfeiçoamento nos negócios e conduzir sinergias comerciais com nosso núcleo de empresas comerciais. Nós não intervimos ou nos envolvemos nas operações cotidianas das companhias ou em suas decisões editoriais", disse o comunicado.

As discussões sobre venda de ativos são o último capítulo em uma série de encontros entre o governo de Pequim e Jack Ma, que já foi o empresário mais célebre da China. No final do ano passado, o líder chinês, Xi Jinping, furou pessoalmente os planos do Ant Group —a afiliada de tecnologia financeira do —Alibaba de lançar a que teria sido a maior oferta pública inicial do mundo, em meio à crescente preocupação de Pequim sobre a complexa estrutura proprietária do Ant e de que ele acrescentasse riscos ao sistema financeiro. Xi também estava irritado com Ma por criticar seus esforços para aumentar a supervisão financeira.

Os reguladores antitruste também estão se preparando para aplicar uma multa recorde de mais de US$ 975 milhões pelo que consideram práticas anticompetitivas das plataformas de comércio eletrônico do Alibaba, segundo relatou anteriormente o Wall Street Journal, citando pessoas informadas do assunto. Além disso, o Alibaba teria de encerrar a prática pela qual, segundo os reguladores, a gigante tecnológica proibia os comerciantes de vender produtos no Alibaba e em plataformas rivais.

Além de mídia e varejo online, o Alibaba também tem uma ampla divisão de entretenimento, consistindo principalmente na Alibaba Pictures, listada em Hong Kong, e a Youku Tudou, uma das maiores plataformas de streaming de vídeo da China. As autoridades também revisaram a carteira de entretenimento do Alibaba, embora nessa área talvez não seja necessário se desfazer de ativos, segundo pessoas inteiradas das discussões relacionadas ao negócio de entretenimento do Alibaba.

Não está claro se o Alibaba terá de vender todos os seus ativos de mídia. Qualquer plano que o Alibaba apresente terá de ser aprovado pela alta liderança chinesa, segundo as fontes consultadas.

As preocupações do governo aumentaram nos últimos anos sobre a influência do Alibaba na mídia e como a companhia pode ter usado seus investimentos em jornalismo e redes sociais para influenciar políticas do governo consideradas desfavoráveis a seus negócios.

Essas preocupações cresceram depois de um incidente em maio do ano passado, quando dezenas de posts no Weibo sobre um alto executivo do Alibaba que estaria envolvido em um caso extraconjugal foram apagados.

Uma investigação posterior da Administração do Ciberespaço da China, órgão regulador da internet, descobriu que o Alibaba foi responsável pela interferência nas postagens no Weibo e disse que a companhia usou "capital para manipular a opinião pública" em um relatório à liderança, registrou o Wall Street Journal, citando autoridades que viram o relatório. É o Partido Comunista que controla a opinião pública em todas as plataformas de mídia, e o setor privado não deve assumir esse papel, disseram as autoridades.

O Alibaba possui cerca de 30% da Weibo Corp., listada na Nasdaq, e tem sido o maior cliente da empresa de rede social, tendo contribuído com quase US$ 100 milhões em publicidade e receitas de marketing em 2019 para sua plataforma, segundo os dados anuais mais recentes disponíveis.

Em junho, o regulador da internet criticou publicamente o Weibo pelo que chamou de "interferência nas comunicações online" e lhe pediu que retificasse a situação. Em novembro, Xu Lin, vice-diretor do departamento de propaganda do Partido Comunista, disse em um fórum público que a China deve "decididamente proibir a diluição da liderança do partido em nome da convergência [da mídia], resolutamente se proteger contra riscos de o capital manipular a opinião pública".

Ele não identificou o Alibaba pelo nome durante o discurso, mas usou as palavras que aparecem no relatório do regulador da internet.

Desfazer-se de seus interesses de mídia não é necessariamente um grande problema para o Alibaba, que poderia ressurgir do choque regulatório em uma posição mais segura com Pequim depois de abandonar alguns ativos não essenciais. Também poderia ajudar a afastar a companhia de futuros campos minados políticos enquanto as autoridades mantêm mão firme sobre a mídia.

O Alibaba não é a única gigante tecnológica chinesa que atua na mídia. O serviço de mensagens WeChat, da Tencent Holdings, tornou-se uma das formas básicas da população chinesa para obter notícias. A Bytedance opera o popular agregador de notícias Jinri Toutiao, que emprega inteligência artificial para enviar notícias a centenas de milhões de usuários.

Não está claro se alguma outra companhia tecnológica terá de seguir o mesmo padrão que o Alibaba e considerar a venda de ativos de mídia.

Os investimentos do Alibaba em mídia começaram antes que a companhia ganhasse fama internacional com sua IPO na Bolsa de Nova York em 2014, um recorde na época. Com os anos, Alibaba e Ant compraram posições em alguns dos canais de mídia mais populares do país, como o Yicai Media Group, enfocado em negócios, e os portais tecnológicos Huxiu.com e 36Kr.com.

Uma das aquisições mais destacadas foi a do jornal South China Morning Post, que tem origens na era do regime colonial britânico em Hong Kong. O Alibaba também montou joint ventures ou parcerias com poderosas mídias estatais, como a agência de notícias Xinhua e grupos de jornais dirigidos pelo governo nas províncias de Zhejiang e Sichuan.

Canais de mídia muitas vezes recebem com entusiasmo as propostas do Alibaba, pelos bolsos fundos e a expertise digital da gigante tecnológica. Desde que foi comprado pelo Alibaba em 2016, o Post expandiu suas ofertas de notícias digitais e sua equipe editorial e completou uma reforma de sua sede em Hong Kong.

Alguns jornalistas e leitores temeram que o Alibaba, que tem escritórios alguns andares acima da redação do Post, interferisse na cobertura do jornal para agradar a Pequim. Mas o jornal às vezes publica reportagens que parecem desagradar à liderança chinesa, incluindo extensa cobertura dos protestos em Hong Kong em 2019 e 2020 e o crescente controle de Pequim na cidade.

Ma, explicando os motivos de sua aquisição do Post, disse em um fórum público em 2017 que nunca interferiu com operações de redação e que respeita o jornalismo.

"Não devemos deixar a mídia cair, não devemos deixar a mídia se perder, e não devemos deixar a mídia perder o objetivo e a comunicação racional por causa de dinheiro", disse Ma no evento, organizado pela Xinhua.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

WSJ

Conteúdo licenciado pelo Wall Street Journal para publicação na Folha de S.Paulo, a responsável pela tradução para o português.

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